Crítica | O Velho e O Mar, de Ernest Hemingway

O que torna um romance uma obra clássica e, por sua vez, canônica? Dentre tantos motivos delineados pelos ensaios de Harold Bloom e Ítalo Calvino, destaca-se a permanência da obra na memória coletiva, pois são textos que falam de uma época, mas não se desgastam enquanto tema. Se olharmos para Odisseu, Enéas, Dom Quixote e outros personagens icônicos da nossa literatura, a percepção é a de que são todos “lutadores”, isto é, criaturas ficcionais que travaram batalhas físicas e psicológicas para permanecerem relevantes no extenso tecido literário cuidadosamente urdido por nossa história cultural.

Santiago, igualmente lutador, é mais um dos personagens memoráveis neste painel de relevância literária. Brilhantemente desenvolvido por Hemingway, o velho de 84 anos é referência em outros campos do saber, dentre eles, as palestras e artigos de Cássio Saclavisky, consultor de empresas e mestre em Marketing, especialista em mercado que alega a necessidade de lutarmos com criatividade quando estamos diante de um cenário em disputas e concorrência. O romance escrito enquanto Hemingway se encontrava “exilado” em Cuba durante os anos 1950 é uma alegoria da inovação, da luta e da persistência. Resumindo: um clássico que em 2018 ganhou a sua 94ª edição e uma tradução intersemiótica para o formato HQ, sob a assinatura do designer francês Thierry Murat.

O Velho e o Mar é um romance metafórico, tendo como uma de suas possíveis interpretações a compreensão do processo artístico e da condição humana, construído por um escritor de vida relativamente longa e literariamente produtiva, mas que infelizmente encerrou a sua trajetória de maneira trágica, por meio de um suicídio em 1961. Na época em que foi escrita, a história do pescador Santiago veio para reforçar o talento de Hemingway como escritor, já que a crítica, em 1950, o considerava em fim de carreira, “acabado”, dentre outras definições típicas de um campo que adora fazer previsões.

Os dados, por sua vez, realmente levavam as pessoas a acreditar nos especialistas. O último sucesso do escritor tinha sido Por Quem os Sinos Dobram, publicado em 1940, recepcionado de maneira diferente de Na Outra Margem, Entre as Árvores, produção bastante criticada e considerada “menor” quando observada que vinha de alguém com o potencial de Hemingway. Foi então que em 1952 ele enviou o original de O Velho e o Mar para seu editor, na crença de que ali estava a sua “obra-prima”. E, de fato, para os que achavam que o escritor estava na pior, ele provou justamente o contrário. O romance lhe rendeu um troféu do Prêmio Nobel de Literatura no ano seguinte ao lançamento, além do visto de permanência no cânone literário estadunidense.

Por meio de recursos literários simples, mas temática filosoficamente sofisticada, o romance retrata o complicado cotidiano de Santiago, um pescador cubano tido como azarão por todos, haja vista o seu fracasso nas empreitadas marinhas para pescar. Há 84 dias sem conseguir nada, o pescador finalmente fisga um marlim de enormes proporções, em média 700 quilos, algo que só encontra precedentes literários no clássico Moby Dick, de Melville, escrito e publicado no século XIX. O problema é que no trajeto de retorno, Santiago precisa lutar com os tubarões que devoram o peixe aos poucos, deixando apenas a carcaça. Ele venceu uma etapa, mas perdeu em outra. A “luta”, pelo que vemos, ainda continuará na saga deste obstinado pescador.

Após um sufocante período de três meses sem conseguir pescar ao menos um peixe minúsculo, Santiago enfrenta a solidão do mar e expõe os seus filosóficos monólogos que reforçam a sua condição miserável. Desacreditado, não consegue mais ajuda, pois o pequeno Manolin, um aprendiz que vê no “velho” um poço de sabedoria, recebe ordem dos pais de não mais acompanhar Santiago nas empreitadas de pesca, afinal, os resultados são sempre inexpressivos, quando não inexistentes.

Tudo isso é narrado por um texto discreto e sem movimentos bruscos em termos de ação. As coisas acontecem pausadamente, num fluxo vagaroso e sutil, algo um pouco próximo do “culto ao simples” comum na literatura estadunidense dos anos 1930, em especial, nas obras de Upton Sinclair e John Steinbeck. Isso não impede, no entanto, que a narrativa não tenha um tom de epopeia, erguida por meio de uma história que registra os limites da capacidade humana.

Há afirmações cabais da presença autobiográfica de Hemingway, principalmente no que diz respeito ao pescador, versão literária de Gregorio Fuentes, capitão e dono do barco de pesca Pilar, amigo de longa data do escritor. Da mesma maneira que o personagem, Fuentes era magro e tinha olhos azuis, além de exalar experiência diante do que fazia e ter nascido nas Ilhas Canárias. Delineado por meio de recursos simples e bastante coesos, o personagem é exposto por meio de suas dimensões (física, psicológica e social) enquanto ser ficcional, responsável por inspirar adaptações audiovisuais para o cinema live action e animação.

Homem de largas experiências, Hemingway viveu uma agitada “existência”. Nascido em 1899, começou a escrever aos 18 anos em um jornal e alistou-se como voluntário logo que os Estados Unidos deram o primeiro passo rumo ao conflitos bélicos da Primeira Guerra Mundial. Depois do tenebroso período, dedicou-se também ao campo da literatura, com entrada em 1926, ano de lançamento do seu primeiro livro, O Sol Também se Levanta.

Contemporaneamente, Hemingway e seu “velho” habitam o imaginário cultural e são constantemente estudados, reeditados, traduzidos, lidos e relidos, bem como veiculados pela indústria do turismo para fornecer aura memorialística e intelectual para drinks e museu em Cuba e nos Estados Unidos. A experiência de derrota de Santiago ganhou uma dimensão profunda no interior do romance, mas na vida real, rendeu um escritor talentoso que até então tinha sido considerado um dos esquecidos pela crítica e pelo público.

O Velho e o Mar (Cuba,1952)
Autor: Ernest Hemingway
Editora no Brasil: Bertrand Brasil
Tradução: Fernando de Castro Ferro
Páginas: 126

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.