Crítica | O Verão de Sam

Um assassino que escarnecia da polícia a cada crime. Um calor insuportável e mexer com os ânimos de uma sociedade já em efervescência. Relações que trafegam por um fio tênue entre o amor e o ódio. Esses e outros elementos fazem parte da concepção dramática do tenso e crítico O Verão de Sam, um dos filmes de Spike Lee em sua melhor forma. O cineasta faz uma cuidadosa reconstrução histórica para abordar, mais uma vez, o preconceito. Os negros ficam de fora do centro nervoso da trama, mas a temática abrange o conflituoso caldeirão de culturas em conflitos nos Estados Unidos, questão situada geograficamente, mas que atualmente pode ser debatida das diversas localidades do nosso mundo global e cada vez mais em “pé de guerra”.

Repleto de bons diálogos e cenas características dos momentos finais dos anos 1970, Spike Lee assina o roteiro em parceria com Victor Colicchio e Michael Imperioli, numa história com seguinte mote: um psicopata que se intitulou O Filho de Sam aterrorizou as ruas de Nova Iorque em 1977, desafiando constantemente as investigações policiais. Reflexo de uma sociedade com crescimento vertiginoso da violência urbana, uma temática constante na produção do cineasta, O Verão de Sam segue a trajetória do assassino e de seu revólver calibre 44.

Ao utilizar o período de tensão como pano de fundo para a ideia central do roteiro, isto é, o preconceito e a intolerância, os realizadores mergulham na comunidade de italianos no Bronx, tendo em vista fazer uma radiografia das tensões culturais, sociais e raciais da “Meca” dos imigrantes. No local, Joey T. (Michael Rispoli) é um dos líderes de uma “tribo” bastante problemática que começa a fazer uma lista dos suspeitos pelos crimes. Quem estaria por detrás da alcunha do “Filho de Sam”?

É a partir daí que a narrativa começa a dialogar com o que chamamos de “comédia do absurdo”, pois os supostos cidadãos de bem começam a se comportar de maneira mais animalesca que o principal “monstro” do filme, o assassino que tinha como preferência as mulheres morenas, o que culminou num fluxo grandioso de jovens tingindo os cabelos de loiro, numa tentativa de escapar do posto de provável próxima vítima. Assim, por meio de um comportamento de “manada”, as pessoas começam a agir impulsionadas por imediatismos.

Nada demais no comportamento das mulheres que pintam os cabelos para fugir das estatísticas de criminalidade, afinal, a mídia reforça o tom de caos e exercita fidedignamente o conceito de cultura do medo, o que torna a saída de casa uma ação acompanhada por muita paranoia. O grande problema está no grupo que elenca os suspeitos. Eles chegam à uma conclusão absurda, ao eleger Richie (Adrien Brody), jovem que passa por uma transformação física e comportamental significativa ao longo dos 142 minutos de filme.

Inicialmente filho de uma família disfuncional, o jovem assume postura punk e sofre os preconceitos que culminam no desfecho que beira ao trágico. Ele é um grande amigo de Vinny (John Leguizamo), outro ponto da narrativa que prefere analisar a comunidade, ao invés de eleger poucos protagonistas, o que não impede o roteiro de aprofundar os seus personagens mais frequentes em tela. Enquanto Richie se envolve com Ruby (Jennifer Esposito), uma mulher de “espírito livre”, tratada como a vadia da comunidade, Vinny segue a sua vida atormentado pelo sentimento de culpa ao trair Dionna (Mira Sorvino), a sua esposa, constantemente.

O casal vive em regime de tensão crescente, pois a relação vai mal, ele não consegue vê-la sexualmente, num curioso caso de complexo da Madona/prostituta, situação que ocasiona alguns dos principais conflitos da história, isto é, a crise de um jovem casal em meio ao contexto de violência e insegurança, não apenas no “macro” tecido social, mas também no bojo da “micro” relação cotidiana de cada indivíduo.

Para contar a sua história, Spike Lee utiliza a já citada estrutura da comédia do absurdo para conduzir os acontecimentos que dialogam veementemente com Faça a Coisa Certa. Por meio do humor que tem como base, violações casuais de raciocínio, permeadas por posturas “ilógicas”, construídas por meio de situações subversivas e imprevisíveis, o cineasta ergue a sua produção, lançada em 1999, ano de realizações profícuas do cinema estadunidense.  Com trilha sonora que ajuda o espectador a mergulhar na reconstituição histórica, O Verão de Sam traz The Who, Frank Sinatra, ABBA, dentre outros sucessos que marcaram profundamente várias gerações, em especial, a representada no filme, com jovens arriscando as suas vidas para curtir uma balada nas boates mais quentes da época.

Diante do exposto, podemos perceber que O Verão de Sam é um filme bem sucedido. Uma história coesa e instigante, narrada por meio da adequada direção de fotografia de Ellen Kuras, acompanhada da condução musical de Terence Blanchard e da direção de arte cuidadosa de Therese DePrez. O elenco engajado dá brilho ao filme, algo que na soma traz um resultado positivo, tendo como “porém” apenas o demasiado tempo de duração, afinal, o cineasta poderia ter contado a sua história sem alongar tanto, quase perdendo o ritmo em alguns trechos.

Ademais, para o desfecho, cabe ressaltar que o filme mergulha num período muito conturbado da história relativamente recente dos Estados Unidos. O verão de 1977 foi, como apontado anteriormente, um dos mais quentes, conhecido por registrar temperaturas superiores aos 40 graus. Foi também o ano da morte do ícone Elvis Presley, da abertura da “mitológica” casa noturna Studio 54, além de ter sido a época do blecaute causado por descuido de uma companhia elétrica, o que causou uma gigantesca onda de saques e crimes. Quer mais? Pois em 1977, uma série de bombas terroristas foi disparada na cidade, material atribuído aos porto-riquenhos. Tenso, caro leitor, o verão de 1977 foi extremamente caótico e Spike Lee consegue dramatizar isso muito bem.

O Verão de Sam (Summer of Sam, Estados Unidos – 1999)
Direção: Spike Lee
Roteiro: Michael Imperioli, Spike Lee, Victor Colicchio
Elenco: Adrien Brody, Al Palagonia, Brian Tarantina, Jennifer Esposito, John Leguizamo, Michael Rispoli, Mira Sorvino, Saverio Guerra
Duração: 142 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.