Crítica | O Viés Médico na Literatura de Guimarães Rosa, de Eugênio Marcos Andrade Goulart

Sabemos da importância de Guimarães Rosa para a história da literatura brasileira. Autor publicado em diversas línguas, o mineiro escreveu poemas e contos, tendo Grande Sertão: Veredas como a sua obra-prima, um relato profundo, complexo e gigantesco sobre a saga de Riobaldo, Diadorim e um contingente imenso de personagens e locais pelos meandros do sertão de Minas Gerais. “Imortal” da Academia Brasileira de Letras, Guimarães Rosa fez fama como escritor, mas tinha formação em Medicina, profissão que exerceu durante algum tempo diante das poucas opções tecnológicas e avanços científicos ainda em processo de evolução. É sobre a inserção de seu conhecimento médico na literatura que Eugênio Marcos Andrade Goulart, professor de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais reflete a presença da área no livro O Viés Médico na Literatura de Guimarães Rosa, um percurso curto, mas bem elucidativo, sobre um lado que as pessoas envolvidas nas tramas e desenvolvimento de personagens devem sequer se dar conta.

Lançado em 2011, o livro possui uma diagramação questionável, bem como linguagem que poderia se desenvolver de maneira mais ensaística, sem tantas amarras supostamente acadêmicas. No entanto, se deixarmos esse detalhe de lado, tenha certeza que vai adentrar num olhar curioso e diferenciado sobre um escritor que já ganhou diversas leituras acadêmicas, mas poucas ou talvez nenhuma tão significativa como essa, caso olhemos pelo viés proposto, isto é, a presença de celeumas como hanseníase, malária, varíola, tuberculose, as doenças psiquiátricas e incidentes com Ofidismo. A publicação é iniciada com o prefácio de João Gabriel Marques Fonseca, tendo como destaque nos apresentar ao livro e revelar a sua importância científica. Ele exalta entre um ponto e outro do breve texto, as abordagens médicas, sociais, políticas e religiosas da obra de Guimarães Rosa.

Essa reflexão é a porta de entrada para Um Certo Dr. João, primeiro capítulo, desenvolvido para nos expor as primeiras jornadas do médico Guimarães Rosa pelos confins de Minas Gerais. De caráter biográfico, o trecho é pouco sedutor enquanto leitura, pois traz obviedades biográficas que podem ser contempladas depois em outros momentos da publicação, geralmente a explicar as doenças, aponta-las nas obras e relacioná-las com as experiências do escritor diante do tema em questão. Pequenas passagens salientam o desenvolvimento social das regiões de onde Guimarães Rosa extraiu as experiências que foram levadas da prática para os acontecimentos de seus contos e demais histórias. Seguido de Hanseníase, o segundo capítulo, acompanhamos a primeira doença analisada. É estabelecido um padrão até o sétimo capítulo, pois cada um é nomeado pela enfermidade que será retratada. Somos informados da referência ao problema, conhecido por alguns como “lepra”, no poema Reportagem, da coletânea Magma, bem como nos contos São Marcos e Corpo Fechado, de Sagarana, em Grande Sertão: Veredas, dentre outros.

Já ao longo do capítulo 03, Malária, o autor faz uma análise desse “mal” e a sua presença nos acontecimentos decorrentes das narrativas de Guimarães Rosa. Primeiro, há um panorama sobre a doença no período colonial, da sua febre que toma o enfermo aos procedimentos para a cura. Atualmente a malária apresenta-se como um problema de saúde pública em vários pontos do planeta, em especial, na saqueada África e até mesmo no Brasil. Em Magma, especificamente no poema Maleita, há uma conversa entre dois compadres sobre os males dessa enfermidade. Outra referência ocorre no conto Sarapalha, em Sagarana, recriação do poema citado anteriormente para o formato prosa.

No capítulo 04, intitulado Tuberculose, há uma breve análise do bacilo de Koch, responsável pelo problema, bem como uma panorâmica abordagem da erradicação da doença em determinados locais, haja vista o investimento em vacinação e pesquisa. Ao atingir todas as esferas da sociedade, a tuberculose não era apenas um estigma para as populações de baixa renda. O poeta Noel Rosa, inclusive, compositor famoso que morou em Belo Horizonte entre 1934 e 1935 sofreu deste mal, tal como destaca o autor em determinada passagem do capítulo. Guimarães Rosa viveu e atuou numa época em que o tratamento da tuberculose era repouso, alimentação reforçada e resguardo, principalmente em relação aos ventos fortes das regiões montanhosas de Minas Gerais. Em Corpo Fechado, conto de Sagarana, há uma menção aos tuberculosos, assim como em Manuelzão e Miguilim, em específico, no conto Campo Geral. Em Buriti, parte integrante do mesmo livro, há outro destaque para a doença, desta vez, sob o ponto de vista de uma questionável alternativa de cura, proposta por um personagem. Além destas investidas, há referências em Grande Sertão: Veredas e no conto O Recado do Morro, da coletânea No Urubuquaquá, No Pinhém.

A varíola é o tema do capítulo cinco, intitulado pelo nome da doença. Mal virótico de ordem contagiosa, teve a sua erradicação registrada em 1977. Conhecida por “bexiga negra” e “alastrim”, dizimou um contingente enorme de europeus antes da migração para o território nomeado “americano” após a sua posse e conquista. Assim como a tuberculose, a varíola adentrou na vida dos seres humanos com a domesticação milenar de bois e vacas. No conto Minha Gente (Sagarana), Guimarães Rosa comenta a enfermidade e põe em destaque a necessidade de isolamento do contagiado, tendo em vista não prejudicar outros que gravitam em torno de sua existência. Em Sucruiú, uma vila por onde passam alguns jagunços de Grande Sertão: Veredas, a epidemia encontra-se alastradas. No capítulo 06, “Ofidismo”, somos apresentados aos trechos de suas obras que retratam a inoculação de veneno das cobras peçonhentas em seres humanos. O tema, profícuo para as intenções dramáticas de suas produções literárias, esteve no poema Boiada, da coletânea Magma, além de ter destaque em São Marcos e O Burrinho Pedrês (Sagarana). Há ainda referências em Grande Sertão: Veredas e no conto Bicho Mau, de Estas Estórias, incidente que termina com a morte de um personagem.

Em Doenças Psiquiátricas, penúltimo capítulo do livro, o autor descreve alguns surtos psicóticos, dúvidas existenciais, instintos incontroláveis e alucinações constantes na obra de Guimarães Rosa. Em São Marcos, conto de Sagarana, alguém é tomado por alucinações, graças ao trabalho de feitiçaria de João Mangalô. Crente na cura por plantas medicinais e métodos que, digamos, sejam considerados mais primitivos, o escritor mineiro constantemente mescla medicina e sua relação com as crenças populares. No conto O Recado do Morro, pare integrante do livro No Urubuquaquá, no Pinhém, o personagem Gorgulho apresenta um transtorno claro, construído por meio de uma abordagem literária excepcional, algo que no viés cinematográfico ganharia dimensões visuais deslumbrantes.

Já em Buriti, conto de Noites do Sertão, o escritor delineia um curioso caso de paranoia na descrição de Chefe Ezequiel, homem que apresenta um quadro crônico de delírios. O mesmo ocorre em Soroco, Sua Mãe, Sua Filha, conto de Primeiras Estórias, coletânea que também traz um interno do hospício a ganhar as ruas, expondo suas “alucinações” em Darandina. Ainda na seara da psiquiatria, em Tutaméia, há um personagem psicopata no conto Hipotrélico e no poético A Terceira Margem do Rio, um quieto pai toma decisões supostamente inexplicáveis, fruto das artimanhas da mente humana.

Na linha para o desfecho, em seu oitavo capítulo, o autor investe na seleção e breve análise das diversas enfermidades que não ganharam destaque exclusivo nas descrições anteriores. É um punhado de doenças que se espalham como um rizoma pela vida dos que habitam os seus contos, poemas e romances. Podemos destacar a disenteria, enfermidade que envolve fezes com sangue, o escorbuto (carência de vitamina C no organismo por longo tempo), além de bouba, doença infecciosa que entrou na lista das erradicações da Organização Mundial de Saúde, na década de 1950. Miguilim, em certa passagem de sua história, desespera-se por conta da morte do irmão recém-nascido, vitimado pelo tétano neonatal, outra abordagem médica que delineia a postura de Guimarães Rosa como um escritor que mesclava grande conhecimento sobre a área que não atuo efetivamente em vida, por meio de atendimentos, mas que radiografou em suas passagens literárias consideradas centrais no cânone literário brasileiro.

Grande Sertão: Veredas é a sua obra-prima, não precisa mergulhar muito no extenso tecido crítico da historiografia literária brasileira, tampouco em vastos estudos acadêmicos. Volumosa e cheia de bifurcações que pedem a participação intensa do leitor para se encontrar diante dos caminhos, personagens e conflitos cruzados em meio ao sertão, o livro traz diversas citações de doenças que acometiam o sertão naquele período, época prévia de vacinações e descobertas científicas que abrandaram determinadas mazelas da saúde. Na saga de Riobaldo e Diadorim, nos deparamos com a epilepsia, a conjuntivite, a elefantíase, o sarampo, os sintomas agressivos da sífilis no corpo humano, etc. Há uma passagem crítica do autor em relação aos exageros roseanos na abordagem do escorbuto, conhecido mal que acometia marinheiros em suas travessias transoceânicas. Na dinâmica do sertão, por sua vez, a reflexão aponta que é uma das licenças poéticas. Havia sim, a possibilidade, mas o tempo de afastamento entre a vitamina C e os jagunços não era como na travessia marítima.

Um pequeno detalhe apenas, para pontuar adequadamente a relação médica com o posto de escritor. De volta ao capítulo final, temos a presença do hipotireoidismo no conto Os Chapéus Transeuntes, também presente em Corpo Fechado. Em O Cavalo Que Bebia Cerveja, Guimarães Rosa rememora a relação do coletivo com a Gripe Espanhola. No conto Buriti, parte integrante da coletânea Noites do Sertão, o escritor descreve o estado da personagem Maria Behú, acometida por reumatismo.

Nas Considerações Finais, o livro faz o habitual recorte dos principais pontos abordados ao longo de toda a análise e desagua em detalhes biográficos de Guimarães Rosa, tais como a sua relação com a literatura, os transtornos e inquietudes de sua mente que não ficava branda em momento algum, preço pago por seus problemas de saúde que ceifaram a sua vida um pouco cedo demais. Falecido três dias após a sua condecoração da Academia Brasileira de Letras, posto que o tornou um dos imortais da nossa história literária, Guimarães Rosa é apresentado no capítulo por meio de suas posturas derradeiras: o tabagismo em excesso, a hipertensão, o sobrepeso e a melancolia que o tomava cotidianamente. Morreu três horas após um infarto em seu escritório, durante a realização de seu exercício mais libertador: a escrita.

Diante do exposto, podemos afirmar que O Viés Médico na Literatura de Guimarães Rosa é uma publicação que contribui bastante para a nossa ampliação dos olhares em relação ao rico arsenal literário deixado pelo escritor mineiro, geralmente analisado pelos teóricos e estudiosos da Teoria da Literatura, etc. Uma edição revisada, com texto mais próximo solto, sem tantas amarras acadêmicas em sua estrutura é uma ideia relevante. Fica a sugestão para o autor.

O Viés Médico na Literatura de Guimarães Rosa (Brasil, 2011)
Autor: Eugênio Marcos Andrade Goulart
Editora: UFMG
Páginas: 118

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.