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Crítica | O Vingador Tóxico

por Michel Gutwilen
68 views (a partir de agosto de 2020)

Uma análise rasa baseada em tecnicismo poderia detonar O Vingador Tóxico. Afinal, suas atuações são histéricas; sua montagem é esquizofrênica; seus efeitos visuais são pobres; e as situações criadas pelo roteiro são um tanto quanto exageradas. Contudo — e felizmente — a crítica de cinema não é uma cartela de bingo, na qual todos os elementos técnicos do filme são riscados de maneira separada e excluídos de qualquer contextualização. Pensar nesta obra de 1984 requer entender que há todo um ambiente de exagero proposital e assumido, marca do terror gore ou do cinema apelativo (exploitation). Dito isso, fica perceptível que há neste longa uma unidade, em que todas suas áreas atuam em prol de uma encenação grotesca e excessiva com a intenção de expor o ridículo da cultura do culto ao corpo norte-americana da década de 80.

A trama de O Vingador Tóxico não poderia ser mais direta. Melvin é um faxineiro esquelético de uma daquelas academias lotadas de homens musculosos de mullet e mulheres loiras com um corpo de revista usando maiô. Por seu jeito peculiar, o protagonista acaba sofrendo prendas pesadas de um grupo de frequentadores a ponto de, num ato de desespero após uma grande humilhação, se jogar de uma janela. No entanto, o que ele não sabia era que naquele momento passava um caminhão de lixo tóxico na rua e, ao cair dentro dele, se transformaria em um monstro que é uma mistura de O Coisa (de Quarteto Fantástico) e o Homem-Mosca (de A Mosca, que seria lançado dois anos depois). A partir daí, ele parte em uma jornada de vingança e também assume o papel de um vigilante contra o crime.

Na abertura do filme, já somos transportados diretamente para uma estrutura que parece tirada de um comercial para jovens. Um homem grita de esforço enquanto malha e mulheres se divertem em uma aula de dança ou na sauna. A câmera de Michael Herz e Lloyd Kaufman se aproxima de abdomens sarados, seios e nádegas como se os venerasse. Enquanto isso, a montagem rapidamente acelera aquilo tudo de forma a impedir que algum rosto se fixe em nossa mente. Aqui, o que importa é apenas é um passeio psicodélico pelo corpo perfeito que se forma a partir da união de várias pessoas diferentes. 

Se Melvin já era um contraponto bizarro em sua forma humana diante de todo aquele habitat de hormônios e uma libido latejante, é interessante observar como se dá a relação do monstro com a câmera. Desde o início, O Vingador Tóxico não tem medo de explorar o grotesco visualmente, o que já fica claro quando os mesmos valentões da academia que assombram o protagonista estouram a cabeça de um menino andando de bicicleta na rua, por diversão. Ainda assim, inicialmente, o plano evita o rosto da criatura, sempre procurando enquadrá-la de costas ou de algum outro ângulo. Mesmo neste universo tão livre de pudor, o protagonista ainda é uma aberração para a lente. Porém, conforme ele vai realizando atos bondosos e tendo uma relação  genuína com uma menina cega (o maior clichê possível no gênero de monstros), vemos mais de seu rosto deformado, uma vez que, a partir daquele momento, suas ações passam a valer muito mais do que a aparência. Logo, a transformação de mentalidade acontece tanto a nível de roteiro — quando a população começa a defendê-lo — quanto na decupagem do filme.

Simultaneamente, conforme essa ressignificação dos valores vai acontecendo na história, a destruição de todo o sistema estabelecido vai sendo simbolizada através de como o Homem Tóxico executa seu vigilantismo. Ora, nada mais propício do que sequências de ação em um restaurante fast food utilizando de máquinas de sorvete e frituras; uma morte com um peso de academia; ou de uma mulher que havia feito linchamento com ele enquanto ela se masturba. Todos esses elementos são símbolos muito claros de pecados ligados ao corpo humano (a gula, a vaidade, a luxúria) e que evidenciam uma decadência de todo um estilo de vida norte-americano. 

Neste sentido, há uma imoralidade e crueldade tão forte neste universo criado por Herz e Kaufman que justifica todo o uso do gore ou da violência verbal em O Vingador Tóxico. Em um mundo onde pessoas normais batem em idosos, estupram cegas, aliciam menores de idades e atropelam crianças, é justamente aquele formado pelos rejeitos dessa sociedade — o lixo — que pode salvá-la.    

O Vingador Tóxico (The Toxic Avenger) — Estados Unidos, 1984
Direção: Michael Herz, Lloyd Kaufman
Roteiro: Lloyd Kaufman, Joe Ritter
Elenco: Mitch Cohen, Andree Maranda, Jennifer Prichard, Cindy Manion, Robert Prichard, Gary Schneider, Pat Ryan, Mark Torgl, Dick Martinsen, Chris Liano, Dan Snow
Duração: 82 mins.

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