Home LiteraturaAcadêmico/Jornalístico Crítica | O Voluntário de Auschwitz, de Jack Fairweather

Crítica | O Voluntário de Auschwitz, de Jack Fairweather

por Ritter Fan
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Há muitos anos, tive a oportunidade de visitar Auschwitz, uma das mais aterradoras experiências “turísticas” que tive em minha vida. Saí de lá prometendo nunca mais retornar, somente para mudar de ideia quase duas décadas depois, com minhas filhas já crescidas, com o objetivo de mostrar a elas a magnitude de todo o horror do Nazismo. Nesta segunda vez, para piorar, o tempo estava ruim, o que tornou a experiência ainda mais excruciante e deprimente e foi nela que descobri a história real de um membro da Resistência Polonesa que se deixou prender pelos nazistas para ser encarcerado no Campo de Extermínio quando ele ainda era um “mero” Campo de Concentração, de forma a atuar como espião. Sim, isso mesmo que vocês leram!

O voluntário é Witold Pilecki, um daqueles nomes que normalmente nunca ouvimos falar, mas que merece toda a lembrança e todo nosso agradecimento coletivo pela coragem, força e incrível altruísmo em detrimento de sua própria vida. Ele próprio escreveu diversos relatos de sua experiência que foram compilados em forma de livro, mas elegi ler a versão escrita pelo britânico e ex-correspondente de guerra do Washington Post Jack Fairweather, imaginando que o enfoque seria mais objetivo, com direito a contextualizações mais amplas, no que estava certo. O livro, de viés histórico-jornalístico como era de se esperar, oferece uma visão muito completa da permanência de Pilecki em Auschwitz e da natureza das informações que ele inacreditavelmente conseguiu fazer chegar à Resistência.

Fairweather usa narração em terceira pessoa para manter a história sob seu ponto de vista onisciente, usando os relatórios que Pilecki, que chegara a vir à tona pela primeira vez em 1960, mas que só realmente se tornaram acessíveis a pesquisadores depois do colapso da União Soviética que o julgou, condenou e executou por “espionagem para o Ocidente”, em uma daquelas incompreensíveis injustiças que a Humanidade pratica. Além dessa extensa pesquisa, o ex-jornalista foi além e tentou compreender o impacto dos relatórios contrabandeados para fora de Auschwitz das mais diversas formas tiveram para o esforço de guerra, já que esse era justamente o objetivo da Resistência Polonesa: entender o que estava acontecendo nesses lugares e, dependendo do caso, forçar os Aliados a intervir e/ou construir uma resistência dentro do campo objetivando a fuga dos prisioneiros.

Por mais objetivo que o autor procure ser, a progressão da inclemência do Campo de Concentração sendo lentamente convertido em Campo de Extermínio, com detalhes desses desenvolvimentos sendo descritos minuciosamente torna a leitura uma experiência extremamente desagradável e difícil. Não que o texto seja complexo, que fique bem claro, pois ele é justamente o contrário disso, sendo bem acessível e bem concatenado, mas é que ter essa visão tão próxima e tão vívida das agruras vividas e observadas por Pilecki – que, vale salientar, não era judeu – é algo como a versão literária de Vá e Veja ou coisa semelhante. São relatos que cobrem a permanência do polonês em Auschwitz por dois anos e nove meses, a partir do final de 1940, com o terço final sendo dedicado aos momentos do voluntário fora de lá, novamente reunindo-se à Resistência em uma Varsóvia dizimada e que teria o horror nazista meramente substituído pelo soviético. Esse terço final da narrativa é consideravelmente menos interessante em termos narrativos do que o tempo em que ele foi o prisioneiro nº 4859.

Fairweather, porém, não perdoa nenhum dos lados na guerra. Os relatos falam por si só dos nazistas, claro, mas a recepção das informações pelos Aliados é que serve como aquele ingrediente que termina de embolorar a refeição e a causar náuseas ao leitor. Não falo aqui de descrições gráficas de extermínio, pois elas existem em profusão. Falo de algo pior. Falo da negligência completa de quem recebeu os relatos de Pilecki que, sim, chegaram ao alto escalão britânico, que revelam que muito do que se “descobriu” depois já era de conhecimento dos países envolvidos na guerra. Entendo a dificuldade de se evitar algo na magnitude do Holocausto, mas imaginar que alguma coisa poderia ter sido feita pelo menos em Auschwitz, só para ficar com o básico, considerando que lá mais de um milhão de pessoas foram chacinadas, já é o suficiente para tornar o livro de Fairweather algo extremamente desagradável, isso para usar um eufemismo. E isso sem contar com a forma como o autor descreve os próprios poloneses diante do extermínio dos judeus.

O Voluntário de Auschwitz definitivamente não é uma leitura daquelas que se faz em apenas uma sentada ou que permaneça autocontida no relato de Fairweather, já que há uma riqueza de informações derivadas que devem ser pesquisadas pelo leitor paralelamente, inclusive e talvez especialmente a compilação dos relatos do próprio Pilecki. No entanto, trata-se de leitura importante, talvez até essencial, nem que seja para prestigiar esse inacreditável herói polonês que escolheu entrar no círculo mais profundo do Inferno na esperança de salvar pelo menos alguns de seus compatriotas.

O Voluntário de Auschwitz (The Volunteer – Reino Unido, 2019)
Autor: Jack Fairweather
Editora original: Custom House (Harper Collins)
Data original de publicação: 25 de junho de 2019
Editora no Brasil: Universo dos Livros
Data de publicação no Brasil: 14 de novembro de 2019
Tradução: Leonor Cione
Páginas: 448

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