Crítica | O Xadrez das Cores

Abandono e tristeza. O idoso como um fardo. Racismo e opressão. Se O Xadrez das Cores fosse um trabalho acadêmico, estas poderiam ser as palavras-chave. Lançada em 2004 e premiada em muitos festivais de 2005, a produção dirigida e escrita por Marco Schiavon nos apresenta Cida (Zezeh Barbosa), uma mulher negra na faixa dos 40 anos, funcionária de Maria (Mirian Pyres), uma senhora de 80 anos que representa a metonímia dos antepassados colonizadores: manipuladora, racista e muito preconceituosa.

Para enfrentar a sua empregadora, Cida propõe um jogo de xadrez, situação alegórica utilizada pelo roteiro para os devidos efeitos reflexivos em relação aos temas centrais (racismo e pobreza) e tangentes (superação de desafios, abandono e velhice, solidão). O filme também flerta com a submissão de muitas pessoas aos trabalhos que podemos designar como subempregos, tamanha a falta de boas condições de atuação. Cida, cotidianamente, precisa lidar com o preconceito e cinismo de Maria, uma senhora que tal como a “empregada”, também tem uma marca profunda do passado que ressoa constantemente no presente: a perda da filha.

Desta maneira, ambas serão desafiadas num enfretamento metafórico por meio de um jogo de xadrez, num debate sobre os obstáculos e desafios encontrados por dois segmentos da sociedade que são alvos de discriminação cotidianamente: o idoso e a mulher negra. Ao passo que a história avança, Cida e Maria deixam espaço para que o público as interprete adequadamente. Assim, compreendemos as suas necessidades dramáticas, delineadas por conta de seus perfis de ordem física, psicológica e social.

Sem adquirir uma postura extremamente maniqueísta, ambas as personagens possuem traços de valor, devidamente aproximados e distanciados ao longo da evolução do enredo. Com uma abertura criativa, adornada pelos créditos artisticamente conectados com a temática da narrativa, O Xadrez das Cores segue para os diálogos objetivos de sua história. Há momentos inadequados, tal como a condução musical de José Lourenço, excessivamente melodramática, além do didatismo do roteiro, um pouco “acima do necessário”, elementos que não chegam a comprometer a “mensagem” do curta-metragem, mas que tornam a produção um exercício médio de linguagem cinematográfica.

Visualmente aprimorada, a narrativa traz Irene Black na direção de arte, cuidadosa na construção da ambientação doméstica onde o jogo de xadrez se desenvolverá. Gilberto Otero cumpre bem a sua função na direção de fotografia, funcional na captação de alguns detalhes, tais como gestos e olhares das personagens, fluídos na montagem de Fábio Gavião.

Debates sobre “Jesus ter sido um homem de olho claro” e “xadrez ser um jogo que preto só conhece na delegacia”, juntamente com cenas externas ilustrativas, de crianças “duelando” com armas de brinquedo na rua, enquanto Cida segue para o trabalho, nos revela o caráter de denúncia da narrativa, pouco discreta, mas longe de “gritar” para o público a sua mensagem. A personagem, longe dos arquétipos de coitadismo, distancia-se da vitimização para assumir uma postura de enfrentamento e embate, questionando o seu lugar dentro da sua própria história.

Sendo assim, em seu desfecho, O Xadrez das Cores deixa claro que o preconceito pode ser pensado como uma espécie de subproduto do racismo, representado na narrativa pela hostilidade sofrida por Cida no bojo do relacionamento interpessoal com Maria. Como sabemos, o racismo se revela quando um grupo (Maria, branca) afirma que outro (Cida, negra) é inferior ao seu, pautado por atribuições de características negativas que pretendem reforçar a invalidez do “outro” em relação ao “eu/nós”, modelo de relação de poder legitimada por eras na formação do povo brasileiro e ainda muito vigente na contemporaneidade, às vezes disfarçadamente, noutras escancaradamente estampada, para todo mundo ler, ver e interpretar.

O Xadrez das Cores (Brasil – 2004)
Direção: Marco Shiavon
Roteiro: Marco Shiavon
Elenco: Zezeh Barbosa, Anselmo Vasconcelos, Mirian Pyres, Rita Guedes
Duração: 22 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.