Crítica | Obsessão (2019)

A obsessão é um dos temas mais recorrentes na indústria cinematográfica. Tal como os filmes de tubarões, psicopatas mascarados, filhos em busca de suas origens e heróis humanos ou extraordinários, a palavra-chave está anualmente presente em filmes de suspense e drama. Alguns são baratos e vulgares, subprodutos lançados diretamente em DVD, televisão ou serviços de streaming. Outros fazem parte do panteão de luxo do cinema, com direção e elenco de luxo, bem como equipe técnica que entrega uma narrativa esteticamente luxuosa e intensa, além da profunda observação das artimanhas da mente humana.

Deste segundo grupo, podemos citar Instinto Selvagem, Atração Fatal, Mulher Solteira Procura, Corpos Ardentes, Perversa Paixão e alguns outros. Obsessão não está exatamente dentro deste segmento “homem seduzido por uma viúva negra”, mas ficaria organizado na mesma prateleira de uma videolocadora num processo de organização crítica, pois faz traz em sua estrutura o mesmo padrão, além de tratar da temática “obsessiva” tendo como pano de fundo, uma família desestruturada e uma protagonista num momento psicológico frágil de sua vida.

Em 2019, o papel da possessiva ficou sob a responsabilidade de Isabelle Huppert e sua personagem que é divinamente representada. Atuação não é o problema neste filme, pois o elenco consegue dar conta do recado e atrair olhares e expectativas, sentimentos oriundos da embalagem de luxo para um roteiro esquemático e pobre. Anualmente trabalho com o legado da mulher psicopata no cinema, numa linha histórica que abrange todos os filmes citados anteriormente. Quando soube deste lançamento, fiquei esperançoso, pois acreditei que atrizes do porte de Obsessão jamais aceitariam ingressar numa narrativa ruim.

Ledo engano. De volta ao que foi considerado nos parágrafos anteriores, a produção não é vulgar e barata como O Mistério de Laura Cross, Diabólica, Presença de Ellena, etc. Mas também não é bem conduzida e traz roteiro coeso, tal como os filmes de Sharon Stone e Glenn Close. Falta uma história que explique ao espectador porque atrizes tão competentes e um cineasta tão fascinante se perderam dentro de uma história que não peca apenas por perder o seu ritmo constantemente, além de já entregar para o espectador todos os rumos que serão tomados, haja vista a repetição exaustiva do tema contado e recontado numerosas vezes no cinema e na televisão.

Assim, ao longo dos 95 minutos, Obsessão é orquestrado sob a direção de Neil Jordan, tendo como guia o argumento e o roteiro de Ray Wright, escrito em parceria com o cineasta que executa a trama. Em seu enredo, acompanharemos Frances McCullen (Chloe Grace Moretz), uma jovem pacata e aparentemente ingênua que encontra uma bolsa durante a travessia de metrô entre o seu trabalho e sua casa. Instigada, ela pega a bolsa e carrega consigo.

Captada pela direção de fotografia de Seamus McGarvey e acompanhada pela condução musical de Javier Navarrete, a personagem transmite a sensação de tranquilidade e simplicidade, deslocando-se por bicicleta e metrô, numa demonstração de um espaço geográfico urbano de mobilidade adequada. O único obstáculo em sua caminhada será, mais adiante, a barreira física e a presença atormentadora de um ser humano que projetará as piores obsessões em torno de sua existência.

Ao chegar em seu apartamento, Frances é alertada por Maika (Erica Penn), melhor amiga com quem divide habitação, enfática ao alertar que “estão em Nova Iorque e por isso, não se deve trazer uma bolsa para casa”. É um diálogo trivial, mas antecipação para o horror absoluto que fará parte do cotidiano da jovem que não espera o pior de Greta Hideg (Isabelle Huppert), mulher misteriosa que se sente respeitada pela devolução da bolsa e começa a se aproximar da garota. Ambas possuem questões psicológicas problemáticas. Frances perdeu a mãe, Greta perdeu a filha, casa uma dentro de determinada circunstância, algo que acaba por aproximá-las.

Depois disso, o trivial. Esquema nº 01: contato. Elas se conhecem na entrega da bolsa. Esquema nº 02: a amizade se estabelece, de maneira repentina, com troca de amabilidades e compartilhamento de histórias particulares. Esquema nº 03: a realidade se apresenta para a vítima em questão, durante um jantar, quando Frances encontra, ao buscar alguns objetos para compor a mesa, a coleção de bolsas que Greta deixa nos vagões de metrô ao longo de sua trajetória enquanto “monstro”. Detalhe: isso já está no trailer de divulgação, caro leitor, sequer funciona como um spoiler do crítico malvado, tudo bem? Voltemos aos esquemas. Nº 04: distanciamento e perseguição. Este é o momento em que a desequilibrada Greta não aceita o afastamento de Frances e começa a tornar a sua vida um pesadelo sem precedentes. Esquema nº 05 9 (final): todos adentram num esquema de loucura total com provável desfecho trágico.

A construção de personagens é interessante, o problema é a condução do material proposto pelo roteiro. O leitor deve se perguntar porque tanta exigência em relação ao filme que talvez devesse funcionar apenas como entretenimento. Segue explicação: Neil Jordan é um cineasta que esteve afastado do cinema, envolvido com a série Os Bórgias. Ao retornar, esperamos muito de alguém que produziu filmes pontuais da história do cinema recente. A Companhia dos Lobos, Michael Collins – O Preço da Liberdade, Entrevista Com o Vampiro, Traídos Pelo Desejo, Café da Manhã em Plutão, dentre tantas obras-primas e filmes razoáveis.

Em Obsessão, o que se esperava era a excelente condução de uma história contada numerosas vezes, mas agora, orquestrada sob o ponto de vista de um cineasta respeitado e conhecido por suas abordagens audiovisuais especiais, principalmente pelo fato de ter sido colaborador na construção do enredo, o que permitiu a visualização de determinadas situações e o reajuste de trechos que supostamente perderiam ritmo. Um cineasta experiente consegue ler um roteiro e prever tais questões.

Há várias questões para uma abordagem analítica de Obsessão. Uma discussão possível é o debate sobre a dualidade entre o amor maternal e o desejo romântico, confusos ao longo da narrativa. Ao escapar do clichê do marido infiel seduzido por uma mulher noir contemporânea, ou então, o desgastado homem casado que se encontra intrigado pela secretária que exala sensualidade, o filme de Neil Jordan embarca noutra abordagem, mas ainda assim, mesmo com a mudança de foco e o plot twist interessante em seu desfecho, Obsessão peca pela total falta de ousadia e também por seguir cabalmente a cartilha deste subgênero cinematográfico.

Isso não nos impede, no entanto, de reconhecer alguns méritos da produção. A montagem alternada da abertura é uma aula eficiente de edição. Assinada por Nick Emerson, a justaposição de imagens entre as duas protagonistas antagônicas é importante para a compreensão da totalidade narrativa. Há também um certo ar “Brian De Palma” ao longo da produção, o que confere ao filme alguns bons momentos, principalmente em sua irônica e sedutora trilha sonora, repleta de clássicos da música popular e da composição erudita, adornos que junto ao já dito “elenco de classe”, confere ao filme uma aura de superioridade.

Obsessão (Greta – Estados Unidos, 2018)
Direção: Neil Jordan
Roteiro: Ray Wright, Neil Jordan,
Elenco: Isabelle Huppert, Chloë Grace Moretz, Maika Monroe, Jane Perry, Jeff Hiller, Thaddeus Daniels, Colm Feore, Zawe Ashton, Stephen Rea
Duração: 98 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.