Crítica | Octopus – Viagem ao Inferno

Os polvos e as lulas são animais intrigantes, cada um com suas especificidades, mas donos de enigmáticas características. Tal como os tubarões, serpentes, crocodilos e baleias, já foram temas para histórias ficcionais aterrorizantes sobre o contato entre seres humanos e aberrações da natureza. Em Octopus – Uma Viagem ao Inferno, um dos personagens esbraveja para a câmera que onde estão faz “o Triângulo das Bermudas parecer uma piscina”. No mínimo, um local assustador, cheio de situações enigmáticas e apavorantes, não é mesmo? Ao menos é o que se espera, mas quando a narrativa passa de sua primeira hora, desistimos de esperar por qualquer menção de horror para aguardar apenas o desfecho sem graça desta narrativa insossa.

Sob a direção de John Eyres, o Octopus – Uma Viagem ao Inferno é um filme que não diverte justamente por prometer o que não pode cumprir, afinal, cadê o polvo gigantesco que aparece no cartaz, prestes a levar um navio para as profundezas? A equipe de animatrônicos de Rosen Andonov e os membros responsáveis pelos efeitos visuais conseguem apenas nos apresentar alguns tentáculos em movimento, mas nada que nos convença minimamente que há personagens em perigo. Nem sequer um polvo de borracha para nos alienar. Diante do exposto, o que nos resta? Observar o destino dos personagens diante de um monstro que apresenta apenas os seus tentáculos, ainda assim, bem rapidamente, tédio puro.

No enredo, dirigido com base no roteiro de Michael D. Weiss, escrito com base no argumento de Boaz Davidson, navios desaparecem constantemente no Olho do Diabo, região considerada o novo Triângulo das Bermudas. Quem vai descobrir os motivos para tais sumiços misteriosos é a equipe do submarino USS Roosevelt. A descoberta é revelada sem muita enrolação: trata-se de um polvo gigante. A ideia é eliminá-lo, mas parece que o animal é mais rápido e aprisiona o grupo no fundo do oceano. Agora é salve-se quem puder. Dentre os personagens colocados para ser parte da dieta do polvo gigante, temos Casper (Ravil Isyanov), Roy Turner (Jay Harrington), a Dra. Lia Finch (Carolyn Lowery), dentre outros, todos muito compenetrados e aparentemente imersos em seus “personagens”, meras caricaturas desenvolvidas por um roteiro de má qualidade.

Com Adolfo Bartoli na direção de fotografia, a produção possui o disfarce como missão incessante de todos os setores. As cenas subaquáticas e as captações de imagens em espaços interiores fazem o trabalho burocrático sem maiores problemas. O design de produção de Carlos Silva também cumpre as suas funções dentro do que havia disponível em termos orçamentários. A condução musical de Marco Marinangeli emula elementos de filmes de aventura e ação, tensa e agitada, interessada em nos fazer compreender que há uma ameaça bem próxima dos personagens, quando na verdade não enxergamos nada em sua totalidade.

Para não ser tão injusto com o filme, há na abertura um interessante corte documental sobre a crise dos mísseis e outros conflitos estadunidenses, aparentemente extraídos de material de arquivo jornalístico, trecho que fornece ao filme a seriedade que a história em sua totalidade não tem. Ademais, só isso. Ao longo de seus 100 minutos, Octopus – Uma Viagem ao Inferno é um filme tedioso que fez sucesso dentro de seu nicho de produção e ganhou continuação em 2001, Octopus 2, trama sobre um polvo que ataca um casal de turistas no começo de sua história e é investigado, tendo a história abafada pelo prefeito por conta das festividades do feriado próximo, isto é, a comemoração mais nacionalista dos estadunidenses, o 4 de julho, momento ideal para a criatura se alimentar sem restrições.

Alguém aí pensou em Tubarão, Spielberg e, mais uma vez, Peter Benchley?

Octopus – Viagem ao Inferno ( Octopus – Estados Unidos, 2000)
Direção: Stephen Sommers
Roteiro: Stephen Sommers
Elenco:Treat Williams, Jay Harrington, Ravil Isyanov,
Duração:  98 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.