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Crítica | Odisseia: Clássicos em Quadrinhos

Com projeto simples, tradução da jornada de Ulisses para quadrinhos empolga, mesmo com suas limitações editoriais.

por Leonardo Campos
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Em alguns momentos Odisseu, noutros, Ulisses. Mas é tudo a mesma coisa, caro leitor? A Guerra de Troia, que se estendeu por dez anos, finalmente chega ao fim, e Odisseu, o astuto general de Ítaca, anseia por retornar ao seu reino e à sua família. Seu desejo é simples: o reencontro com sua amada esposa Penélope e seu filho Telêmaco. No entanto, a jornada de volta para casa não será nada fácil. As ações de Odisseu durante o conflito despertaram a ira implacável do deus dos mares, Poseidon. O deus grego jura que o herói vagará pelo vasto e perigoso oceano, enfrentando provações e desafios inimagináveis antes de pisar novamente em solo pátrio. A epopeia de Odisseu, imortalizada por Homero na Odisseia, é marcada por uma série de encontros míticos e perigosos. Sua astúcia será testada contra a fúria do ciclope Polifemo, uma criatura gigante e selvagem. Ele também precisará resistir ao canto hipnotizante das sereias, que atraem marinheiros para a morte, e aos feitiços da feiticeira Circe, que transforma homens em animais. A capacidade do herói de superar esses obstáculos e a ira de Poseidon é o cerne da narrativa, sendo esse o mote principal explorado em diversas traduções e adaptações da obra para formatos como os quadrinhos.

Lançada em maio de 2020 pela editora Principis, esta tradução da Odisseia conta com o roteiro de Diego Agrimbau e os desenhos de Smilton. Ao longo de 60 páginas, a obra trazida de uma edição argentina percorre os trajetos habituais das transposições da poesia homérica para os quadrinhos, selecionando episódios específicos da jornada de Ulisses para compor sua narrativa. O projeto gráfico se destaca por uma concepção artística suave, que opta por não aprofundar o drama nos traços dos personagens ou na intensidade das ações retratadas. Essa escolha estética sugere uma intenção editorial de tornar o clássico mais acessível, buscando ampliar a conexão com o público-alvo juvenil por meio de uma linguagem visual mais leve e direta. Curiosamente, nesta versão para os quadrinhos, a concepção artística destaca um Odisseu que exala imponência e vigor físico. Representado como um herói loiro e musculoso em sua armadura, o personagem equilibra sua lendária astúcia com uma presença atlética dominante, reforçando o arquétipo do guerreiro invencível em cada quadro.

Essa escolha visual prioriza a potência do protagonista, transformando o “homem de mil estratagemas” em uma figura de ação vibrante e imponente que salta aos olhos do leitor. Por outro lado, a representação das figuras femininas adota um tom bastante específico, destacando características visuais marcantes que se alinham com a estética geral da edição. As sereias, deusas e até mesmo as mortais são desenhadas com vestimentas e expressões que contribuem para o dinamismo e o apelo visual da narrativa em quadrinhos. Essa abordagem estética se estende até mesmo à figura de Penélope, tradicionalmente associada ao recato, que nesta versão é reimaginada com características visuais que a integram ao estilo artístico predominante, oferecendo uma leitura visual distinta dos personagens femininos dentro da proposta da obra. Muito interessante, tal como ainda refletir sobre a jornada de Ulisses, afinal, ela ainda importa.

Debater o mito de Ulisses com o público jovem é extremamente válido, pois a Odisseia não é apenas uma aventura marítima, mas uma metáfora universal sobre a transição para a vida adulta e a busca por identidade. Para um jovem em formação, as tentações das Sereias ou o desafio do Ciclope representam os obstáculos internos e externos, como distrações digitais e pressões sociais, que exigem foco e resiliência. Ao explorar essa narrativa, o leitor desenvolve repertório crítico para entender que o “retorno para casa” simboliza a autodescoberta e a conquista da maturidade emocional em um mundo em constante mudança. Longe de ser uma história ultrapassada, o mito ensina a importância da metis (astúcia) sobre a força bruta, uma habilidade essencial na era da informação. A aplicação prática reside na compreensão de que o erro e o desvio fazem parte da jornada humana, desmistificando a pressão pelo sucesso imediato. Ao estudar Ulisses, o jovem aprende a valorizar a persistência e a estratégia diante de crises, percebendo que os dilemas éticos e a necessidade de adaptação enfrentados pelo herói grego há milênios continuam sendo as bases para navegar as incertezas da realidade contemporânea.

Odisseia: Clássicos em Quadrinhos (Argentina/Maio de 2020)
Roteiro: Diego Agrimbau
Arte: Smilton
Tradução: Paloma Bianca Alves Barbieri
Editora no Brasil:  Editora Principis/ HQ Latin Books
80 páginas

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