Crítica | Of Fathers and Sons (Kinder des Kalifats)

“Essa guerra vai continuar por bastante tempo.”

Existem divergências cruciais, na perspectiva de mundo, entre a maior parte das crianças que aparecem em obras pautadas em cenários de guerra, e os meninos que são apresentados no documentário Of Fathers and Sons. Osama, uma das crianças mais proeminentes no longa-metragem, por exemplo, é um garoto criado para a guerra, e não criado meramente em meio a guerra. A guerra é o seu propósito. E, chegando a esse olhar assustador, Talal Derki apresenta um retrato completamente inacreditável sobre paternidade, mesmo que situada em um contexto tão adverso ao seu: do jihadismo radical. Quais ensinamentos esses pais têm para os seus meninos?

Parafraseando o Alcorão inúmeras vezes e citando o seu amor pelo Talibã e pela Al-Qaeda em outras, o patriarca do conjunto familiar protagonista, Abu Osama, mostra de onde retira os seus conceitos, repassados para as suas crianças, ouvintes dedicadas. Um repasse tão próprio  a esse ambiente que os nomes dos garotos, Osama e Ayman, em uma cena ainda inicial do documentário, são revelados como sendo em homenagem a líderes dessas organizações. São sequências de reuniões familiares, ora entrevistas mais diretas, que antecedem as filmagens das crianças consequentemente sendo, às vezes ainda crianças, às vezes já soldados em construção.

Talal sugere uma infância que tenta manter-se infância, apesar da desconstrução progressiva do encanto juvenil ser mais forte para alguns garotos. Um pássaro na mão de Osama dá margem a uma das cenas mais impactantes de Of Fathers and Sons, justamente causando esse sentimento por não vir acompanhada de um teor melodramático, mas de uma frieza que combina pontualmente com essa atmosfera em questão. Não são todos os casos, porém, porque Talal também captura, em contrapartida, situações mais serenas entre o pai e seus filhos, também entre um irmão e outro. O cineasta é corajoso ao apontar a existência de amor em um contexto de ódio.

Entrecorta-se os ensinamentos do pai, as desobediências das crianças, com o choque de certas passagens e também os momentos de afeto. Muita coisa o documentário não mostra, contudo, sugere, como é o caso de uma cena em que Abu atira em um homem numa moto. Com isso, Derki une, em uma consciência do choque misturado com a ingenuidade infantil, cenas mais perturbadores complementadas com passagens das crianças brincando, jogando e, enfim, brigando. O fio condutor da narrativa, portanto, acompanha a intoxicação do coração do menino Osama, cada vez mais odioso, mais rebelde, mais profanador. Uma raiva que irá culminar em ódio.

Tão sincero em sua proposta mais ampla de uma paternidade subversiva, que o documentarista, apresentando-se como simpático às crenças de Abu Osama, mesmo não sendo realmente, resiste a não se importar com a sua presença, acessória. Essa ideia de espionagem, sem mais nenhum conteúdo à mostra, já seria uma premissa enervante. Mas Of Fathers and Sons não possui interesse algum na exploração do seu próprio eu lírico, muito pelo contrário, colocando as impressões verborrágicas do cineasta apenas em um trecho derradeiro do longa, e que nem seria necessário para o conjunto da obra. Ele quer, antes disso, situar-nos em frente às faces de Osama.

Para exemplificar o seu desconforto, Talal usa da câmera e da montagem. Enquanto alguns pais ensinariam os seus filhos a jogarem bola, esses pais ensinam os seus filhos a atirarem. Sendo assim, ao invés de manter-se focado nesse momento supostamente tão especial para o relacionamento de Abu com Osama, o diretor torna a câmera para a infância. Por isso que, quando uma vaca sendo morta aparece, Talal acaba sendo mais gratuito imageticamente. Ou em outras cenas, menos marcante. Já momentos ímpares, ordinários para a vida de alguns, mas extraordinários para a maior parte das nossas, são capturados precisamente pelo olhar do choque.

Of Fathers and Sons (Kinder des Kalifats) – Alemanha/Síria, 2018
Direção: Talal Derki
Elenco: Abu Osama, Osama Osama, Ayman Osama
Duração: 99 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.