Crítica | Oito Horas Não São um Dia: Franz e Ernst

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Franz e Ernst foi o primeiro episódio de Oito Horas Não São um Dia exibido em 1973 (mais precisamente em 21 de janeiro) e teve como foco a promoção de Franz Miltenberger (Wolfgang Schenck) ao cargo de supervisor da fábrica enquanto seus companheiros faziam de tudo para ganhar tempo, até que ele estudasse para passar na prova, infernizando a vida do capataz temporário, Ernst Friedrich (Peter Gauhe).

Infelizmente, a passagem de Gauhe pela série é rápida e um pouco trabalhada, mas no que concerne ao propósito geral de torná-lo uma ponte para a promoção de um operário a um cargo superior, o roteiro de Fassbinder consegue um ótimo resultado. Aqui, a temática familiar é colocada em segundo plano e no cerne do texto estão novamente as questões trabalhistas, onde o autor discute elementos de ascensão social, aprendizado, burocracia, hierarquia empresarial e má fé de alguns superiores e organizações fabris em relação aos seus subordinados.

Alguns dilemas morais são colocados na narrativa, fazendo o espectador pensar sobre os dois lados da moeda. A boa atuação do elenco também colabora para essa visão mais plural, com os empregados tentando atravessar aquilo a que estão acostumados desde que se deram conta de sua classe social (a maioria deles pelo menos) e ao mesmo tempo colocando-se no lugar do superior que acabou de assumir o cargo e que na verdade não é assim tão diferente deles, apesar de ser. Nesse microcosmo social da fábrica, Fassbinder procura trabalhar os diferentes interesses pessoais e econômicos a partir de uma visão pré-moldada, e é essa visão que vemos ser destruída e reconstruída ao longo do capítulo.

Em cada camada, os empregados possuem contrariedades e vivem com injustiças, às vezes colocados em um setor que não queriam, quando na verdade poderiam fazer um trabalho muito melhor em setores que estão em par com sua especialidade. Os construtores de ferramentas em conluio pouco a pouco entendem essa relação e o texto explora pequenos componentes de uma união local de trabalhadores, com voto para decidir algumas questões, procura de especialização profissional e busca enfática por aquilo que vai fazer com que tenham melhores relações de trabalho — algo que esse episódio discute rapidamente e que certamente deve voltar com uma crítica adicional, já que essas relações, como sempre, irão mofar à medida que exigências mercadológicas (próprias da dinâmica do capital) forem postas na mesa; algo que o próprio diretor vem aludindo na série, desde Jochen e Marion.

Alguns momentos dos blocos familiares aqui funcionam melhor que outros. A saudade do pai de Jochen pela vovó é algo que funciona em seu exagero emocional porque estava lá desde o início e ganhou outras cores desde Vovó e Gregor. Já a pequena sequência da família ajudando a pintar as janelas e as portas, a pedido da Vovó, se tornou narrativamente deslocado, ganhando pontos apenas na impecável direção de Fassbinder e na fantástica fotografia de Dietrich Lohmann. A visão desse episódio, no entanto, se mantém em torno de uma palavra: disputa. E no campo do trabalho, ela se conclui com uma feliz conquista, apesar de a ascensão social ou a questão meritocrática não saírem do alvo de críticas e das muitas condições em torno delas exploradas no roteiro. O conflito de interesses entre as classes está sempre ativo.

Acht Stunden Sind Kein Tag – 1X03: Franz und Ernst — Alemanha Ocidental, 21 de janeiro de 1973
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder
Elenco: Gottfried John, Hanna Schygulla, Luise Ullrich, Werner Finck, Wolfgang Schenck, Peter Gauhe, Rainer Hauer, Wolfgang Zerlett, Rudolf Waldemar Brem, Grigorios Karipidis, Hans Hirschmüller, Karl Scheydt, Herb Andress, Wolfried Lier, Anita Bucher, Kurt Raab, Renate Roland, Thorsten Massinger, Andrea Schober, Irm Hermann, Valeska Gert, Ruth Drexel, El Hedi Ben Salem, Manfred Seipold
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.