Crítica | Oito Horas Não São um Dia: Jochen e Marion

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Quando Fassbinder assinou o contrato com a rede WDR para filmar, com bastante liberdade criativa, uma minissérie em 5 episódios (cujo menor capítulo tem 1h28 de duração), ele já era um diretor conhecido, admirado e ainda estava longe de ter sobre si as dúvidas se poderia poderia ou não entregar o material no prazo, como aconteceria no futuro, com Berlin Alexanderplatz (1980), quando ele estava, literalmente, se matando de tanto trabalhar.

Oito Horas Não São um Dia (1972 – 1973) aparece justamente na fase melodramática do diretor, que vinha em uma sequência de trabalhos na televisão, o primeiro imediatamente após o início desta minissérie — A Liberdade de Bremer, que estreou em dezembro de 1972–; o segundo, A Encruzilhada das Bestas Humanas, pouco antes da exibição do terceiro episódio, Franz e Ernst; e o terceiro no final de 1973, a excelente minissérie Mundo ao Telefone, também sob as asas da WDR. Em níveis diferentes de intensidade, abordagem formal, grupo social de destaque ou foco dramático, o diretor procurava transmitir as inquietações da vida na Alemanha setentista, fazendo, na presente minissérie um épico drama familiar que pode caber em diferentes leituras.

Seja lido como um filme de 8h15 ou exatamente como o diretor quis, produziu e exibiu, Oito Horas Não São um Dia acaba tendo o mesmo impacto geral sobre o espectador, começando com a desculpa de narrar a vida ordinária da classe trabalhadora e da pequena burguesia em torno dela, e tornando-se um interessantíssimo estudo sociológico, sempre com foco dramático na dupla de personagens que dá título aos episódios e coberto pelo manto emotivo que dá a cara humana, existencial e tocante que a narrativa tem, tudo começando com o encontro de Jochen e Marion, os excelentes Gottfried John e Hanna Schygulla.

SPOILERS!

Jochen é um fabricante de ferramentas que precisa, com seus colegas de trabalho, dar conta de uma importante remessa em tempo recorde, com uma promessa de bônus salarial para toda a equipe. Ao inventar uma melhoria para as máquinas que torna o serviço mais ágil e mais fácil, o escritório retira o bônus, sob a justificativa de que os trabalhadores “não mereciam porque não tinham mais tanto esforço para entregar as peças a tempo“. É sob esse impasse trabalhista que o episódio se ergue, e esta problemática vai ganhando força e desdobramentos com o passar dos capítulos.

Em outra camada, vemos o desenvolvimento de diversos laços pessoais, também com suas lutas, desacertos, traições e intrigas, indo dos mais simples (como a hilária sequência de dois personagens para usarem o banheiro de manhã) até relações de poder no núcleo familiar, tando de homens sobre mulheres, quanto de pais sobre filhos. Aqui, o espectador está lidando com micro-Universos sociais que às vezes se espelham ou tentam negar e reformar uns outro outros.

Em algumas reuniões entre amigos ouvimos trechos de Me and Bobby McGee (Janis Joplin), Joan of Arc (Leonard Cohen) e After the Gold Rush (Neil Young), cada uma delas ligadas a um elemento dessa relação de amizade e de parceira de trabalho que, pouco a pouco, se torna sombria. O mesmo vai acontecendo com as relações pessoais (exceto a do casal protagonista), onde o diretor procura instigar a intriga e os interesses inicialmente escondidos. Suas escolhas na direção — inclusive com homenagem direta a Max Ophüls, com um trecho de Redenção (1933), filme estrelado por Luise Ullrich que assiste a ela mesma na TV, 39 anos depois — faz com que o espectador absorva facilmente cada um desses núcleos narrativos, o que garante a rápida humanização e diálogo com o público através dos personagens.

Começa aqui a incrível saga familiar de pessoas simples da Alemanha, sob a ótica de Fassbinder. Uma jornada de prazeres, amores, ódio, representação de papéis sociais, luta de classes e busca por felicidade.

Acht Stunden Sind Kein Tag – 1X01: Jochen und Marion — Alemanha Ocidental, 29 de outubro de 1972
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder
Elenco: Gottfried John, Hanna Schygulla, Luise Ullrich, Werner Finck, Wolfgang Schenck, Wolfgang Zerlett, Rudolf Waldemar Brem, Grigorios Karipidis, Hans Hirschmüller, Karl Scheydt, Herb Andress, Rainer Hauer, Victor Curland, Wolfried Lier, Anita Bucher, Christine Oesterlein, Kurt Raab, Renate Roland, Thorsten Massinger, Andrea Schober, Irm Hermann, Ulli Lommel, Ruth Drexel, Walter Sedlmayr, El Hedi ben Salem, Peer Raben, Manfred Seipold
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.