Crítica | Oito Horas Não São um Dia: Vovó e Gregor

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Neste segundo capítulo de Oito Horas Não São um Dia, o roteiro destaca os personagens mais velhos da família a que fomos apresentados em Jochen e Marion, ou seja, a linguaruda, inteligente e vivaz vovó Krüger (Luise Ullrich) e seu novo namorado, o simpaticíssimo Gregor Mack (Werner Finck, que encerrou a carreira com esta série).

Há uma grande diferença na maneira como Fassbinder aborda as questões sociais neste episódio. De modo geral, trata-se de uma história de realização pessoal, em uma idade onde a sociedade em que vivemos pouco espera das pessoas, como se a velhice fosse um cartão fixo de invalidez. Somando essa questão de percepção social mais a tentativa do casal protagonista em encontrar um apartamento barato para alugar, o texto cria uma situação realista onde os elementos político-econômicos marcam toda a jornada. Mas o caráter de quase conto de fadas se mostra em evidência nesse caso.

Este, talvez, seja o maior problema de Vovó e Gregor. Enquanto explora questões pessoais, familiares, trabalhistas e monetárias, tudo revestido de um gostoso humor e grande senso de companheirismo e carinho entre os protagonistas, o roteiro funciona maravilhosamente bem. Em par com ele, a fotografia cria um ambiente um pouco mais sombrio que o de Jochen e Marion, com bom destaque para cores frias e sombras, cercando a iniciativa de independência na velhice com uma ameaça muda que pode ter diversos nomes e impactos — na ficção ou na realidade. Mas a partir do momento que a ideia de um Jardim de Infância aparece em cena, as coisas ficam um pouco difíceis de digerir com facilidade.

A primeira lombada é, na verdade, o contraste dramático. Mesmo com o humor e a fofura ligados a Vovó e Gregor, o impacto social dava um tom mais realista à história, fazendo valer a busca da dupla por um apartamento, dando suporte à sua constante discussão sobre (a falta de) dinheiro e as ideias mais ingênuas possíveis sobre associações e outras iniciativas que pudessem ajudar pessoas em necessidade, especialmente os idosos. O pulo que o roteiro dá desse patamar para uma iniciativa difícil de se sustentar, como o uso de um espaço da prefeitura da cidade para a criação de uma escola para crianças, sem uma reprimenda imediata do Estado (como sempre se espera, nesses casos), acaba atrapalhando um pouco o que foi construído até ali.

E para mim, isto se fixou como um problema no restante do episódio. Não no aspecto técnico, claro. A direção de Fassbinder é boa em todo o tempo e o cuidado da direção de arte e fotografia estão sempre em alta aqui. A trilha sonora me incomodou um pouco pela insistência em cenas que não precisavam dela (embora eu saiba que Fassbinder realmente gostava de muita música marcando a maior parte de suas obras, como um personagem-fantasma que acompanha os atores, embora isso não seja totalmente interessante aqui), mas ainda assim é uma boa trilha. O roteiro, no entanto, conta com esse choque entre duas variantes narrativas, como se dois episódios com tratamentos diferentes tivessem sido juntados pelo diretor e roteirista em um único capítulo.

O drama familiar continua e o cineasta não deixa de lado a proposta geral da série, que é explorar relações de trabalho e sociais no dia a dia de pessoas simples da Alemanha dos anos 1970. Neste caso, porém, a felicidade meio conto de fadas vem no segundo ato para tornar a principal linha narrativa um pouquinho mais fraca.

Acht Stunden Sind Kein Tag – 1X02: Oma und Gregor — Alemanha Ocidental, 27 de dezembro de 1972
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder
Elenco:Luise Ullrich, Werner Finck, Hanna Schygulla, Gottfried John, Wolfried Lier, Anita Bucher, Kurt Raab, Renate Roland, Andrea Schober, Thorsten Massinger, Wolfgang Schenck, Wolfgang Zerlett, Rudolf Waldemar Brem, Grigorios Karipidis, Hans Hirschmüller, Karl Scheydt, Herb Andress, Rainer Hauer, Katrin Schaake, Rudolf Lenz, Jörg von Liebenfelß, Margit Carstensen, Christiane Jannessen, Doris Mattes, Gusti Kreissl, Lilo Pempeit, Irm Hermann, Helga Feddersen, Heinz Meier, Karl Heinz Vosgerau, Peter Chatel, El Hedi ben Salem, Manfred Seipold
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.