Crítica | Okja

Juntamente com Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe, Okja começou sua jornada de exibição com muitas vaias no Festival Cannes, pois ambos traziam o selo da Netflix e… bem, Academias e Organizações ligadas ao cinema não são exatamente conhecidas por abrirem os braços para aquilo que é diferente, seja em temática, em tecnologia ou em pessoal envolvido na produção. Essas coisas levam tempo. Mas se a polêmica em torno das obras realizadas ou exclusivamente distribuídas por plataformas de streaming perdura até hoje (e pelo jeito que o mundo anda, perdurará ainda por muito tempo), a visão geral sobre o filme não ficou apenas na vaia ou na indiferença. Goste ou não do longa, ache ou não que ele seja “mais do mesmo” ao tratar o assunto que trata, a questão é que Bong Joon-ho conseguiu jogar muito bem com os clichês do gênero e verdadeiramente imprimiu sua marca na obra.

Roteirizada pelo próprio diretor, ao lado de Jon Ronson, a película recorta a questão da pegada ecológica humana somada a questões sociológicas, econômicas e corporativistas para o consumo de carne. O filme então começa com uma apresentação chateante e editada de forma confusa, com a CEO da Mirando Corporation (Tilda Swinton) apresentando o novo sonho da carne no mundo, a possibilidade de alimentar quem tem fome e, ainda assim, fazendo bem ao meio ambiente. Por 10 anos, porcos (com cara de peixe-boi) geneticamente modificados foram entregues a fazendeiros selecionados em diversos países. Ao final desse período, o inevitável: um concurso para escolher o “melhor porco”. O roteiro, portanto, foca em uma relação específica, a de Mija (An Seo Hyun) com a porca Okja. Os embates que comentei antes passam a acontecer no confronto entre o núcleo da amizade e o núcleo da exploração.

Após a introdução não tão interessante, o filme ganha um primeiro ato simplesmente maravilhoso. O diretor desloca a ação por inteiro para as montanhas da Coreia do Sul e nos mostra um idílio que mescla fantasia, humanidade e boas doses de sentimentalismo, o que em um primeiro momento é algo positivo para o filme, marcando a relação entre a porca, Mija e seu avô. O espectador não tira da mente por um só momento que um “conflito com a civilização” irá acontecer em breve, mas isso parece algo distante, como distante estão Okja e sua amiga, correndo, brincando e fazendo coisas impossíveis juntas. É apenas quando o afetado personagem de Jake Gyllenhaal entra em cena que a atmosfera muda. E aí sabemos que o momento de felicidade do filme — que tem até uma bela cena de Mija dormindo na barriga de Okja, referenciando Totoro — está para acabar. Aí começam os maiores problemas do filme.

Para atacar frontalmente esse momento de felicidade, o roteiro nos traz duas realidades: a dos anarcoveganos pertencentes à The Animal Liberation (associação que de fato existe) e toda a máquina da Mirando Corporation, cada uma com interesses diferentes para com Okja e sua amiga; e ambas com pensamentos de grandeza, acreditando que estão realmente fazendo o bem, mas com claras contradições em seus atos. Tudo muda daí para frente: a fotografia ganha tons mais cinzentos (e um pouco mais cheio de contraste e filtro na sequência do desfile para a apresentação de Okja ao povo) e a direção acompanha a torrente de acontecimentos, colocando ação via deslocamento dos personagens, movimentando o máximo a câmera em cenas de grande tensão e, aí sim, mergulhando na abordagem crítica central, chamando a atenção para os maus tratos aos animais.

O que me agradou bastante na base do enredo foi a não fofolização da nova CEO da empresa (também vivida por Tilda Swinton). Claro que toda a jornada parece exigir progressivamente da nossa suspensão da descrença, mas na base, não destoa do contexto geral do filme — nem o personagem chato de Gyllenhaal, para falar a verdade, mas esse é difícil de engolir mesmo, sob qualquer ponto de vista. Esse cenário meio cômico e bastante violento entra para o filme apenas como recorte de uma realidade. Ouvi inúmeros comentários ingênuos, ao longo dos anos, exigindo da fita uma intervenção ambiental/política e não apenas a demonstração do salvamento de animais ou denúncia dos horrores feitos com a produção de carne no modo industrial. O que os papas do engajamento político se esquecem é que Okja é uma ficção de aventura e ação com pitadas de fantasia e que olha para um problema real a fim de fazer o seu plot andar. Exigir que esse tipo de filme exponha um petardo analítico ou teórico sobre as lutas contra o sistema de produção e de consumo contemporâneos é produto de mente sandia.

O tratamento entre o misterioso e o redentor do grupo de salvadores de animais e a forma como ele costura uma possibilidade de luta e denúncia foi colocado na medida certa para fazer o conflito fluir. Para quem quer um caminho revolucionário de destruição e reconstrução de um sistema socioeconômico, saiba que a literatura, em diversas áreas do conhecimento, está abarrotada de exemplos. Okja não é um grito de liberdade anti-porcos-capitalistas (hehehe), mas um ótimo recorte de um problema que muitos de nós — eu inclusive — lutamos para ignorar. A chamada do roteiro para uma revisão de hábitos não é via pregação ou Manifesto. E nisso o longa tem um baita sucesso. Nem a linha de convencimento do tipo “olha, se mudar pequenos hábitos…” aparece como uma consolação de meio-caminho. O fato é exposto como parte de qualquer coisa ruim sobre a qual temos conhecimento: as implicações para as vítimas e os muitos lados em torno da causa e da busca pelo remédio ou extinção desse sofrimento. O que cada um vai fazer com isso, não é um drama como Okja que vai dizer. Pois aí está mais um motivo que faz a obra ser uma baita diversão, no fim de tudo: o diretor está apenas preocupado em contar uma boa história. A real discussão, sob qualquer ordem teórica, fica por nossa conta.

Okja (Coreia do Sul,  EUA, 2017)
Direção:
  Joon-ho Bong
Roteiro: Joon-ho Bong, Jon Ronson
Elenco: Tilda Swinton, Paul Dano, Seo-Hyun Ahn, Giancarlo Esposito, Jake Gyllenhaal, Je-mun Yun, Shirley Henderson, Steven Yeun, Daniel Henshall, Lily Collins, Devon Bostick
Duração: 118 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.