Crítica | Old Man Hawkeye – Vol. 2: O Mundo Inteiro Cego

  • spoilers do primeiro arco, cuja crítica pode ser lida aqui.

Antes do Velho Logan sair da aposentadoria em um futuro distópico para vingar-se da morte de sua família no festejado arco de Mark Millar e Steve McNiven de 2008 e 2009 em Wolverine, Clint Barton, o Gavião Arqueiro, também singrou as Terras Devastadas em uma missão de vingança. É o que nos conta a maxissérie Old Man Hawkeye, que começa com o herói ainda enxergando, no começo de seu glaucoma galopante.

Na primeira parte, vimos o herói em uma missão solitária para eliminar os membros dos Thunderbolts que, há 45 anos, ajudaram os vilões a derrotar os heróis comandados por ele e pela Viúva Negra em um missão a Las Vegas. É justamente assim, com um flashback sobre a referida missão, que o segundo e derradeiro arco começa, detalhando a derrocada de sua equipe e o porquê de sua sobrevivência. Depois dessa volta ao passado que não é absolutamente necessária mas que eficientemente “colore” a vingança pessoal de Clint Barton ainda que irritantemente matando super-heróis extremamente poderosos como Thor sem muito esforço, a história recomeça do ponto onde parou no arco anterior, com ele convencendo sua eterna parceira Kate Bishop (Velha Kate?) a ajudá-lo em sua empreitada.

A relação entre os dois é o ponto alto desse final, já que Kate mantém sua bússola moral intacta. Ela ainda é uma super-heroína clássica, que quer fazer o bem acima de tudo e que se recusa a matar por matar mesmo considerando a situação desesperadora que heróis como ela vivenciaram nas últimas décadas. O contraponto é evidente com o Clint sedento por sangue que está ficando cego fisicamente, mas que, psicologicamente, já perdeu completamente a visão. Ela segura os ímpetos do agora anti-herói, o que cria atritos e interações muito bem explorados no texto de Ethan Sacks.

Paralelamente à missão dos “Gaviões”, vemos o Mercenário, agora com tecnologia de Deathlok suprindo partes de seu corpo, seguindo Barton. Se originalmente ele estava apenas obedecendo ordens do todo-poderoso Caveira Vermelha, líder incontestável da vilania que tomou o mundo, agora ele segue um caminho independente, uma missão própria: matar Clint Barton a todo custo. Mas sua missão não é motivada por ordens de seu superior, mas sim por sua própria vontade de, novamente, depois de mais de 40 anos, matar um super-herói. Isso já havia o colocado em choque com o Caveira, o que continua aqui, com um excelente momento em que o nazista envia um conturbadíssimo e torturado ex-herói para matá-lo.

Os arqueiros contra um Sentinela no Canadá.

As missões paralelas não demoram a convergir, com o Mercenário encontrando o Gavião no templo onde agora vive uma arrependida Soprano, uma das traidoras. A pancadaria que segue é muito bem coreografada, com a arte de Marco Checchetto preenchendo muito bem os espaços e criando uma dinâmica poderosa que não só privilegia as habilidades de Clint e do Mercenário, como também dão o devido destaque à Kate Bishop. Claro que temos que aceitar que esses heróis e o vilão, mesmo depois de 45 anos do ponto alto de suas respectivas vidas, ainda conseguem fazer o que fazem, mas isso é o papel da suspensão da descrença que, se incomoda, logo temos que esquecer em prol da fluidez do que vemos página a página.

No entanto, esse embate é apenas um prelúdio para o clímax que acontece depois que a dupla super-heroística lida com Rocha Lunar em uma repetição narrativa que, mesmo sendo interessante, poderia ter sido “pulada” por Sacks e com o Barão Zemo, seu segundo em comando Avalanche e minions da Hydra em uma instalação da Arma X no Canadá. Zemo é o grande arquiteto do plano que derruba a equipe de Clint e os embate entre os dois é muito bem trabalhado, um verdadeiro exemplo de justiça poética que, porém, muitos poderão interpretar como um anticlímax.

Quando o Mercenário volta, então, Sacks consegue criar tensão ao leitor não sobre o destino do Gavião Arqueiro, claro, mas sim sobre o de Kate Bishop. Considerando que não a vemos em O Velho Logan, sua morte é possível e tanto o roteiro como a arte manobram bem essa possibilidade, mantendo aquela sensação de perigo que, francamente, é rara de se ver em HQs mainstream. E, quando tudo chega ao fim, Sacks ainda nos oferece um epílogo que certamente abrirá um sorriso no rosto de muitos leitores.

O final de Old Man Hawkeye mantém a qualidade do que vemos no primeiro arco. É uma história de vingança simples, mas que prende o leitor às páginas e os brinda com versões envelhecidas e muito interessantes de um sem-número de personagens clássicos. Um prazer de leitura!

Old Man Hawkeye – Vol. 2: O Mundo Inteiro Cego (Old Man Hawkeye – Vol. 2: The Whole World Blind, EUA – 2018)
Contendo: Old Man Hawkeye #7 a 12
Roteiro: Ethan Sacks
Arte: Marco Checchetto, Francesco Mobili
Cores: Andres Mossa
Letras: Joe Caramagna
Editoria: Mark Basso
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: julho a 19 de dezembro de 2018
Páginas: 134

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.