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Crítica | Olhar de Anjo

por Leonardo Campos
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Durante a análise de Assumindo a Direção e Antes Que Termine o Dia, trouxe a boa condução e um inevitável acidente como elementos narrativos díspares para o desenvolvimento dos conflitos dramáticos gerenciados pelas histórias sobre novos rumos e segundas chances. Desta vez, utilizo da mesma linha de pensamento, mas para refletir sobre Olhar de Anjo, uma mescla de romance e drama com toques fantasiosos, voltados aos desdobramentos de duas pessoas que trocaram um brevíssimo contato após um acidente de trânsito, para algum tempo depois, reencontrarem-se em situações adversas de suas vidas conflituosas. Enquanto um está marcado por traumas do passado ainda não resolvidos, a outra encontra-se numa situação devastadora, mesmo que o indivíduo em questão não tenha condição mental para compreender e dar prosseguimento a sua vida depois da tragédia automobilística mencionada anteriormente.

Com direção de Luís Mandoki, cineasta guiado pelo roteiro de Gerald De Pego, Olhar de Anjo nos apresenta, ao longo de seus extensos 120 minutos, a vida de Sharon Pogue (Jennifer Lopez), uma policial problemática, frustrada com os homens que adentram e deixam a sua vida constantemente. Seu parceiro de trabalho, Robby (Terence Howard), acompanha a colega em sua jornada de trabalho diária, sempre testemunha dos acontecimentos que marcam a trajetória da jovem que ainda acredita num futuro melhor para a sua vida sentimental. No bojo da família, as coisas são ainda piores. A sua mãe Josephine (Sonia Braga) é uma mulher passiva, relativamente distante da filha depois que a mesma prendeu o seu pai, um homem que agredia a sua mãe. Com isso, ela ganhou a ira e a indiferença de seu irmão Larry (Jeremy Sisto).

É neste processo de sensação de abandono que Sharon encontra o seu “anjo”. Numa situação bizarra numa lanchonete, ela é protegida por esse homem conhecido pelas ruas como Catch, figura misteriosa que circula pela cidade distribuindo boas ações. Ele é um homem que fala muito pouco de si, algo que até nos faz acreditar ser uma entidade espiritual ou algo do tipo. Depois de muitos conflitos entre uma saída e outra, Sharon desconfia que o contato dos dois não vá mais adiante, tal como as suas investidas anteriores. Catch é alguém extremamente fechado em si, algo que pede paciência e muita interpretação da policial que acredita já ter problemas suficientes em sua vida pessoal e na estressante dinâmica de trabalho.

Mais adiante, após um encontro peculiar, ela o segue e descobre que há algo de estranho, muito além do comportamento de alguém introvertido. Neste momento, o roteiro que investia no mistério e dosava de maneira monótona o suspense, apresenta dados homeopáticos da situação. Catch na verdade é Steve Lambert (Jim Caviezel), homem que perdeu a família durante um impactante acidente de trânsito que ceifou a vida de sua esposa e filho. E foi Sharon, agora em resgate diante de sua memória recente, que salvou o viúvo, ao segurar firmemente a sua mãe enquanto os socorristas não chegaram, algo que ocorreu há pouco mais de um ano. Aqui, uma tragédia de trânsito é o desfecho de uma relação e a possibilidade de ser a porta de abertura para outra.

A divulgação nos faz acreditar que Olhar de Anjo é um filme tomado por uma carga espiritualista, mas na verdade tudo é muito científico, o que não desmerece a tentativa do roteiro de criar uma história edificante, sobre boas pessoas que adentram em nossas vidas e funcionam como verdadeiros anjos iluminados. O grande problema, por sua vez, é que as intenções morrem junto com o tal acidente de carro, pois o texto e a direção não permitem que a história seja mais envolvente. Há um esmero estético que entrega ao filme uma atmosfera sofisticada, principalmente pela direção de fotografia de Piotr Sobocinski e design de produção urbano e clean de Dean Tavoularis, eficientes ao situar Jennifer Lopez e contemplá-las com quadros que deixam a personagem sempre iluminada, a ressaltar os seus figurinos e maquiagem.

Percebemos que aqui, temos um filme concebido também por Jennifer Lopez, envolvida profundamente com o seu personagem, acompanhada pela condução sonora de Marco Beltrami em um desempenho musical fora do seu campo habitual. A Sharon de Lopez é dedicada ao entendimento de seu misterioso novo amor, mas também é ética e passa a ajuda-lo no processo de reencontro com o seu próprio passado, desestabilizado por causa do acidente. Ela o leva ao cemitério, busca resgatar histórias anteriores, pois o seu interesse também é que sigam sem deixar pendências pelo meio do caminho da vida de um homem enlutado, uma pessoa que sequer consegue perceber os estágios de sua imersão diante da tragédia que mudou para sempre a sua existência. Com personagens bem delineados, faltou ao filme um ritmo melhor para que a mensagem alcançasse mais pessoas. No final das contas, um resultado esteticamente deslumbrante para uma história que dificilmente o espectador se interessará por uma reprise.

Olhar de Anjo (Angel Eyes) — EUA, 2001
Direção: Luis Mandoki
Roteiro: Gerald Di Pego
Elenco: Jennifer Lopez, Jeremy Sisto, Jim Caviezel, Monet Mazur, Shirley Knight, Sonia Braga, Terence Howard, Victor Argo
Duração: 120 min.

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