Crítica | Olhar Estrangeiro

Há algum tempo as discussões sobre a imagem dos brasileiros nas séries e filmes estrageiros não levantam polêmicas midiáticas, mas diante do nosso cenário político contemporâneo, não vai demorar para a nação mais vez ser alvo de piadas e críticas ácidas que transformam a representação ficcional do nosso cotidiano, no bojo do olhar estrangeiro, “um horror”. Foi com esse pensamento que considerei uma grata oportunidade, revisar Olhar Estrangeiro, lançado em 2006. Na produção, de maneira bastante humorada, sem deixar de lado a ironia e o senso crítico, a cineasta Lúcia Murat analisa os clichês sobre os brasileiros que se avolumam constantemente, tendo alguma variação na abordagem entre uma produção e outra, mas não deixando de nos apresentar através de uma ótica primitiva e ultrapassada.

Com apoio do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e da Rede SESC de Televisão, Murat entrevistou diversos profissionais do meio cinematográfico, numa seleção que detinha uma característica específica: a participação do entrevistado em alguma produção que citava ou até mesmo se passava em território brasileiro. Em entrevista concedida na época da minha pesquisa de iniciação científica, publicada depois na internet, a cineasta declarou que “o documentário nasceu de uma sensação de rejeição, ou melhor, de espanto e indignação diante dos clichês com que nos deparamos no exterior sobre o que é ser brasileiro”, além de reforçar que como viaja muito por causa de seus filmes, “tinha vontade de dar uma espécie de resposta, num tom irônico, na forma com que eu trabalho, ou seja, através do cinema”.

Com registros realizados em festivais ao redor do mundo, tais como França, Suécia e Estados Unidos, Olhar Estrangeiro teve o orçamento de R$200 mil. Produzido durante seis anos, a produção foi selecionada pelo Projeto Brasil Documenta, uma das mais importantes mostras nacionais de documentários do país. Em seu panorama de produções que tornam o Brasil uma caricatura, a cineasta reflete e chega à conclusão de que esse olhar é uma troca. Em suma, nós recebemos tais olhares porque em alguns momentos, os fornecemos. O problema é a forma como o estereótipo deturpa os dados, pois a abordagem do documentário não é negar os nossos problemas, tampouco as reflexões deste livro.

Com depoimentos de Edouard Luntz, Hope Davis, Jon Voight, Larry Gelbart, Michael Caine e muitos outros, o documentário intercala os relatos com cenas dos filmes comentados. Um dos pontos mais ressaltados é a tentativa destes realizadores de inventar um latino único, criando uma nacionalidade e negando a existente. Juntamente com o relato dos produtores, Lucia Murat também inseriu pequenas entrevistas com espectadores franceses, suecos e estadunidenses, solicitando-lhes que citassem palavras relacionadas ao seu imaginário pessoal de nação brasileira. As respostas seguem o ritmo do que o filme analisa durante os seus 80 minutos: pobreza, sexo, exotismo, trabalho, mestiçagem, liberdade sexual, etc.

Primários e absurdamente curiosos, os estereótipos apresentados pelo documentário revelam a ignorância dos envolvidos nas produções cinematográficas selecionadas por Lucia Murat, algumas citadas pelo texto acadêmico de Tunico Amâncio, o livro O Brasil dos Gringos – Imagens do Cinema. O absurdo se expõe quando nos damos conta de que estamos diante de uma arte coletiva, isto é, o cinema e seus diversos departamentos de criação. Como um roteirista produz algo que se refere ou trata de um país/localidade sem ao menos mergulhar profundamente numa pesquisa? Esse é o elemento básico para a formulação de roteiros. No documentários, a visão amazônica em Anaconda, os macacos na praia em Feitiço do Rio, o território brasileiro como espaço para fugas em Cova Rasa, dentre outras produções, ilustram os depoimentos.

A cineasta reforçou durante a entrevista que é interessante atualizar os estudos e continuar revendo o que se produz em relação ao Brasil numa perspectiva estereotipada. Murat acredita que “a questão da violência, que não abordamos no filme porque ainda não se fazia sentir na grande indústria, é algo que hoje deve ser abordado”. Os olhares míopes mudaram por algum tempo, mas há algumas produções que insistem em estereótipos que na era da cibercultura, já não surtem os mesmos efeitos. O que não impede, entretanto, que eles ainda circulem, afinal, o que é aquele Brasil de Velozes e Furiosos – Operação Rio ou a feijoada brasileira de Missão: Madrinha de Casamento? O tema de Murat não envelheceu, ainda é bastante relevante e deve caberia uma sequência com reinterpretação dos olhares.

Deiante do exposto, Olhar Estrangeiro nos permite observar criticamente como o exagero e a má interpretação se estabelece em algumas produções cinematográficas e televisivas. É um documentário remissivo ao processo de reiteração do cinema e televisão (e hoje o amplo feixe de cibercultura) funcionarem como matrizes do imaginário coletivo, reprodutor de identidades e culturas moldadas nem sempre com base em suas dadas realidades, mas com base nas facilitações que os estereótipos engendram. O que se pode concluir ao assistir ao filme é que muitos produtos culturais estrangeiros alimentam-se do imaginário de documentos históricos que já não condizem com a nossa realidade: A Carta de Pero Vaz de Caminha e os relatos dos cronistas do descobrimento, material que estabelece um paralelo com Turistas, de John Stockwell, haja vista o primitivismo dos brasileiros, uma nação similar à que se tem como imagem do período colonial.

Os Simpsons também canalizam tais documentos em O Feitiço de Lisa, mas pela via do humor e da ironia. As traduções de muitas obras de Jorge Amado também coadunam com este processo. Em filmes como Sabor da Paixão, é possível perceber que estamos diante de um pastiche de Gabriela e Dona Flor. As quatro amigas do seriado Sex and The City vivem uma experiência aparentemente brasileira, num misto de exotismo provavelmente inspirado pelas numerosas produções cinematográficas do século XX, além das manchetes sobre a sexualidade das brasileiras, vendidas constantemente na mídia internacional.

Olhar Estrangeiro — (Brasil, 2006)
Direção: Lúcia Murat
Roteiro: Lúcia Murat, Tunico Amâncio
Elenco: Edouard Luntz, Hope Davis, Jon Voight, Larry Gelbart, Michael Caine, Philippe de Broca, Greydon Clark, Larry Gelbart, Robert Ellis Miller
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.