Uma virada silenciosa marcou a segunda metade dos anos 1990 para Ney Matogrosso, que teve uma década cheia de discos primorosos. Depois de um projeto dedicado a Chico Buarque (Um Brasileiro, 1996) e ao encontro entre Villa-Lobos e Tom Jobim (O Cair da Tarde, 1997), o cantor retornou ao estúdio em 1998 com uma nova ideia: dar voz a compositores de uma outra geração, muitos deles à margem do mercado fonográfico. Gravado no Estúdio Mega, no Rio de Janeiro, sob direção de João Mário Linhares e Zé Nogueira, Olhos de Farol é um gesto político num momento particular do país. O Brasil atravessava o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, caracterizado por desemprego crescente que atingia 9% da população economicamente ativa, privatizações impopulares e efeitos das crises internacionais. Nesse cenário de instabilidade, Ney escolheu canções que olhavam para dentro e para fora, equilibrando reflexões sobre angústias e diagnósticos urgentes da realidade brasileira.
O repertório de 13 faixas é como um mapa parcial da produção musical brasileira que se afastava dos circuitos comerciais. Pedro Luís, que futuramente colaboraria com Ney em um projeto grande, assina duas composições: Miséria no Japão, que abre o disco, e Fazê o Quê?, construída sobre a premissa de que para fazer música basta papel e caneta. Itamar Assumpção, figura emblemática da Vanguarda Paulista, aparece em parceria com Alzira E na corrosiva Bomba H, faixa que já havia sido gravada por Alzira em Peçamme (1996). Luiz Tatit, semiólogo e compositor ligado ao Grupo Rumo, contribui com a tocante Depois Melhora, originalmente lançada em seu disco solo Felicidade (1997). O pernambucano Lenine, ao lado de Lula Queiroga, Bráulio Tavares e Ivan Santos — o quarteto que nos anos 1980 formava o “coletivo” WolfGang (a gangue do lobo) na casa compartilhada em Botafogo –, oferece Mais Além, canção esotérica que já constava em Olho de Peixe (1993). Samuel Rosa, do Skank, divide com Chico Amaral a autoria de O Som do Mundo. Paulinho Moska assina Gotas de Tempo Puro, enquanto de Cazuza e Frejat vem a icônica Poema, balada criada a partir de versos que Cazuza escreveu ainda muito jovem para sua avó paterna.
O álbum tem uma divisão temática clara. Há canções que miram o Brasil cotidiano, dissecando as misérias sociais e as contradições nacionais. Miséria no Japão faz o fundamento do álbum com um tom crítico que perpassa todo o trabalho. Vira-Lata de Raça, de Rita Lee e Beto Lee, explora a identidade nacional através da figura do cão sem pedigree elevado a símbolo de resistência. Bomba H explode em versos que questionam rancor, tédio e mágoa coletivos, enquanto a viva e maravilhosa A Cara do Brasil, de Celso Viáfora e Vicente Barreto, fecha o disco devolvendo ao ouvinte a imagem do país maravilhoso, mas cheio de contradições que o álbum construiu ao longo das 13 faixas. Nesse olhar externo estão composições que investigam afetos, perdas e temporalidades. Poema tornou-se o grande destaque comercial do projeto, balada que Ney interpreta com extremo cuidado e perfeição, respeitando a origem lírica dos versos de Cazuza. Gotas de Tempo Puro reflete sobre a aceleração do mundo moderno e o desejo de liberdade em relação ao tempo. Depois Melhora cruza as etapas da dor provocada pela partida de alguém, tanto no luto quanto na real partida, em vida, transformando sofrimento em esperança. Olhos de Farol, faixa-título assinada por Ronaldo Bastos e Flávio Henrique, trabalha a metáfora do amor impossível através da imagem de dois astros que nunca compartilham o mesmo céu, recorrendo ao Pierrô carnavalesco como símbolo da melancolia amorosa. Novamente, de Alexandre Lemos, Fred Martins e Chance de Aladim, de Luhli, completam esse núcleo introspectivo sem abandonar a fineza melódica do disco.
A produção opta por instrumentações que privilegiam a clareza da canção em vez dos excessos orquestrais. Leandro Braga, Sacha Amback, Marcello Gonçalves e Ricardo Silveira, responsáveis pela direção musical, trabalham com economia de recursos, permitindo que a voz de Ney — então com 57 anos — encontrasse espaço para nuances interpretativas. Em Poema, particularmente, a construção instrumental cria uma base minimalista que faz brilhar ainda mais a narrativa. A gravação no Estúdio Mega, sob engenharia de som de Marcio Gamma, é cheia de timbres orgânicos, afastando Olhos de Farol da sonoridade eletrônica que dominava parte da produção brasileira do final daquela década. Há cuidado em manter a textura acústica mesmo quando elementos contemporâneos se fazem presentes. O título do álbum já deixa clara sua intenção: os olhos maquiados do cantor, estampados na capa, são faróis que clareiam exterior e interior simultaneamente, revelando tanto o Brasil quanto as inquietações da alma do cidadão.
O disco gerou uma turnê que resultou em dois registros ao vivo: o CD Vivo e um DVD. Em conclusão, Olhos de Farol olha para o país sem ilusões, mas também sem desespero absoluto, propondo que a criação artística pode funcionar como instrumento de transformação, mesmo em tempos de vacas magras. O cantor demonstra, mais uma vez, que é possível renovar abordagens e conteúdos dentro de uma identidade própria, e que a busca por novos compositores não contradiz o respeito pela tradição. Olhos de Farol equilibra engajamento e rigor estético, intimidade, crítica, tradição e experimentação, tudo isso num conjunto de canções fortes e atemporais, com várias facetas de crítica à realidade, de pensamentos sobre a vida e de esperança de um futuro diferente… talvez um pouco melhor do que o presente.
Olhos de Farol
Artista: Ney Matogrosso
País: Brasil
Lançamento: 1998
Fotos: Richard Romero
Gravadora: Polygram
Estilo: MPB
Duração: 52 min.
