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Crítica | On the Rocks

por Ritter Fan
1602 views (a partir de agosto de 2020)

On the Rocks marca a terceira vez que Sofia Coppola dirige Bill Murray, desta vez retornando ao tipo de dramédia que ela manejou tão bem no inesquecível Encontros e Desencontros, mas sem nem sombra da sutileza e do lirismo do longa de 2003. O mais recente filme da diretora, desta vez em colaboração com o Apple TV+ é, por assim dizer, uma versão aguada e repetida de dilemas do cotidiano que preserva seu toque delicado em muitos momentos, mas que, lá no fundo, apoia-se quase que exclusivamente na performance de Murray.

O ator vive, basicamente, uma amálgama satírica dele mesmo com seus personagens mais famosos. Seu Felix é um marchand milionário já com certa idade, mas que acha que permanece jovem dando em cima de absolutamente todas as mulheres que cruzam na frente dele, demonstrando generosas doses daquele machismo antiquado – que certamente trará desconforto a muita gente – enquanto influencia sua filha, Laura (Rashida Jones, filha de Quincy Jones) a investigar seu marido, Dean (Marlon Wayans em uma ponta glorificada, na verdade), por suspeita de adultério. Mas as desventuras da adorável dupla de pai e filha é, na verdade, um subterfúgio de Felix, um trotamundos, para ver sua filha e netas com constância durante sua permanência em Nova York.

Lá no fundo, portanto, On the Rocks é sobre solidão mais uma vez.

Sim, solidão, mas não exatamente a solidão perdida do clássico de Coppola com Murray. O personagem de Bill Murray, escrito com carinho para ele por Coppola, não é o tipo de personagem que recorre à correção política para ser amável. Ao contrário, muita gente – e eu digo muita gente! – torcerá o nariz para suas atitudes e para seus comentários deslocados e não há nada que eu possa escrever aqui para mudar essa percepção e eu nem pretendo. Mas Felix é, também, um retrato não só de seu tempo, como de seus privilégios. Ele é um homem galanteador que não compreende que existe uma barreira entre o galanteio e o assédio ou, no mínimo, a impropriedade. Laura sabe muito bem disso, repreende o pai, mas entende essa circunstância e deixa passar sua atitude, glosando-a como algo que faz parte da natureza de “seu velho” e percebendo que ele não só vive no passado, como também vive sozinho apesar de, em tese, já ter tido todas as mulheres do mundo.

A sequência em que ele relembra da amante que levou ao fim de seu casamento com a mãe de Laura é a maior mostra disso. Murray deixa de ser só Murray na sequência e mergulha fundo em seu personagem, deixando às escâncaras que, com exceção de sua filha e netas que ele só vê esporadicamente, seu maior parceiro é seu motorista “invisível” que dirige seu carro preto de janelas com filme escuro para lá e para cá. Talvez justamente por Felix ser assim e nunca ter mudado é que ele carrega o espectro da solidão ao seu lado, mas com consciência de que ele está lá. De certa forma, esse é seu “castigo”.

O lado cômico do filme é divertido, mas forçado. Laura é construída nos minutos iniciais como uma mulher forte e independente que cuida da casa e filhas na ausência do marido que fundou há pouco tempo uma empresa e precisa viajar muito, ao mesmo tempo em que tenta escrever um novo livro, mas sem sequer conseguir colocar uma letra na página em branco. Quando seu pai entra em cena, porém, sua personalidade desaparece por completo. Claro que há todo o fantasma do adultério a assombrando e isso cobra um preço, mas o problema é que a personagem acaba sendo transformada em não mais do que um sidekick sem vontade própria do Felix de Murray que, com aquele jeito bonachão e irresistivelmente simpático (mesmo com Murray sendo Murray quase o tempo todo, como de costume – e isso não é um comentário negativo, vale dizer!), toma conta não só da tela, como de toda a história.

Aquele rapport que Coppola soube estabelecer tão incrivelmente bem entre Murray e Scarlett Johansson em Encontros e Desencontros inexiste quase que por completo aqui e é substituído pela manipulação de situações pelo pai que quer se manter ao lado da filha em “aventuras” de seu imaginário. É simpático, mas um pouco vazio e raso, especialmente pela falta de consequências aos personagens que entram e saem do filme exatamente do mesmo jeito, sem desenvolvimentos perceptíveis ou lições valiosas para além da constatação – para nós – sobre quem exatamente eles são.

Mas a câmera da cineasta é deliciosa. Ela tem uma visão única de cotidiano, filmando suavemente e estabelecendo sequências simples, mas muito eficientes como a singeleza de pai e filha pedindo sobremesa no restaurante sofisticado ou fazendo tocaia à base de caviar e torradas ou o pai cantando para completos estranhos. Mesmo em momentos de ação a doçura impera, como na hilária cena de perseguição pelas ruas de Nova York, com Felix dirigindo um Alfa-Romeo antigo que mal funciona como um louco. No entanto, mesmo que esse olhar clínico e benevolente de Coppola funciona por boa parte do tempo, o longa falha em ir a uma camada abaixo da dramédia básica, mas de aparência elegante.

On the Rocks sem dúvida divertirá aqueles que não se incomodarem demais com o machismo anacrônico e até brega de Felix e conseguirem mergulhar em um Bill Murray novamente muito simpático, quase bobo, mas irresistível, vivendo um Bill Murray milionário, quase bobo, mas irresistível, querendo ver sua filha e netas dentro de uma estrutura leve de gato e rato. Na categoria “diversão com apenas um leve compromisso” – porque não, o filme não é descompromissado – o mais novo longa de Sofia Coppola sem dúvida merece destaque.

On the Rocks (EUA, 23 de outubro de 2020)
Direção: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola
Elenco: Bill Murray, Rashida Jones, Marlon Wayans, Jessica Henwick, Jenny Slate, Liyanna Muscat, Alexandra Mary Reimer, Anna Chanel Reimer, Barbara Bain, Juliana Canfield, Alva Chinn, Mike Keller
Duração: 96 min.

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