Crítica | Onde Estão os Sonhos de Juventude?

Seishun-no-yume-ima-izuko-aka-Where-Are-the-Dreams-of-Youth-1932-PLANO CRITICO YASUJIRO OZU

De Dias de Juventude (1929) para Onde Estão os Sonhos de Juventude? (1932), ou seja, em apenas três anos, nós observamos uma verdadeira revolução na maneira de dirigir do cineasta Yasujiro Ozu, e isso fica ainda mais evidente porque estamos falando de dois “filmes estudantis” que mostram um momento de maturidade ou percepção da vida para os jovens envolvidos. No primeiro caso temos uma estadia maior no espaço da faculdade, a luta para passar nos exames, as férias e o amor em disputa, representado pela comédia. No segundo, os momentos finais dos alunos na Universidade e a introdução desses recém-formados no mercado de trabalho, num tempo de crise econômica no país. Há aí também espaço para a comédia (em menor medida) e principalmente para o amor, fraterno e libidinoso.

Rodado num período de suspensão das filmagens de Meninos de Tóquio (1932), quando uma das crianças ficou machucada e precisou se afastar, Onde Estão os Sonhos de Juventude? prova que a melancolia se tornara o ponto principal na abordagem de Ozu para a vida, elemento que, mesmo diante da doçura, dos bons laços entre pessoas e das alegrias da vida que ele filmaria nos anos seguintes, jamais deixou de fazer parte de seus filmes. Curioso também é observar que o diretor procurava colocar seus personagens intimamente ligados ao ambiente, primeiro, priorizando dias ensolarados (é conhecido o seu contraste com Kurosawa, que tinha a mesma preferência de relação ambiente-personagens, mas preferia a chuva) e em paralelo, destacando de maneira poética e contemplativa os objetos de suas casas, rua, trabalho. Neste longa de 1932, até o figurino serve como construção dessa observação, especialmente porque o diretor não está interessado em manter os pés na comicidade. Ele quer uma grande medida de desalento. Mostrar como a maneira inocente de os jovens olharem a vida pode desaparecer rápida e dolorosamente.

Tetsuo (Ureo Egawa) é um estudante rico que tem uma paixão não declarada por Oshige (Kinuyo Tanaka), uma vendedora de bebidas na área da faculdade. Embora se pareça muito com as “comédias estudantis” anteriores de Ozu, esse momento da narrativa está mais focado num tipo de aproveitamento final dos estudantes em relação ao seu espaço de convivência e de “vida fácil” do que de real atenção para suas vidas na Universidade. Há um pequeno contexto sobre a diferença de classes sociais entre eles (algo que se tornaria uma coluna sólida do roteiro na segunda metade do filme), mas isso é exposto rapidamente, apresentando o estudioso Saiki (Tatsuo Saitô) como alguém aplicado, mas de pouca sorte na vida, em muitos sentidos.

Mesmo com um apelo comercial, a seu modo, o filme é um impressionante ritual de passagem para os personagens masculinos, com o roteiro de Kôgo Noda transitando entre a leveza de uma fase da vida (aqui, vale destacar com louvor a atuação de Ureo Egawa, que transmite muito bem cada uma dessas fases) e a realidade das responsabilidades de adulto, especialmente em termos de manutenção do emprego, necessidade de um salário para viver e questões morais envolvendo indivíduos de diferentes classes sociais, tema que se destaca, ao lado do romance, no desenrolar da obra. De um ponto para outro, vemos a fotografia ficar um pouco mais escura e observamos um número menor de tomadas em externas, como se a seriedade da vida trouxesse também a introspecção para os personagens, mais propensos a vestir máscaras e ignorar coisas que antes lhes fariam partir para briga, tudo para manter um trabalho. A reta final do filme explora quase que exclusivamente esse aspecto da vida.

Uma das sequências finais da película traz uma ação dolorosa de se ver, mas ela retratada com uma delicadeza quase impossível por Ozu, algo que nos faz realmente repensar a relação entre os amigos e separar a atitude raivosa (momentânea) do verdadeiro sentimento que um tinha para com o outro (perene). Notem como a câmera enquadra a dupla conversando na rua, em alta noite, e como a montagem faz o corte primeiro para a cena de uma árvore solitária, sendo posteriormente mostrado um plano com duas árvores balançando ao vento, quando o triângulo amoroso se quebra, a briga entre os amigos acontece, mas a amizade se mantém viva e, talvez justamente pela honestidade ali exposta, fortalecida, blindada. Aqui, Ozu reúne despreocupadamente questões sociais com questões sentimentais e faz um filme sobre amadurecimento, sobre renúncia ou aposentadoria de antigos sonhos pueris e planos para novos sonhos em um momento maduro e mais intenso da vida.

Onde Estão os Sonhos de Juventude (Seishun no yume ima izuko) — Japão, 1932
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Kôgo Noda
Elenco: Ureo Egawa, Kinuyo Tanaka, Tatsuo Saitô, Harurô Takeda, Ryôtarô Mizushima, Kenji Ôyama, Chishû Ryû, Takeshi Sakamoto, Chôko Iida, Ayako Katsuragi, Satoko Date, Kaoru Futaba, Kikuko Hanaoka
Duração: 92 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.