Home QuadrinhosMangá Crítica | One Piece – Vols. 1 a 3: Romance Dawn/Orange Town (Saga East Blue)

Crítica | One Piece – Vols. 1 a 3: Romance Dawn/Orange Town (Saga East Blue)

por Kevin Rick
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Logo de cara, eu preciso confessar algo: One Piece é minha obra favorita. Não mangá ou anime, mas obra predileta. Em suma, se alguém me mandasse para uma ilha deserta por vários meses e me desse a escolha de carregar comigo apenas uma criação artística para me entreter, eu escolheria o épico de fantasia pirata criado por Eiichiro Oda. Dessa forma, a vontade do meu coraçãozinho de fã é simplesmente escrever uma carta de amor e dar a nota de obra-prima. Todavia, o meu lado crítico me impede de tal feito, e mesmo que considere vários arcos de One Piece o ápice do que se pode fazer no gênero, o início da jornada do Luffy ainda não está nesse nível, ainda que bem longe de ser mediano.

Antes de adentrar a fascinante aventura pirata, também é primordial frisar que devido à gigantesca longevidade do mangá (estamos próximos de 1000 capítulos!), eu flertei em fazer estas críticas por Saga, e não por Arco, o que diminuiria significantemente o trabalho textual, mas isso seria um desserviço para a magnum opus do Oda. Além de que, o mais vendido e famoso mangá da história japonesa necessita de tempo e paciência para ser analisado. Dito isso, considerando a quantidade efêmera de capítulos do primeiro Arco, Romance Dawn, decidi misturá-lo com Orange Town, que será provavelmente a única ocorrência de tal caso neste projeto homérico.

SPOILERS!

Romance Dawn segue todos os arquétipos esperados de uma introdução de mangá na Weekly Shōnen Jump, conhecida por seu rápido cancelamento e horários de trabalhos excruciantes, restando a mangákas iniciantes começarem seus projetos com tremenda pressão de prender leitores o mais rápido possível. Essa situação imposta à artistas desconhecidos na revista é algo que me enerva, pois rouba do público o verdadeiro início em mente dos autores, que na busca pela acelerada imersão acabam entregando muita informação e personagens mais habituais para conquistar a maioria possível de leitores.

O primeiro volume da série sofre um pouco com isso, seguindo múltiplos clichês do gênero, especialmente no primeiro capítulo, numa super exposição de toda a trama da série. Temos o universo dos piratas apresentado como base, o protagonista simples e carismático, Luffy, com um sonho impossível, o de se tornar Rei dos Piratas, e a trajetória de encontro dos companheiros para a jornada fantástica, dividida em flashbacks abruptos como o do Zoro, o primeiro membro do bando capitaneado por Luffy. É tudo muito direto e resolvido facilmente, sem um senso de perigo ou construção narrativa, contudo, felizmente, o teor humorístico da obra digere esses problemas, oferecendo uma leitura agradável, composta por personagens rapidamente identificáveis e divertidos. Aliás, a cena do Shanks perdendo o braço, uma espécie de mentor e figura paterna do protagonista, foge à regra desse argumento, sendo um dos mais memoráveis e emocionantes acontecimentos da série.

Oda já apresenta um tremendo controle de ritmo cômico e aventureiro, com dramas sociais e corrupção nas entrelinhas do mangá, e do mesmo modo exibe contextos de pertencimento e significado bem interessantes. A interpretação do que é ser um pirata é um deles, fortemente debatido nos diálogos com Shanks e depois na exposição da crueldade oriunda da presença dos criminosos marítimos. O mangáka igualmente brinca com essa dualidade com os marinheiros, prontamente oferecendo a discussão da denominação como ilusão do verdadeiro caráter pessoal.

Mas o cerne destes dois primeiros arcos é o individualismo, beirando o egoísmo excessivo, na ação de todos os personagens, até mesmo dos protagonistas. Luffy, Zoro e Nami, assim como os antagonistas, têm sua própria agenda, e não ligam muito para opiniões alheias ou consequências. Claro que exceções existem, e a compaixão do trio é continuamente exibida, mas adoro como Oda constrói personagens estoicos, imóveis, irrefutavelmente ligados à seus sonhos e vontades. A dúvida é mostrada em personagens secundários, principalmente com Coby, e também em flashbacks, mas o poder de decisão do Luffy, apesar de comicamente absurdo e estúpido, é sustentando por um desejo determinado. É engraçado como essa falta de incerteza retira qualquer desenvolvimento do protagonista nos primeiros arcos, excluindo sua infância, mas não diminui a conexão empática com o público. Rimos, choramos e torcemos por ele, especialmente por seu posicionamento implacável.

Outro aspecto bastante argumentado na série é o “tesouro” pessoal de cada um, amarrando a narrativa com o individualismo, apresentado ora sentimentalmente, como o chapéu de Luffy, ora cruelmente, com a busca de glória e fortuna obtida por meios hediondos do Buggy, Morgan e Alvida. É tudo essencial para o núcleo de ambição que Oda quer criar, mas ele martela demais tais temas ao longo dos arcos, principalmente em Orange Town, ficando enfadonho o artifício utilizado de forma leviana. Isso remete-se à falta de originalidade na montagem dos arcos, extremamente semelhantes em tema, antagonistas e ambiente. Temos a cidade que precisa ser salva, o vilão superior que controla o destino dos vilarejos e nossos protagonistas que vieram para salvar a pátria. Todavia, é preciso ressaltar como a ambiguidade da salvação é um recurso divertido, com Luffy e Zoro, e posteriormente Nami, tendo que fugir pelas portas dos fundos, fazendo um paralelo cativante com as escolhas criminosas, mas nunca lamentadas pelo trio.

Romance Dawn Orange Town marcam o pontapé inicial de uma das histórias mais longas e célebres mundiais. Ambos sofrem de sua semelhança narrativa e temas batidos, mas Oda já começa a construir uma amálgama de gêneros, manuseando muito bem a comédia, a construção de mundo fantasiosa e o drama dos indivíduos mais fracos, através dos olhos de personagens hilários e magnéticos, com uma química humorística escrita e desenhada fantástica. One Piece não começa perfeito, mas os arcos de introdução fazem seu trabalho de feijão com arroz muito bem, pegando os clichês do mangá e proporcionando uma leitura prazerosa.

One Piece – Vols. 1 a 3: Romance Dawn/Orange Town – Saga East Blue (One Piece – Vols. 1-3: 冒険の夜明け / バギー海賊団 – East Blue Saga) – Japão, 1997/1998
Contendo:  Romance Dawn (#1 a 7) / Orange Town (#8 a 21)
Roteiro: Eiichiro Oda
Arte: Eiichiro Oda
Editora: Shueisha
Revista: Weekly Shōnen Jump
No Brasil:
One Piece – Vols. 1 a 3 (Panini, maio, 2019)
508 páginas

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