Home QuadrinhosMangá Crítica | One Piece – Vols. 3 a 5: Vila Syrup (Saga East Blue)

Crítica | One Piece – Vols. 3 a 5: Vila Syrup (Saga East Blue)

por Kevin Rick
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É interessante perceber como desde o início do mangá, Eiichiro Oda sempre foi agarrado a estrutura ilha-antagonista-salvação, e apesar do mote ser um tanto previsível, a criatividade do autor em relação à construção de mundo, personagens e diferentes narrativas dentro de cada arco, ainda dialogando com temas anteriores, mas proporcionando uma aventura diferente para os protagonistas, é o que manteve a obra sempre fresca e divertida de acompanhar a despeito da repetição do arranjo. Na crítica anterior mesmo eu cito tal composição de forma negativa, já que os dois arcos iniciais são demasiadamente parecidos, ainda que distantes de uma experiência ruim. Na Vila Syrup, no entanto, vemos o primeiro vislumbre de como Oda consegue fazer coisas novas com a estrutura batida.

Como disse, o terceiro arco do mangá nos apresenta a mesma premissa – após um capítulo sobre um homem preso numa caixa de tesouro, em uma cômica e surpreendente emocional história sobre adaptação -, nos levando à Vila Syrup, onde somos apresentados à Usopp, um membro do vilarejo que se diverte proliferando mentiras para os cidadãos locais sobre invasões piratas, assim como mente exageradamente em qualquer tipo de conversação normal, seja sobre coisas comuns, seja sobre feitos pessoais tão gigantescos que a falsidade se torna ridícula. Após descobrir que sua amiga, Kaya, e toda a Vila Syrup, está em perigo nas mãos do mordomo, Kuro, Usopp encara a cruel realidade de que sua reputação destruiu qualquer chance de salvar o vilarejo. E é a partir disso que Oda usa a mentira na narrativa para trabalhar com a temática da honestidade do Luffy, mas, claro, com uma nova abordagem para a essência sincera da obra, usando seu oposto como atmosfera do arco.

 

Dessa forma, não é apenas com Usopp, pois toda a trama, que tem um quê novelesco no cerne do trio Usopp-Kaya-Kuro, é envolta pela fraude e trapaça, mas cada núcleo tem sua própria “voz”, por assim dizer, na construção final da verdade como propriedade complicada de estar em conformidade com a realidade. Usopp usa a mentira como escudo e proteção advindas da perda e falta de propósito, enquanto o antagonista, Kuro, utiliza-a segundo seus objetivos mesquinhos de fuga, e até mesmo Kaya entra na brincadeira temática com a negação. Essa dificuldade em lidar com a realidade dos três personagens é posta como paralelo com a franqueza e transparência de Luffy e Zoro, e parcialmente Nami, que começa a exibir sua verdadeira personalidade, mas que ainda esconde certos objetivos pessoais e surpreende-se com várias atitudes dos dois companheiros de viagem.

É aí que entra o manuseio do Oda de assuntos anteriores dentro de uma nova perspectiva, nesse caso, da mentira, na já desenvolvida discussão da pirataria na obra. Essa contraposição de personalidades expande o significado do que é ser pirata no Universo de One Piece, de diferentes pontos de vista, como a malignidade do Kuro e sua tripulação, e a idealização da liberdade de Luffy na vida fora-da-lei, somados à trágica visão de Usopp, desde o abandono do pai pirata, até seu próprio ímpeto de ser um “bravo guerreiro do mar” como confirmação da escolha paterna e não como desamparo familiar. Se Kuro enxerga a vida ao mar como perversa e cansativa, e Luffy como autonomia e perseverança, Usopp a vê como um escapismo e corroboração de escolhas dúbias feitas por seu pai. Por fim, o arco de Usopp é verdadeiramente aceitar seus sentimentos e encarar seus medos, quebrando sua proteção mentirosa com a honestidade, ganhando assim o respeito de Luffy, Zoro e Nami.

Tudo isso é feito de forma bem simples, correlata à arte meio caricata e exagerada de Oda, que apresenta um ótimo dinamismo nas cenas de combate, mas que falha em equilibrar o tom do arco, ora extremamente violento, ora enfadonhamente infantil. A comicidade da narrativa proporciona boas gargalhadas, mas certas repetições de piadas quebram o teor mais absurdo e sombrio da história, remetendo-se a vontade de Oda por construir um mangá superficialmente para todas as idades, mas que trata de narrativas mais maduras em seu cerne, e por causa disso, às vezes, teremos essa ocorrência da falta de controle dos gêneros.

De qualquer forma, Vila Syrup é um ótimo arco de introdução para o novo membro do bando, utilizando sua história de origem como recheio do entendimento do que é ser pirata nesse mundo fantástico, e como Luffy, um personagem que raramente – pra não dizer nunca – ganha desenvolvimento, pois já tem sua personalidade “pronta” nesse ponto atual da série, então Oda continua no artifício de manipular seu entorno e os personagens secundários com objetivo de expor ao leitor a visão de mundo do protagonista. O Pinóquio entrou pra trupe e a aventura pirata em busca do One Piece está mais divertida com ele.

One Piece – Vols. 3 a 5: Vila Syrup – Saga East Blue (One Piece – Vols. 3-5: シロップ村 – East Blue Saga) – Japão, 1998
Contendo:  Vila Syrup (#22 a 41)
Roteiro: Eiichiro Oda
Arte: Eiichiro Oda
Editora: Shueisha
Revista: Weekly Shōnen Jump
No Brasil:
One Piece – Vols. 3 a 5 (Panini, agosto, 2013)
480 páginas

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