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Crítica | Only Murders in the Building – 1ª Temporada

Comédia satírica de whodunnit e true crime.

por Kevin Rick
2.381 views (a partir de agosto de 2020)

Eu sou fascinado por obras que misturam gêneros e/ou diferentes formas de mídia dentro da linguagem audiovisual. Only Murders in the Building faz os dois, trazendo um whodunnit – estilo narrativo que procura o responsável por um assassinato – misturado com true crime – gênero de não-ficção que mostra o processo de investigação de verdadeiros casos de crime -, fundindo o campo televisivo com a linguagem de podcast, enquanto equilibra o suspense do mistério com um tom de sátira. Parece complicado, né? Então vamos por partes.

A série nos apresenta o trio de Charles-Haden Savage (Steve Martin), Oliver Putnam (Martin Short) e Mabel Mora (Selena Gomez). Os dois primeiros personagens são uma dupla de velhos solitários, frustrados com suas respectivas carreiras artísticas, enquanto Gomez interpreta uma jovem mal-humorada e misteriosa. Além da solidão, o grupo tem duas coisas em comum: eles moram na Arconia, um enorme prédio de Nova York, além de compartilharem uma obsessão por podcasts de true crime. Quando um morador do prédio morre de maneira suspeita (aparentemente suicídio, mas sem um motivo claro), o trio decide iniciar seu próprio podcast cobrindo a investigação do assassinato.

A premissa um tanto absurda fisga o espectador rapidamente. E a série faz um ótimo trabalho inicial em expor sua proposta plural. Se por um lado a audiência é engajada no mistério do whodunnit com um roteiro perspicaz no jogo de pistas falsas do possível suicídio, por outro lado o fato de não termos um detetive em cena, e sim um trio meio pateta que não faz ideia do que está fazendo, dita o tom cômico e charmoso da trama. Uma mistura entre bobo e curioso. O artifício narrativo do podcast de true crime funciona como uma luva nesse contexto, atuando como elemento principal da sátira. O “crime real” e a morte são banalizados em prol da diversão do trio e de seus ouvintes, cheio de piadas mórbidas, a criação de uma investigação-entretenimento (principalmente com o personagem de Short em vários devaneios divertidos sobre direção e twists, como se ele tivesse controle do crime) e uma sensação melancólica (muito bem-feita com humor negro) de que o hobby é mais importante que a vida dos vizinhos. Há até uma camada extra de crítica bem-humorada de como não conhecemos, importamos (e majoritariamente odiamos) vizinhos na interação dos nova-iorquinos e membros do Arconia.

O design de produção e a trilha sonora passam muito bem essa atmosfera e ambiente lúdicos do mistério. O prédio, os apartamentos e o figurino são todos extremamente coloridos e luminosos, enquanto a música tema (e outras faixas também) são simples melodias com apenas um tom, normalmente repetindo uma tecla de piano ou uma harmonia de cordas básica, sempre com uma sonoridade ao mesmo tempo recreativa e enigmática. É uma configuração de humor bizarra, mas significativa para esses personagens meio maluquinhos na sua tolice de tentar fazer um podcast. A diversão do elenco é contagiante, com muito humor corporal (especialmente o excêntrico Short) e de intergeração entre o trio, contando com uma sensibilidade da solidão da dupla mais velha e o jeito carrancudo de Gomez se contrastando muito bem.

Para mim, entre o equilíbrio de mistério e comédia (e todo o jogo satírico de ficção e não-ficção do podcast de true crime) Only Murders in the Building encontra um balanceamento sensacional de gêneros e mídia, especialmente pensando em contextualizar um novo tipo de conteúdo com a já conhecida narrativa de investigação do whodunnit. A série se perde justamente em outra camada, quase inexistente no ótimo início, mas que vai aumentando ao longo da temporada: drama. Toda a questão da solidão, a obsessão do hobby como fuga e outros mistérios do trio que não citarei por causa de spoilers, são lidados com uma veia cômica na metade inicial, mas usando e esbanjando de flashbacks e algumas subtramas isolados do trio principal com outros relacionamentos (familiares e amorosos), a metade final mergulha em um desinteressante estudo dramático dos protagonistas.

Parece até uma fuga de tema, conforme a comédia e a sátira viram pano de fundo com piadas esparsas. Se perde o tom lúdico da investigação e a química humorística do grupo, o que, de certa forma, também piora o mistério. Antes proposto como um whodunnit recreativo e sem perigo real, o drama vai engessando o suspense, aumentando os riscos em prol de uma trama investigativa que não tem substância o suficiente para entregar resoluções dramáticas e uma narrativa encorpada. Vemos isso muito bem no desfecho anticlimático. Only Murders in the Building funciona quando é propositalmente bobo, brincando com o mistério e sátira nas ótimas performances cômicas do ambiente lúdico do Arconia. Quando tenta ser dramático demais, a série se perde totalmente, porque essa investigação e esses personagens não são interessantes dramaticamente. Ainda assim, sempre que a obra preza pela comédia mórbida e o whodunnit pateta, vemos o potencial de um show bem inventivo.

Only Murders in the Building – 1ª Temporada (EUA, 31 de agosto de 2021 a 19 de outubro de 2021)
Criação: Steve Martin, John Hoffman
Direção: Jamie Babbit, Cherien Dabis, Don Scardino, Gillian Robespierre
Roteiro: Steve Martin, John Hoffman, Kirker Butler, Ben Smith, Kristin Newman, Thembi L. Banks, Madeleine George, Kim Rosenstock, Stephen Markley, Ben Philippe, Matteo Borghese, Rob Turbovsky, Rachel Burger
Elenco: Steve Martin, Martin Short, Selena Gomez, Aaron Dominguez, Amy Ryan, Julian Cihi, Ryan Broussard, Tina Fey, Da’Vine Joy Randolph, Nathan Lane, James Caverly, Michael Cyril Creighton, Jayne Houdyshell, Jackie Hoffman, Sting, Jane Lynch, Mandy Gonzalez
Duração: 317 min. (10 episódios)

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