Crítica | Ontem Foi Segunda-Feira, de Theodore Sturgeon

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Como você imagina o real funcionamento do Universo? Para você, basta a linha de análise científica ou existe algo a mais (sim, pode ser dentro do campo religioso, místico ou de qualquer outro ramo) que te passa pela cabeça quando o assunto é a criação do homem, o futuro da humanidade e quem realmente nós somos? Por que ou quem, realmente, nós fomos criados? Essas questões e mais algumas outras que abraçam a angústia humana de querer saber detalhes sobre sua origem e seu destino final aparecem aos borbotões quando lemos uma obra do porte de Ontem Foi Segunda-Feira, conto de Theodore Sturgeon originalmente publicado em 1941.

Não que o conto aborde diretamente as tais questões do pensamento metafísico que envolve a humanidade. Mas o que o autor apresenta nessa história realmente nos impulsiona a pensar sobre essas coisas todas. E tudo começa pela escolha do personagem principal, Harry Wright, que não é um cientista ou alguém dotado de algum poder ou peculiaridade galática capaz de viajar no tempo ou ter acesso às “entranhas da criação”. Nada disso. Ele é um homem comum, um mecânico, que acorda normalmente numa manhã de quarta-feira e… Percebe que há algo muito errado com o mundo.

O texto de Sturgeon não nos dá muito tempo para pensar. A forma como ele narra as primeiras horas da manhã de Harry, em toda a sua confusão de “ambientes por terminar” e “ontem foi segunda… então… por que hoje é quarta?” representa de maneira muito real a nossa própria confusão com o texto, que demora um pouco mais para engrenar, mas não porque a premissa é desinteressante ou algo parecido. É porque o entendimento pleno entre a proposta de mudança de dias e a chegada na melhor parte da obra, que é quando Harry se encontra com o Supervisor Iridel, está, em partes, cifrado além do que deveria. É uma caraterística que ao mesmo tempo torna o enredo diferente e instigante, porque há o suspense em relação ao modo como o mecânico chegou ali e o que acontecerá com ele. E também a curiosidade para saber que explicações serão dadas para a terça-feira desaparecida. Por outro lado, não é uma construção que flui perfeitamente.

Tudo isso muda, porém, quando Harry descobre o que está acontecendo. Que ele é um ator, como milhões de outros, em uma peça de centenas de milhares de atos, preparada continuamente por homenzinhos esquisitos. Na hora, me veio à mente The Tunnel Under the World (1955), de Frederik Pohl, mas o conto de Sturgeon, que veio primeiro, traz um elemento surreal e fantasioso aplicado à ficção científica que o torna mais inteligente, até mais elegante. O fato de levantar questões filosóficas sobre a criação e sobre real motivo de a humanidade existir é outra coisa que engrandece o conto, adicionando força à já estranha e incômoda experiência de alguém conhecer os bastidores da realidade onde vive e ter respostas para questões que fizeram a humanidade criar a religião, algumas escolas filosóficas e fomentarem alguns comportamentos éticos e morais para vida.

Ontem Foi Segunda-Feira é uma daquelas histórias que nos tiram da zona de conforto e aparentemente nos devolve para ela, ao final. Só que não somos os mesmos. E aquela ideia de que existe alguém nos assistindo “representar” o tempo todo fica grudada em nossa mente.

Yesterday Was Monday (EUA, 1941)
No Brasil: As Melhores Histórias de Viagens no Tempo (Editora Jangada, 2016)
Autor: Theodore Sturgeon
Tradução: Gilson César Cardoso de Sousa
Organização: Harry Turtledove, Martin H. Greenberg
20 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.