Crítica | Operação França 2

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Pensar em uma continuação para o excepcional Operação França é, no mínimo, duplamente curioso: por um lado, o desfecho do filme original deixava tudo em aberto enquanto narrativa, permitindo, em teoria, que uma sequência existisse ser soar forçada; por outro, a resolução do arco dramático do protagonista “Popeye” Doyle (Gene Hackman) não poderia ter sido tão bem amarrada quanto foi no filme de William Friedkin. Assim, é com certa ambiguidade que tem-se esse Operação França II, lançado em 1975, quatro anos depois do original.

E se digo que uma continuação é plausível em teoria, é porque o ponto de partida desta obra de John Frankenheimer é um tanto incoerente: aparentemente, Doyle é a única pessoa que consegue identificar Charnier (Fernando Rey), o grande negociante de drogas que saiu ileso do longa anterior. Assim, ele é enviado para Marselha em mais uma tentativa de encontrá-lo e capturá-lo, contando desta vez com a ajuda do francês Henri (Bernard Fresson). E eis que surge a dúvida: afinal, o que aconteceu com os outros policiais envolvidos no caso do primeiro filme para que justamente Doyle, o mais imprudente e imprevisível de todos eles, tivesse que ser mandado?

Partindo-se disso, o primeiro ato do longa se revela um amontoado de passagens desnecessárias e que pouco acrescentam a narrativa, se resumindo a mostrar Doyle em meio as diferenças culturas da cidade europeia. O filme se arrasta com cenas como aquela em que o protagonista tenta dialogar com o bartender (André Penvern) que não entende uma única palavra em inglês. Da mesma forma, o flerte do policial com as garotas no bar e na praia pouco serve para o progresso da história – assim, é fácil concluir que essas cenas concebidas pelo trio de roteiristas Alexander Jacobs, Robert Dillon e Laurie Dillon apenas incham a narrativa.

Porém, a partir daí, a película sofre uma guinada em sua proposta, atingindo com isso alguns de seus melhores momentos: capturado pelos homens de Charnier, Doyle é mantido prisioneiro e passa a ser drogado com heroína pelos mesmos até que atinja a dependência química, para aí então ser liberado. Filmadas por John Frankenheimer com uma crueza fundamental, tais cenas surgem agonizantes ao espectador, chegando a causar certo mal-estar – e pela primeira vez ao longo dos dois filmes nós realmente tememos pelo destino do anti-herói.

E não apenas nos momentos em que o personagem é drogado, mas também em sua difícil recuperação, Gene Hackman tem a chance de exibir seu talento: os espasmos de abstinência associados a degradação física e mental do obsessivo policial são passagens particularmente dolorosas de se ver. Toda essa transição de drogado até a recuperação consome uma parcela considerável da projeção; portanto, é lamentável que esses grandes momentos agreguem apenas ao andamento da narrativa, e não ao protagonista, pois sua percepção de mundo após aquela deplorável experiência parece continuar inabalável – nesse sentido, o roteiro perde a chance de trazer uma outra dimensão dramática qualquer para ele.

Ademais, a interpretação de Hackman continua intensa como no original que lhe rendeu o Oscar, com seu “Popeye” surgindo em tela prestes a explodir a qualquer momento, além, claro, de sua típica obsessão e teimosia. Já Fernando Rey como o antagonista surge memorável em um papel menor do que deveria ser, e Bernard Fresson como Henri forma uma interessante dupla com Doyle, já que a dinâmica entre eles é marcada por alfinetadas de ambos os lados e desentendimentos constantes – e associado a isso, a presença forte de Fresson garante que os percalços dessa relação ocorra naturalmente e de maneira crível.

Deslocando-se da cinzenta e fria Nova York em direção a Marselha, a abordagem feita por Frankenheimer segue na mesma linha do que havia sido sutilmente indicado no longa anterior: a cidade francesa surge ensolarada e calorosa durante o dia, mas com ruas repletas de lixo e ambientes gastos e mal cuidados durante a noite, em uma clara analogia do fato da cidade esconder a problemática das drogas com sua beleza e harmonia natural. Nesse aspecto, o cineasta ainda faz uso de planos abertos sobre Doyle que asseguram que, por maiores que sejam os esforços dele e de seus colegas de trabalho, o narcotráfico será sempre maior do que a força de vontade dos mesmos.

Com uma perseguição a pé no terceiro ato que remete a qualidade daquelas vistas em seu antecessor, a conclusão de Operação França II é ideal e necessária. Guiada pela performance de Hackman, mesmo com deslizes do roteiro, a obra sobrevive ao trazer de maneira realista e intensa os resultados do uso de drogas. Afinal, em meio a luta eterna entre polícia e tráfico, é importante parar para analisar o melancólico ponto de vista dos usuários. Dificilmente seria feito da mesma maneira nos dias de hoje, o trabalho de Frankenheimer permanece um bom exemplar do cinema policial dos anos 1970.

Operação França II (French Connection II, EUA, 1975)
Direção: John Frankenheimer
Roteiro: Alexander Jacobs, Robert Dillon e Laurie Dillon (com história de Robert e Laurie Dillon)
Elenco: Gene Hackman, Fernando Rey, Bernard Fresson, Philippe Léotard, Ed Lauter, Charles Millot, Jean-Pierre Castaldi, Cathleen Nesbitt, André Penvern
Duração: 119 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.