Crítica | Operação Overlord

“Um exército de mil anos. São soldados que duram mil anos.”

Os corajosos soldados já estão em campo, prontos para o combate. Um objetivo também já foi passado para eles, maior que suas próprias vidas. Mas o que é uma ordem perante um cenário descontrolado, com novas questões e novas problemáticas surgindo, passo a passo? A grande discussão de Operação Overlord, um longa-metragem que se passa na Segunda Guerra Mundial, relaciona, no caso de um cenário armado, com pessoas estando constantemente em perigo, o quanto uma missão já pré-estabelecida consegue prevalecer sobre a nossa moral. Eis as obrigações mundanas, como seguir as ordens de superiores, contrapostas com o que é o certo a ser feito, pois, sejamos sinceros, qual é a verdadeira chamada ao dever? O projeto, portanto, construirá, no gênero de ação, a sua dissertação acerca de impasses muito conflituantes, sendo assumidos por meio de uma narrativa que se pauta na constante renovação dessas ambientações.

Missão Impossível é um exemplo de quem explora com competência um ideal semi-heroico, baseando-se em um protagonista que precisa se transformar em meio a novos impasses perigosos que surgem – e que pedem até mesmo por uma repaginação ideológica, sobre os princípios necessários. Como em Overlord, temos situações, setpieces de ação, que trajam um presumido casulo de objetividade, que parece não se romper. Os perigos, contudo, não são diretos e/ou intransmutáveis, mas moldam-se de acordo com as experiências construídas, guiando-nos aleatoriamente para ambientes imprevisíveis. O começo de Overlord, no final das contas, colocando o nosso protagonista para entrar de cabeça no meio da mortandade, sem dó nem piedade, remete bastante a O Resgate do Soldado Ryan. O espectador é simplesmente jogado nesse caos descontrolado. Uma missão só existirá para quem sobreviver aos primeiros momentos.

Justamente o que permitirá o seu protagonista sobreviver, o cineasta Julius Avery comanda as suas sequências de ação em Overlord por meio do acaso em si. Um pulo de paraquedas, cena importante em Missão Impossível: Efeito Fallout, reorganizava-se de acordo com o que acontecia em volta do protagonista, como o desmaio de um outro paraquedista. Com isso, Ethan Hunt, lá vivido por Cruise, precisava sair da sua trajetória para ajudar um outro alguém. Esse é o mito do herói, pronto para salvar quem precisa ser salvo. Já o pulo de paraquedas, em Operação Overlord, é descontrolado, porque o herói ainda inexiste e só resta o terror subjacente ao jovem Boyce (Jovan Adepo). O garoto que um dia estava plantando no interior e, no outro, era recrutado pelo exército, antes de poder ser herói, renegar o fardo da missão e ir além, precisa ser soldado. Mas soldados morrem, enquanto os heróis terminam sobrevivendo, para dar sobrevidas a mais alguém.

O que resta é essa aleatoriedade tão provocante e que, novamente, nos remete a O Resgate do Soldado Ryan e o dia em que a vida de Tom Hanks esteve mantida meramente pela sorte do destino. O protagonista nunca mostra-se um soldado, estando verdadeiramente interessado na missão. O que resta é apenas uma sobrevida, para enfim a missão, uma missão particular e mais verdadeira que as ordens dos generais, surgir. Boyce é construído para ser um verdadeiro herói e isso estará nascendo à base de manivelas do roteiro, com um retorno de uma figura específica, extremamente inverossimilhante, mas tornando-se essencial para o real cerne do que Overlord se importa. A premissa, mesmo simplérrima, irá impulsionar caminhos mais interessantes e um envolvimento extremamente gradual, crescente, enquanto tudo, no final das contas, retorna a uma questão mais pessoal e intimista, que é singela o suficiente para humanizar o que é tão desumano.

Como Hanks em O Resgate do Soldado Ryan, “parando” a guerra para ter que tirar um soldado do meio dela, Boyce estará, gradualmente, investindo em tarefas que ultrapassam suas obrigações iniciais. Um garoto sequestrado e os males que devem ser enterrados despontam. Overlord compreende que os soldados só conseguem ser mais do que isso ao serem outra coisa que não máquinas com um rifle na mão. Então, jornadas de heroísmo nortearão os seus personagens. O projeto, no entanto, acaba se apegando a características que não são aproveitadas. Operação Overlord cisma com uma carga dramática construída – um texto pobre – que não encontra verdade, por ser justamente uma obra muito mais simples do que cisma em ser, como é o caso da morte de um entre os inúmeros companheiros de guerra de Boyle, mais para frente nesse enredo. E a Chloe (Mathilde Ollivier), uma presença potencialmente importantíssima, é outra desperdiçada.

Isso contraria momentos menos ambiciosos, como um soldado morto por uma mina. Tão ordinário, não é verdade? Já um avião sobrevoando a guerra, totalmente alvejado, recria a pesada atmosfera que é o tal realismo. O interesse em planos-sequência, para o controle e o descontrole, é certeiro. Quando controla, Avery imerge o público em uma cenografia associada à ação em si, como em um videogame, em que pensamos certos personagens, antagonistas, confrontos histéricos, a ambientes específicos. O último ato do longa, por exemplo, apresenta-se em uma base inimiga, construída organicamente para o espectador, que notará os inúmeros espaços visitados anteriormente quando uma fuga derradeira, em plano-sequência, acontecer. O caos descontrolado do início de Overlord sumiu consequentemente, porque os protagonistas ganharam o controle de suas ações e de seus impactos. Operação Overlord também vai além em outros quesitos gráficos.

Imensamente remetente à franquia de jogos Wolfenstein, a estética marca. O argumento, no caso, visou encontrar um caráter retro-futurista para explorar o nazismo como uma outra ameaça à costumeira, mas, curiosamente, muito parecida a real. As duas versões foram tecnologicamente avançadas, também assustadoras e igualmente possuíram monstros surgindo de seus soldados. Esse absurdo é alegórico. Já no caso dos Aliados, o oposto é sugerido, pois quem surge são os heróis. O revisionismo de guerra engrandeceu a experiência cinematográfica, empolgando-nos, enquanto o gore é explorado como uma pontuação constante e, novamente, crescente. Mas é a jornada do personagem de Wyat Russell que, em uma última instância, confirma a natureza de Overlord: que soldados serão uma coisa a mais caso sobrevivam, mais que atiradores, porém, heróis. Quem dera que os males do nazismo, entretanto, estivessem verdadeiramente soterrados.

Operação Overlord (Overlord) – EUA, 2018
Direção: Julius Avery
Roteiro: Billy Ray, Mark L. Smith
Elenco: Pilou Asbæk, Jacob Anderson, Wyatt Russell, Bokeem Woodbine, John Magaro, Iain De Caestecker, Jovan Adepo, Michael Epp, Marc Rissmann, Dominic Applewhite, Éva Magyar, Andy Wareham, Mathilde Ollivier
Duração: 110 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.