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Crítica | Opus

por Kevin Rick
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Antes da carreira de cineasta, Satoshi Kon trabalhou como mangaká, lançando poucas obras e não tendo muito sucesso no meio bibliográfico japonês. Opus, um mangá de 1995, faz parte do efêmero trabalho do artista que viria a explodir no mundo do entretenimento dois anos depois com sua estreia cinematográfica, Perfect Blue. O curto mangá de apenas dois volumes e 20 capítulos acompanha a história de Sakoto Miura, uma detetive que, junto de seu amigo delinquente Lin, precisa derrotar o Máscara, líder de uma seita que busca controlar as pessoas através de seus poderes psíquicos. Parece uma típica premissa de mangá, correto? Bem, se fosse apenas isso, não estaríamos falando de Satoshi Kon.

Como de costume, o artista japonês, mesmo neste início de carreira, dedica-se narrativamente à deturpação da realidade como maneira de contar uma história que puxa o surrealismo e o imaginário para exprimir as adversidades por trás da arte, temas que viriam a ser revisitados com mais maturidade com a fama em Perfect Blue e o legado artístico em Atriz Milenar. E o interessante da sua abordagem reside no produto do seu meio”, no qual, assim como grande parte de sua filmografia versa sobre o Cinema, Opus trata do pouco falado estresse artístico que acompanha a vida de mangakás, onde a premissa que falei anteriormente é, na verdade, a história de um mangá chamado Resonance, criado por Chikara Nagai, o autêntico protagonista desta história.

O personagem está próximo de finalizar seu célebre mangá, e decide que o desfecho trará a morte de Lin para impactar a jornada de Sakoto e derrotar o vilão Máscara, contudo, o personagem ficcional não fica satisfeito com sua conclusão e decide mudar as coisas ao roubar a página final da obra e trazer Nagai para dentro de seu mundo ficcional. Daí em diante, o que temos é puro Satoshi Kon concebendo um exercício de metaficção para, num primeiro momento, discutir a excruciante vida de mangakás, pois artistas desse âmbito sofrem constantemente com a falta de descanso, jornadas de trabalho que vão de desenhar páginas por dias inteiros, durantes múltiplas semanas, às vezes meses e anos sem férias, sem contar o estresse de deadlines e manter a mente criativa de alguma maneira intacta para prosseguir com a narrativa. De forma implícita, Satoshi declama, através de muita metalinguagem, formas de crítica aos procedimentos editoriais no Japão ao colocar Nagai em situações de bloqueio criativo, reuniões demandando o cumprimento do prazo, exaustão física e mental, além da própria loucura de se imaginar adentrando sua obra, ainda que, no contexto do mangá, esteja realmente acontecendo.

Além disso, o autor tece observações, não necessariamente críticas, à maneira que a audiência prefere consumir arte com personagens que passam por turbulências e dificuldades extremas, especialmente com violência e trauma envolvidos, fazendo isso com os arcos dos personagens do mangá Resonance. Existe um ótimo desenvolvimento nessas conjunturas de descobrimento dos personagens ficcionais em relação a ter uma espécie de deus manipulando seus movimentos e destino, tanto da parte dramática dos personagens de mangá, como também de uma certa culpa de Nagai ao colocá-los nessas situações horríveis, já conectando-se a maneira que artistas sofrem, riem e sentem suas criações de um jeito bastante pessoal, quase que real, sempre naquele joguinho do Satoshi de misturar a fantasia com a realidade. Aliás, Opus adentra o campo da divindade, a relação entre criador e criatura, trazendo uma discussão que, se não é exatamente aprofundada na narrativa como as questões mercadológicas, traz uma camada extra de existencialismo muito bem trabalhada entre Nagai e seus personagens, como com o criador de Nagai.

A arte, apesar de majoritariamente simples, personifica muito bem essa dualidade, no qual Satoshi tem um traço detalhista no mundo real e nas partes mais objetivas dentro de Resonance, mas também traz um desenho rascunhado, bem sketch, quando os personagens estão em telas ainda não terminadas, rachaduras quando o grupo começa a mexer com a linha do tempo do mangá, destruindo os alicerces do mundo ficcional, e, o melhor de tudo, temos a impressão de ler um mangá dentro de um mangá, cheio de páginas sobrepostas ou espalhadas, diâmetros distorcidos e a diagramação em conflito entre os dois mundos.

Infelizmente, existem dois grandes problemas em Opus: o primeiro sendo o fato que, apesar da criatividade metaficcional e toda a proposta metalinguística ser sensacional, cheia de metáforas e simbologias críticas ou existenciais, a narrativa mais objetiva do grupo não me agradou, pois o roteiro mergulha com fervor no subjetivo e faz bem pouca para trabalhar a dinâmica ali dentro, a cadência da aventura e o vilão principal, que tem um design fantástico, mas proporciona pouco antagonismo. E outra problemática é a de que essa própria narrativa principal é inconclusiva, pois o mangá foi “cancelado” junto com a dissolução da revista que publicava a obra.

Dito isso, o capítulo final, para não dar spoilers, conclui Opus da melhor maneira possível: na metalinguagem. Nada objetivamente é resolvido, mas os pontos mais positivos do mangá são trazidos à tona no desfecho bem Satoshi Kon, misturando o fictício com o real de um jeitinho pessoal.  Não é um mangá exatamente memorável, mas é uma leitura fascinante pensando nas temáticas que Satoshi aborda, além dos vários paralelos que podemos traçar com o restante da sua filmografia. Opus é mais um universo interessantíssimo desse artista cativante.

Opus — Japão, 1995/1996
Editora original: 
Tokuma Shoten (Comic Guys Magazine)
No Brasil: Panini – 1ª edição (6 outubro 2017);  2ª edição (5 dezembro 2017).
Roteiro: Satoshi Kon
Arte: Satoshi Kon
374 páginas

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