Crítica | Orange is the New Black – 7ª Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

O encerramento de Orange is the New Black é, também, o fim de uma era. A série criada e desenvolvida por Jenji Kohan era parte do que pode ser chamado de Trilogia Fundadora da grade exclusiva do Netflix, juntamente com Lilyhammer e House of Cards. As três séries, em maior ou menor grau, não só efetivamente revelaram o serviço de streaming para o mundo como mais do que uma “repetidora” de conteúdo alheio, como também ajudou a erigir a reputação de qualidade que a empresa costuma ter pelo menos no lado das séries de TV.

Se Lilyhammer foi um começo pequeno e discreto em 2012 para a avalanche que viria em seguida, House of Cards trouxe, no começo de 2013, toda a combinação algorítmica de roteiros impecáveis, produção sofisticada e complexa e um elenco arrebatador. Orange is the New Black – ou, doravante, OITNB -, é a irmã caçula das três, estreando no segundo semestre de 2013 com uma proposta arriscada: um drama de pitadas cômicas (não consigo classificar como dramédia, pois o drama sério e muitas vezes bem pesado é muito mais presente e importante do que o humor) passado quase que integralmente em uma prisão feminina de segurança mínima com um elenco muito diverso e praticamente desconhecido composto majoritariamente de mulheres.

Usando como porta de entrada o encarceramento da loira de classe social alta Piper Chapman, a série logo ampliou seus horizontes dando relevo às histórias de cada uma das detentas que a protagonista conhece nesse novo ambiente em que é obrigada a viver. Na verdade, por vezes ao longo da série Piper até deixou de ser a verdadeira protagonista aos meus olhos, dividindo igualmente o tempo de tela com diversas outras personagens fascinantes como Red, Taystee, Suzanne, Nicky, Pennsatucky, Daya e assim por diante. É uma das poucas séries de TV que realmente tem todo seu elenco como protagonista, com cada peça encaixando-se em um todo muito bem escrito e desenvolvido que aborda um sem-número de questões sócio-econômicas importantes e não somente conectadas com a vida na prisão.

A sexta temporada, que moveu a ação para uma prisão de segurança máxima depois da rebelião que vimos na quinta temporada, tinha toda a estrutura de fim, mas Jenji Kohan tinha um planejamento desde há bastante tempo para contar sua história em sete temporadas. Portanto, mesmo fazendo esforço para fechar efetivamente arcos narrativos, a derradeira temporada tem muito mais um gostinho de epílogo do que qualquer outra coisa. E isso não é particularmente ruim, mas vejo a temporada, por melhor que ela seja, como uma espécie de “partícula expletiva” dentro dessa saga muito humana desenvolvida pela showrunner a partir do livro de memórias de Piper Kerman.

Grosso modo, a narrativa da temporada é dividida em três frentes principais: o reajuste de Piper à vida fora da prisão, a luta de Taystee contra o desgosto, a injustiça e falta de esperança que a leva próximo ao suicídio e a abordagem de detentos imigrantes em um limbo prisional aguardando decisão sobre sua expulsão ou não do país. A terceira frente é o desenvolvimento do final estilo cliffhanger de Blanca, na temporada anterior, que a leva diretamente ao ICE, agência de imigração e alfândega dos EUA onde depois reúne-se com Maritza, presa mais uma vez.

Há um bom destaque às condições de quase isolamento total das detentas pelo ICE, que tem pouquíssimas chances de frear as deportações. Somos introduzidos a personagens novas, especialmente Karla Córdova (Karina Arroyave), que luta inteligentemente toda a chance que tem e Shani Aboud (Marie-Lou Nahhas), egípcia que sofreu mutilamento genital e que se torna amante de Nicky quando ela e um grupo de condenadas de Litchfield são arregimentadas para coordenar a cozinha do ICE. Claro que o assunto imigração ilegal e expulsão de pessoas que vivem nos EUA há décadas é quente e muito atual, especialmente levando-se em consideração a crise de imigrantes basicamente no mundo todo, inclusive no Brasil, com a onda de fugitivos do regime ditatorial disfarçado de democracia na Venezuela. Portanto, o foco nas agruras das detentas, o único assunto realmente novo da temporada, traz um bom frescor à narrativa como um todo e não interfere demais no trabalho de Kohan de “dar um fim” às suas personagens principais e já estabelecidas, algo que ela se esmera em fazer sem, porém, exagerar na camada de “água com açúcar” que por vezes ela ensaia fazer.

Falando nisso, talvez o mais açucarado final seja mesmo o de Piper, personagem que, pessoalmente, considero a menos interessante de toda a série. Seu dilema para adaptar-se à vida controlada por uma agente de condicional do lado de fora de Litchfield é abordado com alguma veracidade nos primeiros episódios, mas logo perde força e relevância para problemas amorosos entre ela e sua “esposa de prisão” Alex Vause, com quem mantém um relacionamento a distância. O vai-e-vem dramático é cansativo, repetitivo e, no final das contas, redundante. Sim, Piper cresceu como personagem, mas cresceu pouco e aprendeu menos ainda.

Já Taystee é uma das melhores personagens de toda a série, com Danielle Brooks mais uma vez arrebentando em seu papel. Mas seu drama na temporada é, talvez, a razão principal para eu classificar esse final como um epílogo, já que sua situação kafkiana já havia sido muito bem estabelecida na temporada anterior. Com uma vida inteira na prisão pela frente por um crime que ela não cometeu, tendo sido escolhida como bode expiatório depois de ser “traída” (coloco entre aspas, pois Cindy e outras não tinha escolha de verdade) por suas amigas, seu final já havia sido bem estabelecido e o que vemos aqui, com seu flerte com o suicídio e redenção ao descobrir uma forma de compensar sua desgraça ajudando os outros, é belíssimo e muito bem construído, mas não exatamente algo essencial para a melhor compreensão da personagem por nós.

Mas por favor não interprete meus comentários com viés negativo como uma impressão geral negativa da temporada, pois não é nada disso. Como eu disse lá no começo, o grande valor de OITNB é seu magnífico elenco e suas inesquecíveis personagens. Afinal de contas, gravitando ao redor dessas três linhas narrativa principais, Kohan faz o milagre de dar atenção completa para praticamente todo mundo, valendo especial destaque para a bondosa e pura Suzanne (nunca vou me cansar da atuação de cair o queixo de Uzo Aduba construindo uma personagem que, apesar das adversidades, é a encarnação da felicidade, com uma presença capaz de iluminar qualquer sequência), a caipira arrependida Pennsatucky, que tem um final tristíssimo (Taryn Manning está particularmente incrível nessa temporada), Nicky (Natasha Lyonne sempre magnética), que sofre por não conseguir ajudar Red, que ganha um final emocionante lutando contra a demência (Kate Mulgrew tem pouco espaço, mas mastiga o cenário quando aparece), Lorna (Yael Stone, em seu melhor trabalho de mergulho na negação e loucura) e Shani.

Até mesmo os guardas ganham arcos interessantes, com Joe Caputo sendo envolvido em uma acusação #metoo e tendo que lidar com isso em roteiros que muito bem relativizam a questão no lugar de entrar no trem do politica e cegamente correto, Emily lidando com seu passado e relacionando-se com Alex e principalmente Tamika, que se torna a nova diretora, apesar da inexperiência, o que empresta um ar de esperança e de mudanças para a prisão que é poluído completamente por um final que chega a dar raiva. Em outras palavras, há espaço para realmente todo mundo, inclusive quase que a integralidade do elenco que foi “saindo pelas beiradas” ao longo das temporadas, tornando especialmente o episódio final em uma comemoração por esses sete anos de uma grande série.

Orange is the New Black definitivamente encerra com chave de ouro a trilogia inicial de séries exclusivas do Netflix. As detentas de Litchfield ficarão para sempre no panteão de grandes personagens da televisão e a série como um verdadeiro divisor de águas em como lidar com um elenco tão grande e tão bom sem perder de vista os dramas particulares.

Orange Is the New Black – 7ª Temporada (EUA, 26 de julho de 2019)
Criação e showrunner: Jenji Kohan
Direção: Michael Trim, Andrew McCarthy, Constantine Makris, Laura Prepon, Nick Sandow,Ludovic Littee, Natasha Lyonne, Erin Feeley, Diego Velasco, Phil Abraham, Mark A. Burley
Roteiro: Jenji Kohan, Brian Chamberlayne, Vera Santamaria, Merritt Tierce, Anthony Natoli, Heather Jeng Bladt, Tami Sagher, Kirsa Rein, Hilary Weisman Graham, Carolina Paiz
Elenco: Taylor Schilling, Natasha Lyonne, Uzo Aduba, Danielle Brooks, Jackie Cruz, Laura Gómez, Selenis Leyva, Taryn Manning, Adrienne C. Moore, Jessica Pimentel, Dascha Polanco, Elizabeth Rodriguez, Dale Soules, Yael Stone, Kate Mulgrew, Laura Prepon, Alysia Reiner, Nick Sandow, Matt Peters, Emily Tarver, Susan Heyward, Greg Vrotsos, Hunter Emery, Alicia Witt, Karina Arroyave, Marie-Lou Nahhas, Melinna Bobadilla, Michael Chernus, Diane Guerrero, Jason Biggs, Michael Harney
Produção: Tilted Productions, Lionsgate Television
Distribuição:
 Netflix
Duração: 810 min. aprox. (13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.