Crítica | Orca – A Baleia Assassina, de Arthur Herzog

Animais com posturas monstruosas não eram novidade até o lançamento de Tubarão, de Steven Spielberg, em 1975. Adaptado do romance homônimo de Peter Benchley, o filme foi um estrondoso sucesso e transformou o subgênero horror ecológico em um rentável segmento da indústria cinematográfica, sendo Orca – A Baleia Assassina um dos maiores sucessos posteriores ao tubarão-branco que aterrorizou os habitantes de Amity. Tal como já aconteceu com outras produções bem-sucedidas do mercado, tais como A Profecia e Halloween – A Noite do Terror, traduzidos para o formato literário, a vingativa “baleia” conduzida musicalmente por Ennio Morricone em 1977 também “virou” novela, escrita por Arthur Herzog em 1978.

Antes que o leitor questione minha falta de delineamento da questão ética na crítica, devo dizer que hoje já se discute muito o fato da orca não ser uma baleia e dos impactos do filme na relação dos seres humanos e sua relação com a natureza. A nomeação de assassina, errônea por conta do filme e dos variados documentários sobre as orcas, sensacionalistas e responsáveis por humanizar tais criaturas, é mais aterrorizante que a trajetória da baleia em South Harbour, cidade que sedia a narrativa, um lugar com traços do “passado”, aparentemente deslocado das tradições da modernidade. Com armazéns ao invés de supermercados, bares para servir de ponto de encontro para pescadores e tranquilidade em suas ruas e esquinas, o local está longe das badalações urbanas das sociedades capitalistas contemporâneas.

É neste espaço que Campbell, herói da jornada, vai arregaçar as mangas para adentrar numa caçada incansável, tendo em vista capturar uma orca para que assim, possa quitar as suas dívidas e resolver outros problemas que gravitam em torno de seu cotidiano. Machista e amargo, o personagem geralmente trata as mulheres como um objeto de consumo, através de suas posturas misóginas, num posicionamento que nos remete ao pensamento hétero masculino de uma época e de suas especificidades, isto é, período de tentativas constantes de asfixiar as mulheres e seus discursos de liberdade e afins. É uma pegada discreta, mas latente nas entrelinhas do romance.

Lançado pela DIFEL Distribuidora no Brasil, a publicação apresentou diagramação simples, tal como sua capa, arte de Milton Souza que emula o design de divulgação desenhado do filme. Ademais, a estrutura de 213 páginas divide-se em cinco partes: Rumo ao Mar, O Tubarão, A Baleia, A Fúria, A Caçada, todas organizadas dentro de um padrão em quantidade de diálogos, capítulos e ações. Com ritmo fluído, mas subserviente aos elementos da estrutura dramática do filme que serviu de inspiração para o filme que inspirou o romance, Orca – A Baleia Assassina é uma realização literária quieta, amena, sem grandes momentos inspiradores.

Isso não faz do livro um conjunto de situações ficcionais ruins, mas também não traz nada de especial ou que justifique a sua transformação em literatura, a não ser preencher o ócio, que deixa de sê-lo, das pessoas devoradoras de literatura de horror e aventura da época. Arthur Herzog, autor de longa carreira literária, escreveu ficção, mas também dedicou algum tempo para a realização de obras não-ficcionais, voltadas ao pensamento crítico em relação aos posicionamentos religiosos protestantes na sociedade, além de algumas investidas jornalísticas.

Orca – A Baleia Assassina (Orca, 1978)
Autor: Arthur Herzog
Editora no Brasil: DIFEL
Tradução: Francisco Manoel da Rocha Filho
Páginas: 213

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.