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Crítica | Órfãs da Tempestade

por Fernando JG
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Lançado em 1921, e sendo uma adaptação da peça Les Deux Orphelines, de Adolphe d’Ennery, Órfãs da Tempestade se faz como uma ode à burguesia, introduzindo uma visão idealizada da história para compor o seu drama-histórico, se é que podemos dizer assim. Quase como uma épica, o diretor constrói uma viagem através do declínio do regime monárquico na França ao mesmo tempo em que narra uma belíssima história de amor parental, explorando distintas camadas da noção de Fraternidade, um tema tão caro à revolução e à recente democracia. 

A história se desenvolve ao redor de duas irmãs de criação, Henriette (Lillian Gish) e Louise (Dorothy Gish), que são unidas pelo destino, mas o mesmo destino que as uniu também as separa. Louise é filha de uma relação entre a condessa de Liniere (Catherine Emmet) e um plebeu, diante disso, a nobreza jamais admitiria que um filho gerado através de uma relação tão vil e baixa, como a que se deu, pudesse vir à público. Assim, Louise é tirada dos braços de sua mãe e entregue para uma família do baixo estado – a qual pertence Henriette, filha única de um casal de proletários. O destino unia, deste modo, Henriete e Louise, que, a partir de então, construíram uma relação muito bonita de irmandade e cumplicidade. Fato é que com Louise cega, acometida por uma doença, fica a cargo de Henriette o cuidado com a irmã. Aos poucos a direção introduz a noção de fraternidade e igualdade nas entrelinhas fílmicas. 

Na viagem à Paris que as irmãs fazem, na tentativa de encontrar a cura para a cegueira de Louise, o destino acaba separando as duas, através da maldade de um nobre que cresce o olho sobre Henriette, que a sequestra e a separa de sua irmã cega, que fica perdida em Paris, sozinha, em estado de mendicância. O encontro das irmãs é o que move toda a narrativa, e é para lá que o filme se encaminha na construção das suas peripécias e reconhecimentos. 

Há um trabalho primoroso por parte das irmãs Gish, que têm um entrosamento absurdo, transmitindo um amor muito puro nesta relação parental, fraternal. O ponto alto fica justamente pela atuação mútua das atrizes. A construção cênica é muito bem trabalhada, bem como o trabalho de montagem é excelente. Toda a ambientação em retorno ao século XVIII é muito verossímil. A forma do drama épico proposta por Griffith é um marco na história do cinema, e Napoleão, de Abel Gance, encontra aí a estrutura de seu épico, tamanha a influência do cinema griffithiano.

A película discute algumas questões pertinentes à moral e utiliza de alguns personagens para ilustrar uma espécie de tirania do ser humano, que não se restringe apenas ao âmbito político, mas a todos. A presença da velha mendiga que captura Louise é uma alegoria clássica da maldade humana, ao passo que a nobreza é a outra parte dessa miséria de espírito, por isso que ela é derrubada. D.W Griffith também expõe os horrores da França pré-revolucionária e dos excessos da corte, que levaram a população à fome generalizada, resultando na tomada da Bastilha. 

Mas também não posso deixar de notar a representação burguesa e norte-americanizada que o filme apresenta. É um fato que a Independência dos Estados Unidos influenciou, e também propagandeou, a Revolução Francesa, e Griffith deixa isso explícito. Mas também a direção entra no ritmo da badalada Revolução Russa, ocorrida em 1917, para tecer críticas ao bolchevismo e ao regime socialista e isto é exposto logo no prólogo da obra. A direção constrói a sua camada ideológica de modo muito sutil e bem articulado, insinuando, por signos, que a fraternidade é, evidentemente, burguesa. 

Questões relativas à justiça são postas a todo momento, sobretudo na cena final em que Henriette é julgada pelo povo por se envolver com alguém da nobreza. Ela deverá pagar com a vida pelo seu apaixonamento? Se a nobreza está sendo dilacerada, guilhotinada, a esta altura da História, por ir contra o povo, então, Henriette deve, também, por osmose, pagar por isso? Fica a questão, que é respondida pelo próprio desenrolar do longa. 

Uma película histórica e dramática, o filme de D.W Griffith é um lugar absolutamente interessante para quem tem interesse na visão cinematográfica sobre a História enquanto disciplina, visto que personagens históricos como Robespierre e Danton são movidos dentro da trama. Singular e pioneiro, Griffith entrega uma obra marcante e referencial na história do cinema. 

Órfãs da Tempestade (Orphans of the Storm, EUA, 1921)
Direção: D.W. Griffith
Roteiro: D.W. Griffith
Elenco: Lillian Gish, Dorothy Gish, Joseph Schildkraut, Frank Losee, Catherine Emmet, Morgan Wallace, Lucille La Verne, Frank Puglia, Sheldon Lewis, Creighton Hale, Leslie King, Monte Blue, Sidney Herbert, Lee Kohlma, Louis Wolheim
Duração: 150 min.

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