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Crítica | Origem (From) – 3ª Temporada

Gira, gira sem sair do lugar.

por Felipe Oliveira
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Embora tenha o desafio de andar com as próprias pernas, From não deixa de lembrar que os mesmos produtores de Lost estão a bordo. Vários títulos servem como exemplificação de que o público gosta da receita que combina o acontecimento de um fenômeno e os efeitos disso sobre os remanescentes. Ainda que compartilhasse muitas semelhanças em seu ano de estreia com a série criada por Damon Lindelof, Origem tinha o potencial de usar elementos do terror psicológico e temas religiosos para expandir a fórmula. Contudo, ter esses fatores não a colocava como um ponto fora da curva, mas era interessante ter um show que remetesse a Lindelof e a Stephen King com um mistério envolvente, mas que dificilmente se equipará a um show sobre os sobreviventes da queda de um avião.

Se o segundo ano ficou entre o marasmo das expectativas e promessas, a terceira temporada se firma como a fase mais fraca da série. É estranho chegar a essa altura de desenvolvimento e o roteiro não conseguir acompanhar a ambição de John Griffin, criador da série, em fazer do programa uma atração que transmita o mesmo impacto de quando começou. Para isso, From volta a focar no terror como forma de mostrar que, quanto mais os humanos tentam entender o lugar o qual estão presos, pior será. Nesse sentido, Griffin, o produtor e showrunner Jeff Pinkner e o produtor executivo e diretor Jack Bender parecem ter um maior controle do que está sendo contado por pegar um gancho deixado na temporada passada para explorar novos riscos. A dinâmica do show se divide entre trabalhar dois temas que interligam com as incógnitas desse lugar perdido: terror e sobrevivência.

A presença de nomes que trabalharam na inesquecível Lost só joga mais lenha nas coincidências de querem criar fazer de From um show semelhante, mas que — para além da teoria — consiga andar com as próprias pernas. Boyd (Harold Perrineau), por exemplo, está longe de se equiparar a Jack (Matthew Fox) protagonista da série de J.J Abrams, contudo, desde a primeira temporada apresentou traços que remeteram a discussões sobre fé e ciência — ou racionalidade — representadas por Jack e John Locke (Terry O’Quinn), mas a forma como Perrineau acredita no seu personagem faz de Boyd uma força notável e de enxergar esse mundo por sua ótica. Ter uma figura que funciona como bússola moral, de liderança e quase como “Messias” para um povo perdido é o que faz Origem ter um norte. Contudo, as sombras de Lost voltam a pairar quando percebemos a semelhança de um sistema fechado — a cidade — com uma lógica interna que ainda não foi totalmente entendida, as inúmeras possibilidades que habitam o local — como os personagens são afetados — o mistério e as figuras sobrenaturais.

Tudo possui um significado e o maior desafio da série é manter os elementos em torno desse sistema fechado interessante, com potencial sendo explorado. Porém, Pinkner quer manter o público por perto sem trazer grandes riscos, fazendo o que vimos desde o primeiro ano: como sobreviver e se defender sobre o que não entende? Nos aspectos que dizem respeito ao terror, From parece convencer da urgência da trama e lembrar que esses personagens ainda estão lutando pela sobrevivência e tentando descobrir uma forma de voltar para casa, contudo, enquanto o texto acerta no seu protagonista, não sabe muito bem o que fazer com os demais personagens — que se resumem a figurantes de uma cidade.

O roteiro concentra a rede de apoio do protagonista em Donna (Elizabeth Saunders) e Kenny (Ricky He) — sempre apelando para o mesmo drama emocional de situações recorrentes — enquanto Victor (Scott McCord), Julie (Hannah Cheramy), Sara (Avery Konrad) funcionam como exemplos de que a cidade mexe de alguma forma com eles, e resta para Tabitha (Catalina Sandino Moreno) e Jade (David Alpay) dividirem o protagonismo com Boyd uma vez que as peças que compõem a mitologia da cidade parece estar ligada a eles. Nesse sentido, quando a dinâmica do mistério funciona em torno dos personagens From mostra que consegue ser interessante ao investir no potencial da sua mitologia, contudo, se olha para além do núcleo principal, os personagens parecem alheios a trama e cada um fechado com seu conflito interno o qual não parece importante compartilhar para uma comunidade que bem, está tentando sobreviver e não tem como voltar para casa.

Renovada para quarta temporada prevista para o ano que vem, a essa altura, quando Boyd toca o sino e pede para todos fecharem se recolherem, fecharem as portas e janelas dos seus aposentos, nada parece ameaçador como no início. Estamos acompanhando um mistério à sombra de uma promessa feita da expectativa de ser uma série de terror. Programas assim sobrevivem com reviravoltas e qualidades da sua trama, mas From parece comprometida em andar em círculos, ainda que com respostas, mas nunca uma saída.

Origem – 3ª Temporada (From – EUA, 2024)
Criação: John Griffin
Direção: Jack Render, Bruce McDonald, Alexandra La Roche
Roteiro: John Griffin, Jeff Pinkner, Brigitte Hales, Kristen Layden
Elenco: Harold Perrineau, Catalina Sandino Moreno, Eion Bailey, Elizabeth Saunders, Ricky He, Scott McCord, David Alpay, Chloe Van Landschoot, Simon Webster, Avery Konrad, Hannah Cheramy, Corteon Moore, Pegah Ghafoori, Elizabeth Moy, Kaelem Ohm, A.J. Simmons, Nathan D. Simmons, Angela Moore, Deborah Grover
Duração: 10 episódios (45 a 53 min, cada)

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