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Crítica | Origens Secretas (2020)

por Luiz Santiago
7251 views (a partir de agosto de 2020)

O diretor David Galán Galindo faz um interessante uso da fórmula e conteúdo do universo super-heroico neste seu Origens Secretas (2020). A bem da verdade, o mundo dos quadrinhos sempre rondou a carreira do cineasta, estando presente de forma explícita já no seu segundo filme, o curta-metragem The King & The Worst (2009), que coloca o mundo nas mãos de dois soldados durante a 2ª Guerra Mundial, “o rei dos quadrinhos” (Jack Kirby) e “o pior diretor do mundo” (Ed Wood). Aqui em Orígenes Secretos esse tema da “salvação por heróis do dia a dia” vem à tona, mas a área de ação de tal personagem é menor, embora os crimes que motivam essa criação não sejam nada pequenos.

Existem ecos dramáticos no roteiro que possibilitam aos espectadores um grande número de comparações, juntando temas e abordagens gerais que vão de The Big Bang Theory a Seven, ou de Corpo Fechado a Kick-Ass. E se subtrairmos os vergonhosos minutos iniciais do filme, que tem uma das piores apresentações de personagens possíveis em um longa onde uma maior conexão do espectador com esses mesmos personagens é mandatório, encontramos um encadeamento no mínimo chamativo, fundindo uma perigosa investigação policial em Madri à vida cotidiana do filho de um excelente policial às vésperas de se aposentar. É por ele que o mundo dos quadrinhos é inserido na história, após uma breve comparação entre a cor de um homem assassinado e a cor cinza do Hulk original.

Estabelecida investigação e o ponto nerd que servirá como mote cômico e ingrediente inesperadamente investigativo (uma das melhores partes do enredo), o filme ganha um caminho divertido de se acompanhar, manipulando a ideia de Origens Secretas e jogando-a para a Era de Ouro e Prata das HQs, fazendo com que as pistas deixadas em cada um dos assassinatos sejam os números das revistas onde se originaram heróis ou equipes como o Batman (Detective Comics #27), Homem-Aranha (Amazing Fantasy #15), Homem de Ferro (Tales of Suspense #39), X-Men (Uncanny X-Men #1) e Tocha Humana, misturando referências ao androide original (Marvel Comics #1) e ao foguinho do Quarteto Fantástico (The Fantastic Four #1). Ou seja, é uma festa de fanservice que funciona bem em praticamente todo o miolo do filme, sendo colocada tanto como impulso para o andamento dos bizarros crimes, quanto como conexão entre Jorge Elias (Brays Efe), dono de uma comic shop, e o durão detetive David (Javier Rey).

O título filme, porém, faz mais do que referenciar quadrinhos, personagens icônicos de mídias diversas (Conan), séries (Game of Thrones) e filmes (Kill Bill). O roteiro joga com a criação de um herói — e seus ajudantes — a partir de um elemento de dor, de uma sublimação meio estranha de tragédias do passado, e essa é a tônica para todos os homens da fita. Problemas familiares de diversas categorias colocam-nos na defensiva e isso garante encontros explosivos entre pessoas que de fato gostam umas das outras. E como não era para deixar de ser, as relações entre pais e filhos é que forjam o trauma desses indivíduos, no escopo da ausência, da competitividade, da super ou sub valorização. O que o vilão faz aqui é, acima de tudo, colocar pessoas problemáticas no caminho umas das outras para que possam crescer juntos, transformar-se e então… ajudar outros que precisam.

A motivação, claro, é fantasiosa, ou diria… heroica demais? O fato é que não dá para levar um filme como Origens Secretas muito a sério. O filme se assume como uma brincadeira híbrida, se desenvolve como tal e não está nem um pouco preocupado em trazer para o público uma versão hiper-realista do que seria uma origem super heroica na Madri contemporânea. Isso não significa, porém, que o texto consiga expor com o mesmo nível de aceitabilidade todos os núcleos dramáticos. Vejam, por exemplo, a delegada Norma (Verónica Echegui). Em vez de se contentar com uma ou duas grandes diferenciações da personagem frente ao seu cargo, o roteiro exagerou o máximo que pode, inclusive colocando em seu caminho um elemento romântico que se torna incoerente com a própria essência da obra. E o pior é que esse lado do texto começa bem, cercando Norma e David vagarosamente e estabelecendo um flerte meio agressivo. Mas depois joga tudo isso fora e cria uma ligação que em nada se conecta com o Universo ou com a personalidade dos indivíduos que nos fora mostrada até ali.

O mesmo desvio podemos ver se repetir no final. A essa altura já havíamos lidado com exposições muito descaradas e um didatismo que é tão absurdo que irrita, mas aquela reafirmação de significado para a resposta dita por Han Solo a Leia foi a gota d’água. Já no enfrentamento contra o vilão, a coisa consegue se erguer bem. A direção volta a brincar visualmente com o gênero (pincelando a origem do Coringa) e alguns caminhos utilizados para mostrar mais o vilão após a sua revelação acaba sendo lógico para esse Universo. O problema é que a luta final se mostra como um anticlímax de primeira linha, faltando agilidade na direção, precisão na montagem e principalmente, melhor gancho de motivação para o bandido.

E veja, não digo que a motivação em si seja ruim, pois psicológica e simbolicamente ela faz parte do cânone vilanesco na ficção e também na realidade, aparecendo como constante aperitivo na literatura policial e com os mais diversos detetives (Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Jules Maigret). Essa ânsia de um psicopata, de um bandido extremamente inteligente, que busca um igual para duelar é um bom ingrediente da fórmula detetivesca. O problema é que a motivação não pode ser isso… e apenas isso. Eis aí a armadilha na qual o roteiro cai. Parece insuficiente essa ânsia do vilão em querer criar um herói baseado em uma visão sádica de aplicação da Lei que certamente dá muito pano para discussão frente a temas como vigilantismo e como o exercício da “justiça com as próprias mãos”. O que mancha essa posição do personagem é a sua mediocridade dramática. Não dá para aceitar um real bom vilão apenas por suas simples, tortuosas e sanguinolentas ideias de “conserto de uma sociedade através da força que se opõe a um herói”.

Orígenes Secretos funciona como o Ano Um para o mascarado forjado nessa trajetória. E com ele vem a confirmação de uma leitura de Batman, que já surge com um par romântico e um ajudante improvável. É um filme bastante divertido, mas que não deve ser levado tão a sério, porque nem ele se leva. Pelo visto, há um nicho secundário surgindo da massiva linha produção de obras super-heroicas (nessa mesma safra tivemos Power, que bebe da mesma fonte), e talvez gere uma outra linha de filmes do gênero, numa espécie de nova onda para um terreno já visitado ao longo da década passada, começando por Super (2010), passando por Poder Sem Limites (2012) e terminando em Brightburn – Filho das Trevas (2019). Se for para ter o mesmo nível de diversão e, de preferência, menos didatismo, estamos aí. Bota máscara, capa e nome estranho em todo mundo!

Origens Secretas (Orígenes secretos) — Espanha, 2020
Direção: David Galán Galindo
Roteiro: David Galán Galindo, Fernando Navarro
Elenco: Verónica Echegui, Leonardo Sbaraglia, Javier Rey, Álex García, Ernesto Alterio, Carlos Areces, Brays Efe, Antonio Resines, Roman Rymar, Rodrigo Poisón, Fran Bleu
Duração: 96 min.

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