Crítica | Origin – 1ª Temporada

Considerando a penetração mundial do YouTube, chega a ser curioso que o serviço só tenha começado a oferecer conteúdo próprio – produzido ou adquirido com exclusividade – na segunda metade de 2016, alcançando destaque apenas em maio de 2018 com a muito bem recebida Cobra Kai, série que ressuscitou o Karate Kid original. Em seguida, veio Impulse, série baseada em romance homônimo de Steven Gould, o terceiro da série literária que começou com Jumper, que já havia ganhado uma versão cinematográfica 10 anos antes. Agora, com Origin, o canal mergulha mais profundamente no sci-fi, com uma série que tenta atrair o maior público possível por abordar elementos do gênero que já estão mais do que sedimentados no imaginário popular, ou seja, a criação da ainda incipiente Mika Watkins não se arrisca muito e joga uma rede ampla, muito familiar e facilmente absorvível e que trabalha basicamente em cima de clichês, o que de forma alguma é algo intrinsecamente ruim.

Em linhas gerais, Origin é Lost misturado com Pandorum, com pitadas de Alien, o Oitavo Passageiro. De Lost, temos o grupo de pessoas que não conhecem e que tem que se virar em ambiente hostil. Além disso, a narrativa é estruturalmente igual à da série de J.J. Abrams, com a ação no presente sendo intercalada com flashbacks sobre o passado de cada um dos personagens. De Pandorum, por si só um filme erigido sobre clichês sci-fi, Origin tira toda sua estrutura base: a nave do título está a caminho do planeta Thea com colonizadores humanos em estase quando alguns deles são abruptamente acordados e têm que lidar com uma presença estranha. Finalmente, do clássico Alien, há todo o suspense e paranoia que uma nave gigantesca e deserta, com apenas um punhado de humanos tendo que lidar com uma criatura que os vai matando um a um, automaticamente traz.

A série, apesar de dar atenção razoavelmente equânime a todos os personagens, usa fundamentalmente dois deles como seus veículos narrativos. O primeiro é Shun Kenzaki (Sen Mitsuji), um assassino da Yakuza, a máfia japonesa, e a segunda é Lana Pierce (Natalia Tena), uma agente do serviço secreto. Assim como todos os demais, Shun e Lana têm passados sombrios que aos poucos vão sendo desvelados nos referidos flashbacks, já que a promessa da Siren, empresa que patrocina a colonização de Thea, é um novo começo no planeta paradisíaco, em que cada um que decide ir para lá parte de uma tabula rasa. É isso que torna tentadora a viagem, já que, diferente de muitos outros filmes com premissa parecida (inclusive Perdidos no Espaço e WALL-E) a fuga da Terra não se dá porque o planeta está morrendo, mas sim, apenas, pelo desejo de se colonizar Thea com mão de obra que quer se ver livre de seu passado.

O mistério que se estabelece nos dois ou três episódios iniciais – todos dirigidos por Paul W.S. Anderson – prende o espectador à telinha, apesar de a sensação de déjà vu ser permanente ao ponto de ser possível prever praticamente cada passo. Mas surpresas “inadivinháveis”, para mim, não são nem de longe determinantes em filmes e séries. É muito mais importante uma lógica interna firme do que reviravoltas forçadas que normalmente tendem a desvirtuar muitas obras com potencial. A tentativa de assustar o espectador, porém, cai por terra, com Anderson especialmente, mas também os diretores seguintes, recorrendo a jump scares básicos demais que chegam às raias de serem constrangedores. O finesse que Ridley Scott imprimiu em Alien está completamente ausente por aqui.

Quando o segundo bloco de episódios começa, a trama começa a sofrer de repetições e enrolações. Os infindáveis flashbacks, bem utilizados no início (nos casos de Shun e Lana, claro), ficam burocráticos, com histórias pouco atraentes, particularmente a da ruiva Katie (a bela Siobhán Cullen) e a do Dr. Henri Gasana (Fraser James). As vidas pregressas de Logan Maine (Tom Felton atuando muito bem) e de Baum Arndt (Philipp Christopher), apesar de serem simples ao extremo, daquele tipo que vemos cotidianamente em uma enorme quantidade de outros filmes, são bem contadas e dão estofo aos personagens que, inicialmente, formam a dupla de “babacas” obrigatória em qualquer série do gênero.

Além disso, o artifício do “quem está infectado” cansa rápido. O que é algo bem trabalhado inicialmente logo perde a potência pelas tentativas canhestras dos roteiros de desviar a atenção do espectador com artifícios que simplesmente não fazem sentido no cenário apresentado, a não ser que aceitemos que uma boa parte dos personagem é extremamente burra, capaz de atos tão impensados que eles mereceriam ser laureados com os famosos Prêmios Darwin. E o mais frustrante é que essas bobagens dos roteiros são repetidas algumas vezes, o que não só cansa como tira todo e qualquer resquício de novidade do artifício. Mas, justiça seja feita, o último episódio, apesar de recorrer a um cansativo flashback que consome sua metade inicial, resolve a situação na enorme nave em formato de anéis de maneira diferente da esperada não só finalmente revelando quem é o infectado (se é que existe um infectado – não quero dar spoilers), como também dando-lhe um fim pouco usual que funciona como cliffhanger e abre as portas para uma segunda temporada que promete.

O design de produção da série é muito inteligente. As tomadas internas na Origin fazem uso de cenários que dão impressão de alta tecnologia, com ambientes escuros, mas estrategicamente iluminados e com superfície reflexivas, em uma estética “higienizada” de filmes sci-fi como Oblivion. Com isso, é possível basicamente não só criar uma atmosfera claustrofóbica, como, também, dar uma impressão de variedade com muito pouco. São praticamente dois ou três cenários levemente diferentes, com algumas tomadas em CGI de fora da nave que basicamente mudam de ângulo e pronto, temos uma série que não desaponta em nada nesse aspecto. As tomadas externas – as dos flashbacks – por sua vez, fazem bom uso do cenário natural onde a série foi filmada, na África do Sul, com a emulação de diversos países do mundo, de uma Tóquio ultra-moderna até o bucólico interior da Irlanda. Se os flashbacks em si perdem rapidamente o frescor, com alguns sendo simplesmente chatos, os cenários são bons colírios para os olhos.

No campo das atuações, os destaques ficam mesmo com Sen Mitsuji, Natalia Tena e Tom Felton, muito provavelmente por terem os personagens mais nuançados dentro de um conjunto arquetípico clássico de séries assim. O japonês Mitsuji é a grande surpresa por esse ser seu primeiro papel, prometendo um belo futuro dramático. Sua intensidade e sua maneira de carregar a culpa de seu personagem sem precisar teatralizar suas feições merece comenda, permitindo, também, uma imediata química com a também muito boa e soturna Natalia Tena, talvez mais conhecida por ter vivido Ninfadora Tonks na franquia Harry Potter. Felton, o eterno Draco Malfoy da mesma cinessérie de Tena, talvez viva o personagem com o melhor arco da série e seu trabalho condiz com sua responsabilidade de unir algumas pontas “coadjuvantes” em Origin que, de outra forma, ficariam soltas demais.

Talvez o melhor adjetivo para descrever Origin seja “correta”. Trata-se de uma série que não se arrisca muito, mas consegue introduzir alguns personagens interessantes e uma premissa com potencial, ainda que ele não seja realizado em sua plenitude na temporada inaugural. Tem problemas usuais como os já abordados flashbacks e uma “caça às bruxas” que faz a trama geral ficar repetitiva, certamente com o objetivo de alcançar os 10 episódios regulamentares que, de outra forma, poderiam ser reduzidos facilmente pela metade. O YouTube terá que sair de sua zona de conforto se quiser realmente crescer e aparecer, mas o caminho nesse começo parece sólido o suficiente.

Origin (EUA – 14 de novembro de 2018)
Criação: Mika Watkins
Direção: Paul W. S. Anderson, Mark Brozel, Ashley Way, Juan Carlos Medina, Jonathan Teplitzky
Roteiro: Mika Watkins, Melissa Iqbal, Joe Murtagh, Jack Lothian, Jon Harbottle
Elenco: Natalia Tena, Sen Mitsuji, Tom Felton, Nora Arnezeder, Fraser James, Philipp Christopher, Madalyn Horcher, Katie Devlin, Adelayo Adedayo, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Wil Coban, Nina Wadia, Maurice Carpede, Clayton Evertson
Duração: 41 a 60 min. (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.