Home FilmesCríticas Crítica | Oroslan (2019)

Crítica | Oroslan (2019)

por Michel Gutwilen
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Não sabemos exatamente o que aconteceu quando o filme eslovaco/húngaro Oroslan se inicia, mas já é possível sentir um certo clima pesado no ar. Seja pelo ritmo marcado por longos planos, uma atmosfera nublada realçada pelo 16mm, planos gerais que captam ruas vazias. Quando surgem pessoas, o silêncio predomina, suas faces são marcadas pelo vazio. Uma cena se passa no frigorífico, a carne é cortada de maneira banal e, assim, a morte se estabelece como uma presença na vida daquelas pessoas. Porém, após alguns minutos, vemos dois homens carregando uma maca com um cobertor e a colocam em uma ambulância. Nem todas as respostas são dadas, mas a partir daí se entende que a morte e o luto são o que geram todo esse sentimento pessimista que ronda a narrativa.

Logo, Orsolan é menos sobre o acontecimento em si (a morte), e mais sobre o seu desdobramento, as reações a ele. E também não é sobre o falecido, mas sobre a comunidade ao seu redor. Daqueles filmes que são marcados por uma não-presença mais forte do que qualquer presença. Quando o imaterial fala mais do que qualquer objeto cénico. Quase como se fosse um filme de Kiyoshi Kurosawa, só que voltado para o drama, ao invés do terror. Este elemento fica principalmente presente nos planos em que dois dos personagens estão dentro de um carro, filmados de maneira meio claustrofóbica, envoltos por um constrangedor silêncio só interrompido por instruções do co-piloto. São poucos diretores que conseguem captar o desconforto a partir de um minimalismo cênico tão organicamente.

Vale a pena adentrar um pouco na maneira como o diretor Matjaž Ivanišin explora o ritmo de seus planos. Na cena do bar, por exemplo, trata-se de um plano longo que chega quase na marca de 10 minutos, se não fosse pequenas interrupções no rosto de um dos homens e alguns planos exteriores. São justamente essas pequenas quebras que criam uma sensação de uma presença intrusa na mise-en-scène. Por outro lado, a continuidade espacial e temporal prolongada é fundamental em estabelecer um estado de transe enquanto a história está sendo contada e o espectador passa a imaginá-la.

Se antes esta presença se fazia apenas “sentida”, ela passa a ganhar contornos a partir daquilo que é falado. Seja na longa cena do bar ou nos posteriores depoimentos, o “homem invisível” vai sendo montado a partir daqueles retalhos de depoimentos como se fosse um quebra-cabeça. Neste sentido, Orsolan se evidencia como uma grande obra sobre oralidade e a experiência coletiva de uma própria comunidade que, através da fala, permite que um dos seus membros permaneça vivo. 

Oroslan (Eslovênia, Hungria, 2019)
Direção: Matjaž Ivanišin
Roteiro: Matjaž Ivanišin, Zdravko Duša
Elenco: Margit Gyecsek, Milivoj Ros, Dejan Spasic
Duração: 72 mins

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