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Crítica | Os 101 Dálmatas 2: A Latição Estelar, de Dodie Smith

por Ritter Fan
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A quase que completamente desconhecida continuação literária de Os 101 Dálmatas, que Dodie Smith escreveu 11 anos depois do romance original, é um dos maiores exemplos de viagem na maionese que já li em toda minha vida. E olha que eu nem estou dizendo com isso que a obra é ruim, mas sim que é, apenas, uma loucura lisérgica da autora que pode causar estranhamento em que não estiver preparado psicologicamente. Em defesa de Smith, porém, há que se festejar que ela pelo menos tentou algo substancialmente diferente da primeira aventura, o que mostra coragem de tentar algo novo, sem repetir cansativamente o que já veio antes, o que seria o caminho mais fácil e confortável.

Portanto, A Latição Estelar (leiam, ao final da crítica, meus comentários sobre o título) não há sequestro de cachorros e não há Cruella de Vil, ainda que ela tecnicamente apareça em um capítulo que em nada interfere na narrativa macro e, confesso, era desnecessário. É algo completamente diferente, assim em negrito mesmo. Estão preparados para a breve sinopse? Então vamos lá: em um belo dia, Pongo e Missis acordam em Hell Hall, a atual moradia dos Dearlys e de toda sua família mais do que estendida e repararam que os humanos permanecem dormindo e não levantam de jeito algum, logo descobrindo que eles não só conseguem flutuar, como também abrir portas e se comunicar via telepatia. Cadpig, a menor filhotinha dos dois, agora um dos mais famosos cães da Inglaterra por ser do Primeiro Ministro, convoca toda a cachorrada da ilha, especialmente seus pais, para uma reunião de emergência em 10, Downing Street e, aos poucos, ele vão entendendo toda a verdade surreal e metafísica do que está acontecendo.

Em poucas palavras, é uma fusão de Os 101 Dálmatas com 2001: Uma Odisseia no Espaço tendo a paranoia nuclear como pano de fundo (sim, eu disse que o negócio era uma viagem!). Certamente algo curioso e mais certamente ainda, como disse, uma tentativa louvável de se fazer uma continuação realmente diferente. Essa ambição de Dodie Smith é inegavelmente algo que temos que levar em consideração quando embarcamos nessa aventura misteriosa, mas a autora, mesmo sendo bem-sucedida em expandir esse seu universo canino e mesmo corrigindo o maior problema do original, algo que abordarei em breve, erra ao deixar, pelo meio do caminho, todo aquele charme magnífico que capturou tão bem a vida canina em particular e animal em geral em seu primeiro romance.

Com a profusão de personagens tendo papéis mais relevantes e intensos e com a construção do mistério sendo um distanciamento enorme do que veio antes, há pouco espaço para a autora fazer o excelente jogo de palavras que tanto marcou o livro de 1956, com aliterações e uso jocoso de expressões sendo salpicados com capricho e veneração à língua inglesa. Aqui, essas características marcantes são varridas para debaixo do tapete e, no lugar, entra toda a tentativa de se criar uma construção metafísica que até faz sentido se respirarmos fundo, mas que sacrifica o desenvolvimento de personagens. É como se Smith tivesse ficado tão enamorada com sua ideia, que esquece todo o resto.

Dito isso, há uma bela correção de rumo. Quando fiz a crítica do primeiro livro, salientei que a autora transformou suas personagens femininas, especialmente Missis e Cadpig, em símbolos de arquétipos negativos das mulheres. A primeira é caracterizada como sendo extremamente burra, incapaz de entender o conceito de “esquerda e direita” e, a segunda, como extremamente frágil, tendo que ser carregada o tempo todo na fuga desesperada de Hell Hall. Em A Latição Estelar, Missis ganha uma evolução, com sua sensibilidade feminina ganhando espaço e importância na narrativa, enquanto que Cadpig, como mencionei, torna-se uma líder nata dos cães, servindo como a versão canina do Primeiro Ministro. São enfoques muito bem-vindos e muito bem construídos que, porém, ficam no “banco de trás” da história de ficção científica em que a autora mergulha cada vez mais.

Devo dizer que, no final das contas, ainda gostei da continuação. Dodie Smith claramente arregaçou as mangas para fazer algo pertinente sem pegar a estrada mais fácil nesse processo, sem repetir quase nada do que escreveu antes e, na mesma toada, dando bom desenvolvimento aos personagens principais, resultando em uma aventura surreal e um tantinho bizarra, mas que diverte em sua despretensão e, logo nas primeiras páginas, gera aquele nível de curiosidade que simplesmente dita que o leitor precisa continuar e chegar até o final para entender o que afinal está acontecendo nessa viagem canino-literária que Smith propõe.

*Sobre o título da presente crítica: O título em português usado em meu artigo foi uma adaptação que tomei a liberdade de fazer do original que é, apenas, The Starlight Barking ou, em algumas versões, The Starlight Barking: The Sequel to The Hundred and One Dalmatians. Como o livro não foi publicado ainda no Brasil – ou pelo menos eu não consegui achar qualquer indicação disso – e como o icônico Twilight Barking do livro original ganhou a versão starlight e o original foi traduzido como “Latição Crepuscular”, fiz o salto para Os 101 Dálmatas 2: A Latição Estelar.

Os 101 Dálmatas 2: A Latição Estelar (The Starlight Barking: The Sequel to The Hundred and One Dalmatians – Reino Unido, 1956)
Autora: Dodie Smith
Ilustrações: Janet Grahame Johnstone, Anne Grahame Johnstone
Editora original: William Heinemann Ltd. (Heinemann)
Data original de publicação: 1967
Versão lida: edição dupla da editora Dean (em inglês)
Páginas: 161

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