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Crítica | Os 101 Dálmatas, de Dodie Smith

por Ritter Fan
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Por mais que 101 Dálmatas seja uma ótima animação clássica da Disney e por mais que o filme tenha dominado o imaginário popular no que diz respeito ao que podemos chamar de franquia, a leitura da obra original da britânica Dorothy Gladys “Dodie” Smith, publicada originalmente em 1956 de forma serializada na revista feminina Woman’s Day sob o pouco inspirado título The Great Dog Robbery ou, em tradução literal, O Grande Roubo de Cachorros, é altamente recomendada. Mesmo sendo uma obra voltada ao público infanto-juvenil, ela também encantará igualmente os adultos, pois a autora cria uma charmosa e até emocionante narrativa canina de ritmo rápido e simpáticos personagens.

A história macro já é conhecida por todos, claro, e gira em torno do deliciosamente desalmado sequestro de 15 filhotes de dálmata por Cruella De Vil (na versão em português é Cruella DeMonyo, mas isso não funciona de verdade, pois “De Ville” é um sobrenome que existe, sendo apenas inteligentemente alterado para formar devil ou demônio/diabo em inglês) que quer as peles dos bichinhos para entregar para seu marido peleteiro fazer casacos. Introduzindo o casal canino Pongo e Missis  Pongo (chamada apenas de Missis) que tem como “bichos de estimação” o Sr. e a Sra. Dearly (Radcliff na animação e Clemente na versão literária em português), a autora cria uma perfeita simbiose entre animais e humanos – o que inclui também as duas babás, Nana Cozinheira e Nana Mordomo – e, sem perder tempo, cria as circunstâncias para o nascimento da gigantesca ninhada e o subsequente sequestro.

Mas o ponto alto da narrativa são os momentos em que os humanos estão completamente ausentes, com Smith dando belíssimas vozes aos animais, principalmente cachorros, dois gatos e até duas vacas e um cavalo, depois que Pongo, usando a genial “Latição Crepuscular” (Latido ao Luar na tradução da animação e Twilight Barking, no original em inglês), uma rede de comunicação não apenas canina que cobre toda a Inglaterra e que permite que os filhotes sejam localizados sem demora e que planos sejam colocados em movimento para que o resgate seja possível. Tudo funciona muito bem nessa estrutura de resgate que depende da bondade de estranhos, criando uma linda mensagem de comunidade e de empatia que Dodie Smith explora em variados detalhes, com uma coleção inesquecível de personagens, seja o valente cão pastor Coronel e sua tenente, a gata Pussy Willow, que efetivamente acham os filhotes e iniciam os preparativos para a fuga ou o velho cão da raça Spaniel que ajuda Pongo e Missis mesmo sem aviso prévio.

Chega a ser fascinante como Dodie Smith convence o leitor – criança ou adulto, não importa – sobre o ecossistema animal, mesmo utilizando as mais diversas conveniências para tornar a história possível, com a comunicação com uma criancinha de dois anos ou a fuga razoavelmente fácil da casa onde os filhotes estão, preta por fora, vermelha por dentro, e apropriadamente batizada de Hell Hall, além de uma construção gramatical repleta de aliterações e inteligentes jogos de palavras que devem se perder na tradução para o português. Quem acha que a grande e icônica vilã tem destaque na obra terá uma surpresa, já que ela não só é unidimensional, como sua presença é esparsa, ainda que sempre ameaçadora. Parece-me que a razão para isso é uma questão de foco, com a autora trabalhando com afinco com os animais e não com os humanos.

Outra ausência que quem só viu a animação sentirá e já deve ter percebido pela leitura dos parágrafos anteriores, é Perdita. Afinal, é ela a esposa de Pongo nas obras da Disney, e não Missis. No entanto, não se trata de uma ausência completa, mas sim de uma interessante adição à narrativa, já que Perdita, no livro, é uma dálmata que recentemente perdeu seus filhotes e que é resgatada pela Sra. Dearly para servir de ama de leite para os filhotes de Missis, já que 15 é um número grande mais para apenas uma cadela. Digo que é interessante, pois há uma curiosa e até estranha aura de triângulo amoroso canino, mas que Smith deixa muito claro que não existe (afinal, é um livro para crianças!), mas que um leitor adulto pode perceber que está lá mesmo assim, com a sofrida Perdita cumprindo uma função narrativa limitada, ainda que justificada dentro da estrutura proposta.

O que realmente incomoda no livro – e aqui eu devo vestir meu boné de politicamente correto, algo que raramente faço, confesso – é a forma como Dodie Smith trata suas personagens femininas. As humanas, mesmo Cruella De Vil, como dito, não são exatamente personagens desenvolvidas, mas sim, apenas, “personagens padrão” que existem unicamente para impulsionar a história mesmo considerando a aparência extravagante da vilã, com seu cabelo de duas cores, preto e branco, e seus onipresentes carrão zebrado com buzina poderosa e o “absolutamente simples manto de vison branco”. Mas o lado humano é tratado de maneira igual, sejam feminino ou masculino. O problema está com os animais, especialmente Missis que é, sem ficar dando voltas, a versão canina da “loira burra”. Tudo bem que é hilária vê-la ficar completamente confusa com o mero “conceito” de esquerda e direita, mas a coitada da cachorra mãe é uma porta completa que não consegue captar mensagem alguma, mesmo quando ela é evidente. E isso fica ainda mais saliente em razão do fato de Pongo ser caracterizado como um cachorro genial, que entende perfeitamente a linguagem dos humanos, consegue de imediato perceber quem sequestrou seus filhotes e tem pensamento rápido para permitir que todos saiam das piores enrascadas.

Não que Missis seja uma completa inútil, pois há um capítulo dedicado à sua bravura, o mesmo capítulo que mostra que ela é burrinha, burrinha, aliás, mas é curioso ver uma autora mulher e britânica ainda por cima fazer isso com a co-protagonista de sua história, algo que ela repete com um dos poucos filhotes com nome na história, Cadpie, a menorzinha dos dálmatas da ninhada de Missis que, diferente de todos os demais, não consegue andar nem alguns poucos metros sem ficar cansada e, ainda por cima, é viciada em televisão. As únicas duas personagens femininas bem tratadas são as gatas Willow e a branca siamesa de Cruella De Vil que não só serve para ilustrar ainda mais a crueldade da vilã, como para gerar o frenético e funcional, ainda que muito conveniente, final.

Mas esse “porém” não detrai da história como um todo e Os 101 Dálmatas é, no final das contas, uma deliciosamente divertida aventura canina que é capaz de muito facilmente encantar crianças e adultos pelo universo animal crível e lógico que Dodie Smith consegue magicamente criar. É como ler uma carta de amor para os cachorros e gatos do mundo todo que, claro, nos têm como seus bichinhos de estimação sem que nós tenhamos consciência disso.

Os 101 Dálmatas (The Hundred and One Dalmatians / The Great Dog Robbery – Reino Unido, 1956)
Autora: Dodie Smith
Ilustrações: Janet Grahame Johnstone, Anne Grahame Johnstone
Editora original: Woman’s Day (Heinemann)
Data original de publicação: 1956 (em formato serializado)
Editora no Brasil: Editora SESI-SP
Data de publicação no Brasil: 27 de setembro de 2017
Ilustrações da versão brasileira: Veridiana Scarpelli
Versão lida: edição dupla da editora Dean (em inglês)
Páginas: 224

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