Crítica | Os 12 Trabalhos

A trajetória de Hércules na mitologia grega é árdua, mas ele é dotado de algumas capacidades sobre-humanas que o permite ascender em sua caminhada repleta de desafios. Dentre as missões de sua penitência, séries de episódios que formam uma narrativa amarrada, ele precisa estrangular um leão peculiar, matar um monstro de várias cabeças, enfrentar um touro que lança chamas, dentre outros desafios complexos. Na versão brasileira, comandada por Ricardo Elias, o nosso herói recebe um feixe de missões, todas enfrentadas arduamente pelos corredores de São Paulo, espaço cênico que se comporta como um personagem.

Com roteiro assinado por Ricardo Elias, em parceria com Hilton Lacerda, Claudio Yosida, Arthur Autran e colaboração de Luís Alberto de Abreu nos trechos de narração, em termos de premissa, Os 12 Trabalhos é objetivo. A trama nos apresenta Héracles (Sidney Santiago), jovem negro da periferia que saiu recentemente de um programa correcional, haja vista o seu envolvimento com tráfico no passado. Ele agora busca a sua redenção, a liberdade almejada para sair da condição opressora que o levou para os caminhos da marginalidade. Quem o ajuda é o primo Jonas (Flávio Bauraqui), amigos desde a infância e uma das pessoas que mais confiam no potencial do rapaz.

A oportunidade que surge é o trabalho como motoboy. Para demonstrar capacidade na execução dos serviços, Héracles é designado a realizar 12 tarefas, tal como o mito grego, no filme, transformado em 12 entregas, cada uma com sua dose de dificuldade, todas num único dia. Se conseguir, ganhará a vaga e terá alguns “privilégios”. Uma das necessidades dramáticas do protagonista é o seu desejo de corrigir a imagem anterior, numa busca incessante pelo devido exercício da cidadania. O trajeto, no entanto, não será fácil, pois Héracles precisará lidar com preconceitos, burocracias, grosserias e outras celeumas típicas dos relacionamentos humanos.

Ele é um dentre tantos jovens em condições desastrosas em nosso cotidiano. A sua luta e o trabalho a que é submetido, isto é, a função de motoboy, apresenta ao público o que muitos já sabem: a execução do trabalho sem oferta de segurança, a ausência de direitos trabalhistas, a precariedade das condições de deslocamento, dentre outros fatores internos e externos que refletem na saúde de tantos jovens em busca de oportunidades num sistema cada vez mais sufocante. Em sua jornada, precisará enfrentar leões, alegoricamente, mas nada que não seja desafiador. Dentre os desafios, há a moça que deseja ser modelo, a senhora aposentada e seu gato, o idoso solitário que lhe paga para ser companhia na busca por exames, etc.

A trilha sonora de André Abujamra entrega o clima musical ideal para o contexto, acompanhamento das imagens que captam a cenografia e direção de arte, assinadas por Patrícia Peccin e Ana Mara Abreu, respectivamente. Para nos contar essa história, Carlos Jay Yamashita desenvolve um apurado trabalho na direção de fotografia. Os seus filtros indicam o caos e a sujeira das zonas paulistas radiografadas pelo enredo. A fotografia, cabe ressaltar, é um dos elementos que contribui com a transformação de São Paulo, um espaço que se assemelha a um organismo vivo, intenso, febril, caótico e prestes a explodir de tanta tensão.

Em seu filme de estreia, Ricardo Elias já deixava tais questões latentes, com as vias urbanas apresentadas aos espectadores de maneira caótica. Em Os 12 Trabalhos, ele amplia as dimensões de circulação dos personagens em meio aos seus conflitos. Héracles, em busca por sua redenção, desenha as histórias que vive em seu caderno, como estratégia para desanuviar e evitar, assim, sucumbir diante de tantos problemas. Num diálogo com a atualidade, o filme retrata uma situação que desde o seu lançamento, não mudou para melhor, pois a precariedade do ambiente de trabalho ainda é gritante.

Os 12 Trabalhos — (Brasil, 2007)
Direção: Ricardo Elias
Roteiro: Ricardo Elias, Hilton Lacerda, Arthur Autran, Claudio Yosida
Elenco: Sidney Santiago, Lucinha Lins, Flávio Bauraqui, Cacá Carvalho, Vera Mancini, Vanessa Giácomo, Francisca Queiroz, Luiz Baccelli, Eduardo Mancini, Da Lapa, Francisca Queiroz
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.