Crítica | Os 3 Infernais

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Politicamente mau incorreto.

  • ATENÇÃO: O texto contém SPOILERS dos filmes A Casa dos 1000 Corpos e Rejeitados Pelo Diabo, além de poder contar com informações importantes da trama desse novo, portanto, leia preferencialmente caso tenha visto os três filmes.

Com a baixa na carreira, Rob Zombie decidiu voltar ao seu universo exploitation mais aclamado, buscando uma forma de fechar a trilogia de matanças gratuitas no seu universo irreal de trogloditas assassinos. Os dois primeiros foram filmes muito propícios a sua época, em que o terror vivia essa onda exageradamente grotesca e cascuda, ganhando assim notoriedade por conta de seu diretor ter um estilo peculiar na forma de orquestrá-los. Contudo, até mesmo o segundo, que é bem melhor executado em uma unidade, é um filme muito preso àquele tempo que já deixou de ser uma realidade no cinema de horror, que vem numa constante onda progressista de teor social. Não que o politicamente incorreto do rockeiro não tenha mais espaço, mas assim como qualquer identidade mais datada, ele precisa se adaptar ao novo contexto, algo que não acontece com esse terceiro, salvo o fato de estar presente em meio a diversos retornos de franquias que tentam chamar seus velhotes de volta à ativa para render mais uns trocados.

Os três Rejeitados Pelo Diabo voltam a reprisar seus papeis, embora Sid Haig, o palhaço Capitão Spauding, já adianto, só irá fazer uma pequena ponta e não participará dessa nova trama, pois o ator recém-falecido já estava bastante debilitado por sua doença congênita. Sua saída automaticamente pediria uma substituição, até para o título fazer sentido, e aí estaria a brecha para a trilogia justificar seu retorno a esse novo contexto do terror e buscar nele uma forma para fechar o ciclo criado, algo que é aproveitado em partes nessa conclusão. A primeira metade funciona, o aspecto documental e fictício de colocar os assassinos em noticiários sendo levados a julgamento, após sobreviverem “milagrosamente” à chuva de balas no final do anterior, e depois presos, é um bom ponto de partida que já combina automaticamente com a identidade do diretor. Zombie demostra nesse início um claro amadurecimento de sua linguagem, onde a progressão se mistura com as aleatoriedades humorísticas de seus diálogos com muito mais naturalidade do que visto nos anteriores.

Inclusive, se a trama se passasse inteiramente nessa estrutura, já seria o suficiente e validaria a tentativa da continuidade, pois haveria uma clara dissipação dos fins narrativos, que seria um jogo de manipulação para a possível fuga da prisão. Por mais que nessa parte o roteiro seja recheado de facilitações narrativas, tais como uma segurança carcerária basicamente inexistente, no aspecto do terror psicológico, ela resgata aquele sentimento imprevisível do segundo filme, no qual quem fica pelo caminho acaba por ser tanto um desafio quanto um utensílio de manipulação para render as cenas grotescas. Toda a sequência envolvendo a chantagem com a família é muito bem executada, no melhor estilo sádico de Zombie, e ainda consegue o bônus de apresentar Richard Brake como um ótimo substituto à perda de Haig, carismático em seu próprio estilo caipira, de grande química com Sheri Moon Zombie e Bill Moseley, que a essa altura já conhecem seus personagens na palma da mão.

Infelizmente, isso é só na primeira metade, porque a segunda cai numa armadilha fatal diante do que foi apresentado no início, praticamente se tornando um outro e perigoso filme. A maioria da opinião pública mostrada a respeito dos assassinos os coloca como heróis, até aí parece um ponto de partida para alguma espécie de crítica que vem permeando um discurso “antissistema” americano bajulador diante de criminosos que cometeram atrocidades. Contudo, quando os personagens rumam para o México, além de deixar a narrativa insossa e sem propósito, o clímax direciona mais uma chacina de graça por lá contra estereótipos claramente criados do nada e que se vilanizam sem motivo nenhum. Se Zombie já era julgado como preconceituoso por tratar os interiores americanos mais pobres como um bando de bárbaros que desejam viver uma vida alucinógena aleatória, o retrato mexicano consegue ser isso tudo e ainda pior em caráter mais depreciativo.

Assim, fica ambíguo por parte do roteiro se os personagens queriam ir aos vizinhos latinos para fugir da perseguição da polícia, ou confirmar o aspecto público de que eles são de fato heróis americanos que tiveram a coragem de migrar para lá e matar os contrabandistas ilegais que tanto perturbam o cidadão. E isso só piora quando se pensa nos três filmes e no próprio estilo de Zombie, que de certo modo vangloria o sadismo e a violência em prol do choque fácil, e qual o jeito mais fácil de se conseguir isso hoje? Buscando o revanchismo mal direcionado como uma forma de entretenimento, algo que vem sido muito criticado no recente (2019) Rambo: Até o Fim. Seria Os 3 Infernais uma síndrome negativa dele? 

Os anos 70/80 resguardam conceitos que enxergam as mulheres como meros utensílios na dependência de homens, logo, Baby Firefly só consegue sair da cadeia com a ajuda do irmão, e mais pra frente, precisa ser salva por ele novamente em duelo de faroeste, o estilo que melhor representa esse fetichismo masculino pela resolução de tudo. Baby não tem nem direito mais a repensar seus conceitos em uma crise existencial na cadeia, porque isso logo é dito como estado de total de loucura. Se a personagem ganhou muito destaque foi pela atriz que é esposa de Zombie, porque como personagem feminina em si, ela se resume a isso, uma louca dependente do controle emocional dos outro psicopatas, e isso só fica perceptível agora pela fragilidade do roteiro nos momentos finais. 

Então, respondendo à pergunta anterior, sim, não só uma síndrome negativa de Rambo como de qualquer outra franquia que recorre aos clichês de protagonistas imortais porque eles precisam ostentar uma pilha de feitos impossíveis para glorificar a família. Fireflay é uma espécie de família Toretto do Slasher, em que as matanças são os carros que estão lá puramente para buscar um sentimento “massa véi” para o público a que esses filmes são direcionados. O trio vai sair vitorioso porque eles são sim uma espécie de herói para seu criador e seguidores, que no clima de extensa tensão política, fazem questão de ir ao lugar que mais incomoda seus princípios conservadores para matar todo mundo e saírem ilesos de maiores consequências, tanto pela previsibilidade quanto pela coincidência da “missão” que eles receberam para voltar aos cinemas em 2019.

Os 3 Infernais (3 From Hell, EUA – 2019)
Direção: Rob Zombie
Roteiro: Rob Zombie
Elenco: Sheri Moon Zombie, Sid Haig, Bill Moseley, Emilio Rivera, Danny Trejo, Clint Howard, Richard Brake, Daniel Roebuck e Jeff Daniel Phillips
Duração: 111 min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.