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Crítica | Os 39 Degraus

por Luiz Santiago
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Os 39 Degraus é o filme que marca, em termos estéticos e narrativos, a fase final da carreira de Hitchcock na Inglaterra. O diretor tinha então liberdade considerável para escolher os roteiros que gostaria de filmar e, agora trabalhando para a Gaumont British Picture Corporation, passou a ter orçamentos e produtores de peso, o que lhe garantiu maior possibilidade de ousar na direção e cada vez mais no refinamento de seu estilo pessoal de fazer cinema.

Desde O Homem Que Sabia Demais, no ano anterior, Hitchcock passou a arquitetar um tipo de cinema marcado pela emoção causada no público, muitas vezes em detrimento de posições lógicas do roteiro, como a verossimilhança, por exemplo. Esse teor de preocupação com o público e suas emoções pode ser visto mais claramente aqui em Os 39 Degraus, que corta praticamente tudo o que é cena de contextualização lógica e cria uma sequência quase sem pausa de ação e perseguição, a começar pela intrigante cadeia de eventos iniciais.

Num espetáculo de Music Hall, assistimos à performance de um certo Mr. Memory, personagem que terá um papel importante, impressionante e ao mesmo tempo patético ao final do filme. De sua apresentação guardamos a pergunta “Qual é a idade de Mae West?” (que, a propósito, tinha 42 anos na época) e a briga de uns homens no bar, confusão que acaba em tiros, corre-corre e um encontro seguido de forçosa relação entre Hannay (Robert Donat) e uma misteriosa espiã. Se fosse feito alguns anos depois e com algumas pequenas mudanças na fotografia/enredo, até poderíamos ter um drama noir na tela.

É interessante perceber que o ingrediente principal desse tipo de filme que Alfred Hitchcock então realizava e moldava para os anos futuros era a sua maior fraqueza. Ao ressaltar as emoções do espectador e estender pelo filme uma linha ininterrupta de medo e suspense em troca da lógica (ou parte dela), o diretor sabia que realizava um filme que iria irritar os críticos mas quase sempre agradar aos espectadores (que bom!). Penso que ele alternava a sua visão do que era importante ser verossimilhante ou não. Se elegermos os seus melhores filmes americanos, teremos o mesmo ingrediente de ação numa linha sequencial, mas com precisas cenas de ligação e comedida interação entre as duas faces da moeda, os dois lados que eventualmente se enfrentariam ou dariam força para que a história continuasse.

Nessa toada, o que é realmente interessante em Os 39 Degraus é a jornada do falso culpado, que sai de Londres e vai para a Escócia em busca da tal organização secreta que dá nome ao filme. Hitchcock fez um trabalho belíssimo na direção de toda a rota escocesa, destacando belas pontos estratégicos da paisagem e inserindo-os de maneira dramática na tela, não apenas como simples local de ação para os personagens. A mesma coisa vale dizer da sequência no trem. O diretor adorava cenas filmadas em meios de transporte e não há dúvida de que era um dos melhores realizadores a utilizar esse contexto com belas tomadas, especialmente em trens.

SPOILERS!

A locomotiva de Os 39 Degraus não aparece de forma tão dramática quanto em O Mistério do Número 17, mas mesmo assim garante um bom impacto no público. São cenas como essas que fazem da película algo agradável de se ver, muito embora nos incomodemos com os absurdos dos encontros, a facilidade quase impossível com que os protagonistas aceitam seus destinos e o rumo que a história ganha no final, com a morte patética do Mr. Memory (embora notável, em se tratando desse personagem) e as mãos dadas dos pombinhos protagonistas. Trata-se, evidentemente, de um bom filme, mas com alguns pontos que, se não estivessem lá, com certeza deixariam a obra muito melhor.

  • Crítica originalmente publicada em 3 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 14/12/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Os 39 Degraus (The 39 Steps) – UK, 1935
Direção:
Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Bennett, Ian Hay (adaptado da obra de John Buchan)
Elenco: Robert Donat, Madeleine Carroll, Lucie Mannheim, Godfrey Tearle, Peggy Ashcroft, John Laurie, Helen Haye, Frank Cellier, Wylie Watson, Gus McNaughton, Jerry Verno
Duração: 86 min.

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6 comentários

Erica Patricia 29 de dezembro de 2019 - 17:50

Não tem coisa melhor no cinema do que filmes da década de 30, 40 e 50 e esse filme Os 39 degraus é ótimo . Sem falar que a maioria dos filmes desses últimos anos são remakes da era de ouro . Um exemplo match point , muita gente e a crítica se derreteu em elogios ao diretor do filme aquele velhinho pedófilo como se fosse uma história original criada por ele mas não passava de um remake do ótimo Um lugar ao sol com Montgomery clift .

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 29 de dezembro de 2019 - 22:31

É uma questão de gosto. Mas sim, Os 39 Degraus é muito bom.

Ramakes existem desde o Primeiro Cinema, mas os inúmeros de hoje não têm necessariamente origem naquilo que chamas de Era de Ouro (anos 30 a 50).

Match Point é um filme absolutamente maravilhoso.

Woody Allen não foi condenado das acusações feitas contra ele.

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Pt Andrade 17 de dezembro de 2019 - 18:47

assisti esse no canal arte 1 que de vez m quando pesca umas rarides, gostei muito

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 17 de dezembro de 2019 - 19:01

É um filme bem legal mesmo.

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Rafael Lima 3 de maio de 2017 - 02:04

Mais uma excelente resenha, Luis. De fato, é um filme bem importante na filmografia do mestre, seminal, eu diria. Afinal, este formato se repetiria muitas vezes como “Sabotador”, “Intriga Internacional” e por ai vai.

Essa questão de verossimilhança é uma questão interessante quando se fala na filmografia de Hitchcock. Era algo que ele alegava não dar muita importância, não. O climax do filme inclusive é quase uma ode a inverossimilhança, e funciona muito bem. Não estou defendendo os buracos no roteiro, pois eles existem aqui, mas aqui acho que não atrapalha o resultado final.

O filme tem alguns cliches da epoca, como o lider dos espiões só poder ser reconhecido por um defeito fisico. Ha alguns furos no roteiro também, mas pondo tudo na balança, os pontos positivos superam em muito os negativos.

Passagens como a da fazenda onde Richard pede abrigo e principalmente do comício, possuem um misto de humor e critica, tipico de Hitchcock.

Apesar das falhas de roteiro e coincidências absurdas, este acaba sendo o meu filme favorito da fase britânica.

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Luiz Santiago 3 de maio de 2017 - 11:34

Esse é o xodozinho de muitos dos meus amigos também. É um filme que causa um grande impacto pela sua importância na filmografia do diretor e pelo que ele mostra. Concordo com esse elemento verossimilhante, vindo da percepção do diretor. Mas infelizmente isso pesa em alguns destinos na obra. Na carreira em Hollywood, ele saberia dosar melhor isso, fazendo até com que funcionasse a favor de tudo na tela, o que parece ser algo estranho de se dizer. Mas é aquela: todo estilo “fora da caixa”, se é bem utilizado, vai fazer sentido para aquele determinado diretor. Qualquer outro que tentasse a mesma coisa, não teria o mesmo resultado.

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