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Crítica | Os Abutres Têm Fome

por Ritter Fan
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Último filme de Clint Eastwood em que seu nome apareceria em segundo lugar nos créditos (curiosamente, nos cartazes, seu nome veio em primeiro), Os Abutres Têm Fome (incompreensível versão nacional do título Two Mules for Sister Sara…) é a segunda parceria do ator com Don Siegel, diretor americano que impulsionou sua carreira cinematográfica após seu retorno da Itália com Meu Nome é Coogan. Contando com Shirley McLaine no divertido papel de Irmã Sara, o primeiro faroeste com Eastwood dos anos 70 marca também uma das primeiras vezes que Ennio Morricone atuou como compositor de uma produção hollywoodiana, mesmo que essa tenha sido uma co-produção com o México.

O grande destaque do longa é, sem dúvida alguma, a dinâmica do mercenário Hogan, veterano da Guerra Civil em território mexicano a serviço dos juaristas contra a tentativa francesa de colonização, com a Irmã Sara que ele salva de ser estuprada e morta por três homens logo no começo, iniciando uma amizade que é a base de toda a narrativa. Apesar de repetir o figurino de seu clássico e calado Homem Sem Nome, as  semelhanças com o personagem da Trilogia dos Dólares acaba aí, já que Hogan é um dos mais falastrões pistoleiros já vividos por Eastwood, algo que ganha eco na freira “saidinha” de McLaine que nunca realmente convence como freira, se o espectador tiver o mínimo de atenção.

Os dois astros estão muito bem em seus respectivos papeis e o filme exige que se compreenda que este não é um faroeste comum, no sentido clássico, pelo menos. Trata-se muito mais de uma comédia leve do que qualquer outra coisa, em que Eastwood desfaz sua personagem de pistoleiro estoico, transformando-se em um homem ainda durão, sem dúvida, mas de coração mole e uma vontade muito grande de explicar em detalhes o que pensa e o que pretende fazer, em muitos momentos evocando e espelhando Uma Aventura na África.

Quem melhor percebe essa característica humorística do longa, melhor ainda do que o próprio Don Siegel, é justamente Ennio Morricone que faz questão de compor a música tema com uma pegada cômica evidente que marca o filme desde seus primeiros segundos, inclusive criando uma versão orquestrada dos zurros das mulas do título (na verdade, é uma mula e um burro) que facilmente arranca sorrisos de reconhecimento por parte do espectador. É como se Morricone, mesmo compondo a partir da Itália, com a fotografia principal acontecendo no México, tivesse farejado que Eastwood e McLaine juntos não poderiam resultar em um um filme totalmente sério mesmo que Siegel tenha feito esforço estético para passar essa impressão, levando a um longa que se equilibra entre sub-gêneros do faroeste, notadamente o spaghetti e sua variação, o zapata western.

O diretor, aliás, faz excelente uso das locações em Tlayacapan, no estado de Morelos, algo que a fotografia de Gabriel Figueroa (e de Robert Surtees, que não levou crédito) salienta com o aproveitamento da tonalidade vermelha – ou tijolo para ser mais preciso – da terra local para “colorir” toda a produção e esquentar a conexão entre Hogan e Sara até o divertido dénouement que escancara as portas de vez. Há uma grande variedade de cenários que mantém a história, que nada mais é do que uma corrida de obstáculos, por assim dizer, sempre refrescante, sem cair na mesmice, seja com trivialidades como uma cobra cascavel aparecendo, chega pela chegada da guarnição francesa, seja pelos momentos de luxúria em que a câmera de Siegel faz questão de mostrar Hogan como um homem que precisa fazer enorme força para respeitar Sara e seu celibato.

Somente quando a dupla finalmente chega aos juaristas, com Hogan e seu plano para acabar com um forte da guarnição francesa, é que o filme perde seu ritmo quase que completamente. O tom leve, engraçado e romântico abre espaço para a longa execução do mencionado plano que cobra um preço alto do longa, fazendo-o perder a personalidade e tornar-se apenas mais um faroeste cheio de tiroteio e explosões. Na verdade, o roteiro de Albert Maltz, com base em história de Budd Boetticher não tinha muita história para contar e Siegel parece ter percebido isso ao tentar extrair o máximo da química entre os dois astros, o que talvez tenha tornado os dois terços iniciais do filme bem mais longos do que devem ser, fazendo com que o espectador já chegue “cansado” para o clímax também alongado.

Os Abutres Têm Fome apoia-se no estrelato de Eastwood e de McLaine, além da subversão da imagem do Homem Sem Nome de Eastwood, para prender a atenção do espectador, algo que a fita consegue por boa parte do tempo ajudada pelas piscadelas cômicas sonoras inseridas por Morricone. Mas Siegel talvez não tenha sabido explorar todo esse potencial, deixando de encontrar a melhor maneira de contar sua história. Talvez, indo além disso, o cineasta não tenha mesmo é conseguido encontrar o tom de sua narrativa e investido nele sem reservas, o que acabou resultando em uma obra que não mergulha de verdade em nada, permanecendo constantemente apenas na superfície da premissa e do uso da dupla principal.

Os Abutres Têm Fome (Two Mules for Sister Sara, EUA/México – 1970)
Direção: Don Siegel
Roteiro: Albert Maltz (baseado em história de Budd Boetticher)
Elenco: Clint Eastwood, Shirley MacLaine, Manolo Fábregas, Alberto Morin, Armando Silvestre, John Kelly, Enrique Lucero, David Estuardo, Ada Carrasco, Pancho Córdova, José Chávez, José Ángel Espinosa, Rosa Furman
Duração: 116 min.

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1 comentário

Jordison Francisco 6 de outubro de 2020 - 22:18

Clint Eastwood sempre com tua personalidade forte e preponderante neste Grande Western Clássico. E uma ótima interpretação da Shirley Maclaine se disfarçando-se de uma freira, ficou no esmero, e a trilha do Morricone no requinte. EXCELENTE!

Um exemplar de western spaghetti… Americano!? Sim, Don Siegel conseguiu.
Percebemos as influências desde o prólogo: onde um homem solitário e despreocupado cavalga, entre animais selvagens e peçonhentos, pelas terras desérticas do México, embalado pela trilha sonora do onipresente Ennio Morricone.

Com um humor afinado, a direção é vigorosa e confere fluidez ao desenrolar da história, mesmo que peque em alguns pontos: como quando não enfoca a visão dos vilões acerca do que está acontecendo naquele período do México, assim como na revelação máxima do filme, envolvendo a irmão Sarah, onde uma sensação de surpresa se mistura a de frustração.

A trilha sonora, de um Morricone não tão inspirado, acaba comprometendo parte da força e emoção que determinadas passagens deveriam ter.

O roteiro superficial, que apenas segue a fórmula hollywoodiana, não prejudica o resultado final, graças as excelentes atuações dos protagonistas.
Eastwood fala em 15 minutos o que não disse nos 3 filmes da Trilogia dos Dólares. Anteriormente, seu personagem conversava com os olhos, sempre apoiado pela trilha icônica de Morricone, agora aqui desenvolve grandes diálogos, envolvendo muitas tiradas divertidas. Vale mencionar que aqui Eastwood não é a estrela máxima, e sim Shirley McLaine, já que a história se desenrola através da sua excêntrica personagem.

Clint lutando contra um exército francês, Don Siegel na direção e Morricone na trilha sonora, o filme é curto e a ação só acontece realmente no final, a cenas engraçadas ficam por conta dos diálogos sobre casamento e mulheres do Hogan com a Sara, tão famosos que alguns viraram até meme.

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