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Crítica | Os Anos Felizes (2013)

por Gabriela Miranda
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À primeira vista pode parecer um saudosismo irônico esse, mostrado pelo diretor Daniele Luchetti, no filme Os Anos Felizes. A proposta da fita é rememorar um período na vida de uma família italiana na Roma dos anos 70, a partir da narração do filho mais velho.  Somente pelos olhos inocentes de uma criança essa história repleta de discórdias poderia ser contada longe de julgamentos.

O diretor desnuda os estigmas que pesam sobre os relacionamentos ao traçar um panorama familiar, a partir de uma composição suave e contrastante entre o que significa amar, possuir e manipular.  Guido é um artista que se dedica a esculturas e é também marido de Serena e pai de Dario e Paolo. A mãe não tem ambições pessoais e o ciúme toma conta do tempo livre dela.

Em um certo momento nos deparamos com a descrição de como se demonstra amor nessa família: a partir da frieza ou da calorosidade. Os contrastes e as negações tornam verdadeiro o que existe de positivo e carrega a felicidade. E essa felicidade só existe porque há seu contrário. Com isso, o diretor amarra a história e abre infinitas reflexões.

Guido se sente seguro tendo consciência de que e esposa o ama e isso enfraquece a figura dela diante da vontade dele. Ela se torna submissa a todas as necessidades do marido, mesmo que no meio de brigas e chantagens apaixonadas. A identidade de Guido está formada, ele tem vontades e valores determinados e bem acentuados, enquanto ela parte de um quadro vazio para se desenhar por si mesma.

Aí entra a anti-catarse. O roteiro se entrega ao previsível no momento em que acontece a catarse antecipada de Serena na cena surrealista do carro em movimento. Nesse instante já fica claro que vai haver uma repercussão que muda o curso da história, mas ao mesmo tempo entrega demais com a personagem de Martina Gedeck. O que pode muito bem se tornar uma antítese da catarse.

Entretanto, talvez a catarse de Serena tenha sido antecipada para dar espaço a de Guido, que vem mais adiante no filme, e que na narrativa guarda mais impacto e relevância para dar um fechamento, logo que, as problemáticas se evadem primeiro da personagem dele. E a catarse dela é um reflexo ou resposta ao que ele propõe como liberdade. No entanto, a liberdade só interessa a ele quando é uma via de mão única.

Uma cena importante é quando o filho mais velho filma a mãe e ela não olha para ele, ela está perdida em seus pensamentos e, pela primeira vez, a chama de mama sem que ela se dê conta. Isso, porque essa agora não é mais a única identidade dela. Ela não atende somente por mama, ela encontrou Serena. Descobriu o egoísmo necessário para cultivar sua independência.

Serena agora já não precisa mais da assinatura de Guido sobre a pela dela. Ela encontra em uma nova paixão a força para se libertar da própria intransigência e intolerância. Busca uma redenção, não nos braços de outra pessoa. A outra pessoa é o motivo, ele é a causa, mas o efeito é a independência dela de todos os vícios e amarras.

Na cena sobre o equilíbrio precário o diretor desenvolve um paralelo entre a base de equilíbrio da escultura e relacionamentos. Em uma cena comovente a personagem de Guido expressa pela primeira vez, mas de maneira sutil, o amor pela esposa. A base que o mantinha em pé era a família e ele nem se dava conta disso, até cair.

O filme é costurado por cenas impregnadas de beleza e que não necessitam contar através delas nenhuma história, a não ser a beleza de gestos e composição de luz e cor. O belo é um assunto muito debatido pela personagem de Guido. Ele está buscando o belo e o irreverente com tanta devoção que se perde em táticas com pouca verdade poética.  Esse é o conflito interno dele.

Na tristeza, Guido abraça a dicotomia entre a beleza tradicional (engessada em parâmetros definidos) e o tão clamado irreverente (fora dos padrões).  De certa forma, essa é a dualidade que ele vive durante o conflito no seu relacionamento com Serena. E é o menino quem registra a beleza que o pai perdeu de vista. A beleza da mãe e dessa época.

Os Anos Felizes (Anni Felice) – Itália / França, 2013
Diretor: Daniele Luchetti
Roteiro: Daniele Luchetti
Elenco: Kim Rossi Stuart, Micaela Ramazzotti, Martina Gedeck, Samuel Garofalo, Niccolò Calvagna
Duração:  106 min.

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