Crítica | Os Assassinatos da Rua Morgue (1932)

Os Assassinatos da Rua Morgue (1932)

Inicialmente com 80 minutos e supostamente com um tratamento bastante fiel aos Assassinatos na Rua Morgue original, esta adaptação de 1932 foi picotada pela Universal, que ordenou o corte de 20 minutos de duração do filme, notadamente as partes que tratavam dos detalhes (e contextos) terríveis das mortes narradas por Edgar Allan Poe em seu conto de 1841, o marco inicial da literatura policial como gênero.

Se a gente considerar que 5 pessoas mexeram no roteiro em fases diferentes da produção, até que esta versão dirigida por Robert Florey não está assim tão abaixo do que deveria ser uma boa adaptação de Os Assassinatos na Rua Morgue. Aliás, estamos sim falando de um bom filme, embora ele tenha grandes problemas nas escolhas para a finalização — falarei mais disso adiante — e na montagem, especialmente para estabelecer de maneira lógica a relação entre o Dr. Mirakle, personagem de Bela Lugosi, com Camille L’Espanaye (Sidney Fox) e seu namorado… Dupin (!), interpretado por Leon Ames. E não é preciso dizer muito para imaginar que os problemas de finalização da obra derivam desse par romântico nada indicado para um filme como este.

Há um clima bastante pesado desde o início da película e a linha do texto que une a futura assassinada (no original) com o seu assassino é brilhantemente exposta aqui. A ação se passa em Paris, em 1845, onde o maluco cientista Dr. Mirakle sequestra jovens das ruas e injeta sangue de gorila nelas, num experimento para arranjar uma parceira para seu símio Erik (Charles Gemora, com o traje de gorila), um espécime extremamente inteligente. À primeira vista, parece mais um daqueles terrores B ou exagerados da Universal, mas não é. Aqui, estamos diante de um filme de Hollywood ambientado em Paris, dirigido por um francês, fotografado por um checo e com forte inspiração visual no Expressionismo Alemão, além de um elenco formado por atores de diversas nacionalidades.

E com efeito, o visual dessa adaptação é o seu ponto mais forte. O formato opressivo e tortuoso das casas e ruas de Paris, a fotografia contrastante (num expressionismo refigurado e um pouco mais difuso) deixam tudo ainda melhor. Lugosi, no papel principal, assume muito bem a função de colocar medo nos personagens à sua volta e de agir como um cientista cheio de ideias moralmente questionáveis, mas não faz mais nada além disso. Seus diálogos são poucos e ele se vale mais aqui de expressões e risadas do que de interpretação literal para o seu Dr. Mirakle. Leon Ames está bastante elegante, com um bigodinho que dá o tom final de seu Dupin, mas eu gostaria que ele tivesse ficado calado a maior parte do tempo. Nas cenas em que precisa demonstrar emoção pelo que aconteceu dentro da casa, o ator não convence nem o mas benevolente dos espectadores, assim como ocorrera nas cenas de terríveis e melosas declarações de amor no início da fita — a pior coisa da obra — e o retorno dessa maldição romântica no final, logo numa adaptação onde esse tipo de nuance não é bem-vinda, pelo menos não do jeito que temos aqui.

Claro que a exploração do lado romântico foi uma decisão forçada pela Universal e a isso, o leitor pode somar o corte impiedoso das cenas de violência e de seus contextos, e então temos um romance parisiense com a interferência de um animal inteligente e apaixonado pela mocinha. É o tipo de conceito que começa com uma excelente abordagem e termina de maneira risível, o que é uma pena, porque o que restou aqui da concepção original de Florey já foi o bastante para fazer com que o filme terminasse acima da média, valendo bastante a sessão, mas ainda irritando o espectador diante dessas tantas estranhas resoluções.

Os Assassinatos da Rua Morgue (Murders in the Rue Morgue) — EUA, 1932
Direção: Robert Florey
Roetiro: Robert Florey, Tom Reed, Dale Van Every, John Huston, Ethel M. Kelly (baseado na obra de Edgar Allan Poe)
Elenco: Sidney Fox, Bela Lugosi, Leon Ames, Bert Roach, Betty Ross Clarke, Brandon Hurst, D’Arcy Corrigan, Noble Johnson, Arlene Francis, Ted Billings, Herman Bing
Duração: 61 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.