Crítica | Os Assassinatos na Rua Morgue, de Edgar Allan Poe

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A arqueologia de um gênero sempre gera polêmica, e isso não é um fator presente apenas na literatura. O início e fim de determinados movimentos cinematográficos ou das artes plásticas; um grande marco de certo gênero musical ou de um período das histórias em quadrinhos também podem ser motivo de brigas e divergências teóricas entre leitores ou estudiosos. Daí, não é espantoso que Os Assassinatos na Rua Morgue também tenha em volta de si um pequeno burburinho em relação à seguinte definição, que, para mim, é sim verdadeira: o conto marca o início da literatura policial moderna. Podem citar produções orientais antigas, podem falar do Zadig, de Voltaire; de O Assassinato de Roolfsen, o Fabricante de Motores, de Maurits Hansen; e principalmente de Mademoiselle de Scudéri. Um Conto dos Tempos de Louis XIV, de E.T.A. Hoffmann. Mas Poe e Dupin ainda ganham a briga.

A grande questão aqui é o entendimento histórico (e um pouco óbvio, convenhamos) de que nenhum gênero nasce do dia para a noite. É claro que todo grande marco artístico tem a sua preparação histórica (a arte é, dentre muitas outras coisas, um reflexo de seu tempo e sociedade) e algumas antecipações entre os seus pares, como é o caso da literatura policial, evidentemente. Mas uma coisa é certa: a marcação moderna que temos para este gênero veio, como um modelo a ser desenvolvido, estudado, repetido e remodelado ao longo dos anos, indubitavelmente neste conto de Edgar Allan Poe, publicado em abril de 1841 na Graham’s Magazine.

O começo do conto (juntamente com algumas particularidades muito… humanas dadas ao assassino, na reta final da obra) é a única coisa da qual eu não gosto muito em Os Assassinatos na Rua Morgue. O narrador não nomeado, amigo de ocasião e depois colega de quarto do estranho C. Auguste Dupin faz uma introdução que, para mim, foi longa e enfadonha sobre uma questão metodológica que conheceremos na prática à medida que avançamos na história. O fato, porém, é que a escrita de Poe consegue ser muito bem amarrada quando a olhamos de corpo completo e, mesmo que algumas passagens não entrem exatamente no nosso gosto ou que, em nosso julgamento, não pareçam bem ajustadas na trama, certamente entrarão em nosso entendimento do por quê o autor as colocou ali.

Depois de passada a introdução, o narrador fornece alguns detalhes sobre sua vida em Paris e então atentamos rapidamente para os hábitos um tanto sombrios dele e de Dupin, novamente, uma preparação de atmosfera para o que viria acontecer em seguida, quando os já avisados assassinatos na Rua Morgue são noticiados. E olhem… que assassinatos! Como um grande fã de literatura policial (sejam as clássicas, sejam as derivações do gênero nas mais diversas mídias, especialmente o giallo) uma das coisas que mais me chamam a atenção é a apresentação do cenário e do crime, com a narração da maneira como foi feito ou do resultado observado pela política, pelos legistas, pelo detetive ou narrador da história. Penso que toda boa trama policial deve se erguer sob duas principais colunas: uma para engajar o leitor em uma “investigação sua” e outra para mantê-lo atento ao método de resolução do detetive oficial do caso. E é realmente impressionante o trabalho de Poe ao construir a presente história sob esses dois pilares.

O enredo se emperra um tantinho na descrição dos depoimentos, mas entendemos isso como parte do processo necessário à diversidade de opiniões e possibilidades de pistas para o assassinato. Nisso, somos confrontados com imagens literárias absolutamente cruéis de como Madame L’Espanaye e sua filha foram encontradas. Não há nenhuma possibilidade de o leitor passar incólume pela visão dos corpos descritos por Poe nessa história. A posição das duas mulheres, os tipos e profundidade dos ferimentos e certas particularidades ligadas à casa, às vozes e à quantidade de testemunhas imediatamente após os terríveis gritos da velha e da jovem chocam e intrigam o leitor, que segue rendido até o fim do conto, sendo recompensado pela surpresa de quem realmente foi o assassino.

O tratamento do espaço urbano no texto de Poe é outro ponto de destaque, fazendo-nos primeiro ler a dupla protagonista pela sua relação com o apartamento e depois com a cidade (o primeiro exercício mental e dedutivo de Dupin acontece na rua, utilizando coisas comuns de uma cidade para chegar à conclusão sobre o quê o seu amigo estava pensando), terminando com detalhes vívidos sobre os momentos antes de o crime acontecer, com boa prosa a respeito do caminho percorrido pelo criminoso até o local do crime. Inserindo uma questão moral sobre a culpabilidade de um inocente e talvez uma piscadela para o público em relação ao seu primeiro olhar para a cena do crime, Poe cria em Rua Morgue algo de tamanha força, ritmo e características especiais que não é à toa o fato de o conto servir como uma abertura de portas e janelas para todo um gênero. As sementes da literatura policial estavam então plantadas com todo o vigor que se poderia imaginar. Um pedaço da História da Literatura estava modificado para sempre.

Os Assassinatos da Rua Morgue (The Murders in the Rue Morgue) — EUA
Publicação original: Graham’s Magazine, abril de 1841
No Brasil: Edgar Allan Poe: Medo Clássico – Vol. 1, DarkSide Books, 2017
Autor: Edgar Allan Poe
Tradução: Marcia Heloisa
38 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.