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Crítica | Os Assassinos Só Matam aos Sábados

por Luiz Santiago
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Baseado no romance I Milanesi Ammazzano al Sabato, publicado em 1969, alguns meses antes da morte de seu autor, Giorgio ScerbanencoOs Assassinos Só Matam aos Sábados é um giallo com uma proposta muitíssimo interessante, mas com uma execução que vai pouco a pouco diminuindo o poder de impacto da fita, inclusive atrapalhando aquele que deveria ser o seu melhor momento: o resultado da busca por Donatella (Gillian Bray), uma mulher de 25 anos com uma mente de uma criança de 3.

O roteiro é do próprio diretor em parceria com Biagio Proietti (cuja maior parte da carreira foi na TV), e estabelece a problemática da obra em torno do desaparecimento de Donatella, instigando progressivamente a mentalidade do público para que espere pelo pior (claro!). Como existe a possibilidade de a jovem ter sido incorporada a uma das muitas casas de prostituição da cidade, o texto faz nascer uma expectativa em cima do medo: a garota pode estar sendo estuprada, pode estar morta e a qualquer momento pode ser encontrada pelos policiais… ou não.

Infelizmente o mesmo roteiro parece não ter tido uma revisão final e o corte do filme parece não ter passado por uma sessão definitiva antes de ser dado por encerrado. As confusões, informações desencontradas e estranho trabalho temporal com as ações podem ser vistos já no início da fita, quando Amanzio (Raf Vallone), o pai da desaparecida, vai fazer (mais uma?) reclamação na delegacia. No recorte que temos aqui, porém, ele consegue engajar dois detetives no caso e a investigação de fato começa, juntamente com os horrendos e vergonhosos cortes musicalizados para “cenas do passado“, com a mulher se comportando, em casa, como a criança que mentalmente era.

Mas não termina por aí. Os Assassinos Só Matam aos Sábados também conta com um dos piores usos de trilha sonora que eu já tive a oportunidade de constatar em um filme, com o compositor Gianni Ferrio apostando todas as fichas na dissociação dramática, o que não ajuda o filme em nenhum momento. Apesar de as composições em si serem boas e também abarcarem diversos gêneros e ritmos (o que mostra uma tentativa do compositor em variar ao máximo a atmosfera do filme através da música, como é de praxe nos gialli), esse tipo de estratégia não funcionou aqui. E isso porque o assunto central é tão sério e pouco a pouco vai se tornando tão angustiante, que o espectador se enraivece a cada fuga dramática que a festiva trilha realiza.

A única parte cômica do filme que realmente funciona são os contantes pedidos do detetive Lamberti (Frank Wolff) para que seu parceiro Mascaranti (Gabriele Tinti) corte o cabelo. Este sim é um tipo de dissociação aceitável, o que não ocorre com a trilha sonora, que para piorar, segue o caminho que normalmente esperamos de trilhas de filmes desse gênero, ou seja, está em toda parte. E batendo de frente com essa despropositada alegria musical está o marcante enredo. O roteiro não avança muito em diálogos e tem uma capacidade bem limitada de exploração de personagens (quando tenta, abandona isso rapidamente), mas a revelação do que de fato aconteceu com a desaparecida afeta o espectador com tudo. Infelizmente a tentativa de dar algum sentido para o título sai pior do que se não dissessem nada a respeito, mas em comparação aos outros problemas da obra, este não faz tanta diferença.

Assim como em outro exemplar do gênero, O Perfume da Senhora de Negro, temos aqui uma representação amedrontadora da maldade vivendo ao nosso redor, da infâmia criminosa e exploradora confabulando na porta ao lado e aproveitando-se das nossas fraquezas — ou das fraquezas dos que estão ao nosso redor — para ganharem alguma coisa com isso. E como sempre nessas situações, os criminosos não aceitarão ter os seus planos frustrados. No desfecho do filme, o diretor Duccio Tessari até nos dá uma satisfação tardia, um pouco minada pelo encadeamento das coisas (além de ser mal dirigida, convenhamos) e fortemente marcada por uma visão moralista — confesso que estranhei esse tipo de abordagem aqui — mas o impacto daquilo que o filme nos apresentou e os agentes sociais que favoreceram a cadeia de crimes permanecem vívidos em nossa mente, como um lembrete de que em tempos como os nossos, desconfiar talvez seja a melhor atitude. Até que se prove o contrário.

Os Assassinos Só Matam aos Sábados (La Morte Risale a Ieri Sera) — Itália, Alemanha Ocidental, 1970
Direção: Duccio Tessari
Roteiro: Duccio Tessari, Biagio Proietti (baseado na obra de Giorgio Scerbanenco)
Elenco: Raf Vallone, Frank Wolff, Gabriele Tinti, Gillian Bray, Eva Renzi, Gigi Rizzi, Beryl Cunningham, Checco Rissone, Wilma Casagrande, Marco Mariani, Nicky Zuccolà, Helga Marlo, Riccardo De Stefanis, Maria Grazia Bettini, Elsa Boni, Heidrun Hankammer
Duração: 93 min.

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