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Crítica | Os Aventureiros do Ouro

por Ritter Fan
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Baseado em musical da Broadway de 1951 e produzido no crepúsculo da grande era desse gênero cinematográfico, Os Aventureiros do Ouro é um clássico esquecido ou, no mínimo dos mínimos, uma curiosidade por ter Lee Marvin e Clint Eastwood como uma dupla inseparável de mineradores na Califórnia, durante a Corrida do Ouro. Trata-se do terceiro musical histórico de Joshua Logan, que primeiro nos levou à Segunda Guerra Mundial com No Sul do Pacífico e, depois, à Idade Média com Camelot e também, infelizmente, seu último trabalho em Hollywood muito em razão de seu transtorno bipolar.

Apesar de ter custado o dobro do que originalmente orçado, o faroeste musical Os Aventureiros do Ouro mostra a razão para esse inchaço pelo fato de o cenário – a Cidade Sem Nome – ter sido efetivamente construída no meio do nada (o hotel mais próximo era a 60 milhas e o elenco e a equipe tinham que fazer esse deslocamento basicamente todo o dia), ter obedecido os vários estágios “evolutivos” que a leva de uma floresta a um acampamento minerador até uma cidade completa do Velho Oeste e também pela inacreditável presença de incontáveis extras que povoam o local, dando vida à evolução que observamos desde sua chegada até sua partida, ambas ao som de “I’m on My Way”. Como se isso não bastasse, Lee Marvin, diz a lenda, passou bêbado por toda a filmagem principal, o que por um lado trouxe realismo ao seu Ben Rumson, realmente um bêbado e jogador incorrigível, mas, por outro, levou a incontáveis takes para Logan capturar o que queria do ator. Eastwood, por seu turno, começou aqui a efetivamente ruminar a ideia de dirigir seus próprios filmes dada a demora e as complicações que ele percebeu, algo que viria a acontecer logo em 1971, com Perversa Paixão.

O filme, que tem duração avantajada – e, francamente, desnecessária – de 164 minutos sem interlúdio, é dividido muito claramente na famosa estrutura de três atos, algo que ele herda da peça de Alan Jay Lerner e Frederick Loewe em que foi baseada, mas que foi muito alterada tanto por Lerner quanto por  Paddy Chayefsky, contratado para efetivamente escrever o roteiro. Essa estrutura acompanha a evolução da cidade, primeiro como um mero acampamento, depois como um vilarejo e, depois, como uma cidade propriamente dita e essa evolução é acompanhada ou, melhor dizendo, germinada pela conexão entre o já citado Ben Rumson (Marvin), um cavaleiro errante que salva a vida de “Pardner” (Eastwood em um personagem sem nome em uma cidade sem nome só para satirizar seu estoico pistoleiro da Trilogia dos Dólares), descobrindo ouro no mesmo ato e estabelecendo uma parceria genuína entre eles.

Esse caminhar evolutivo visualmente é acompanhado pela proximidade entre os dois que se torna ainda mais evidente com a chegada disruptiva de Elizabeth (Jean Seberg) à cidade casada com um mórmon que favorece sua segunda esposa. Uma rápida sucessão de acontecimentos leva à literal compra de Elizabeth por Ben, que passam a formar um casal, com ela sendo a única mulher na região. No entanto, o interessante e surpreendentemente progressista mesmo para uma Hollywood em plena transformação, é a reviravolta no conceito Mórmon, já que Elizabeth passa, por sua própria sugestão e escolha, a ter dois maridos, tal qual Dona Flor (só que ambos reais), algo que é também aceito tranquilamente por todos os demais homens da cidade em nascimento (um pouco de conveniência não faz mal a ninguém, não é mesmo?).

Há muita evolução a partir deste ponto, não tenham dúvida, mas a constante imutável é a relação de amizade e companheirismo entre Ben e Pardner, com Lee Marvin dominando todas as cenas em que aparece, o que deixa Eastwood quase que com uma função parecida a de seu filme anterior, O Desafio das Águias, ou seja, não mais do que um coadjuvante de luxo. Seberg, por seu turno, funciona como a voz da razão entre os dois, em um papel forte, bem construído, mas que também é, por assim dizer, de fundo. Logicamente, porém, o que diferencia o longa são seus números musicais que não são muitos, vale dizer, com canções realmente boas e, melhor ainda, com performances genuínas de Marvin e Eastwood que tem, cada um, mais de um solo (Marvin tem dois, com “Wand’rin’ Star” como destaque e Eastwood tem três, com “Gold Fever” merecendo nota), sem substituição de voz como acontece no caso de Seberg na única canção que tem para si (a bela “A Million Miles Away Behind the Door”). Os dois astros de Hollywood conhecidos por seus altos níveis de testosterona cantando canções introspectivas e românticas lembra muito a coragem de Russell Crowe em Os Miseráveis (não falo de Hugh Jackman no mesmo filme, pois ele já tinha tido carreira na Broadway), com os mesmos fascinantes resultados mistos.

Em meio a tudo isso, é simplesmente impressionante notar como Joshua Logan consegue orquestrar o caos completo de maneira a resultar em uma bela obra sobre a formação de família, sobre a percepção de moralidade e sobre a tentativa de se buscar um lugar no mundo, tudo tendo com pano de fundo o mítico momento histórico da Califórnia e sua Corrida do Ouro. A ambição desmedida como base para a chamada Civilização é, por si só, algo para qualquer um parar um pouco e meditar.

Apesar de seu fracasso na bilheteria, Os Aventureiros do Ouro deixou sua marca em Hollyood, marca essa que cinéfilos não deveriam deixar ser apagada tão facilmente. Há enorme valor nessa bem intencionada, bem produzida e, diria, ousada super-produção musical comandada com brilho por Logan tendo dois dos maiores astros da época como improváveis protagonistas.

Os Aventureiros do Ouro (Paint Your Wagon, EUA – 1969)
Direção: Joshua Logan
Roteiro: Alan Jay Lerner, Paddy Chayefsky (baseado em obra de Alan Jay Lerner e Frederick Loewe)
Elenco: Lee Marvin, Clint Eastwood, Jean Seberg, Harve Presnell, Ray Walston, Tom Ligon, Alan Dexter, William O’Connell, Ben Baker, Alan Baxter, Paula Trueman, Robert Easton, Geoffrey Norman, H.B. Haggerty, Terry Jenkins, Karl Bruck, John Mitchum, Sue Casey , Eddie Little Sky, Harvey Parry, H. W. Gim, William Mims, Roy Jenson, Pat Hawley
Duração: 164 min.

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