Crítica | Os Bad Boys (1995)

Goste ou não do cinema de Michael Bay, ele é o que pode ser chamado de autor. Em pleno 2020, já é não é mais debatível que estamos diante de um diretor plenamente consciente de seu próprio cinema e que segue um estilo muito próprio — o que, todavia, não é uma garantia de êxito. Os giros em 360º sobre o rosto de atores, o slow-motion em tom épico, a ação picotada. Apelidado carinhosamente de Bayhem (mistura do sobrenome Bay com a palavra mayhem, que significa caos em inglês), é curioso observar de que forma ocorreu seu nascimento em Bad Boys, em 1995. Plano Crítico.

Goste ou não do cinema de Michael Bay, ele é o que pode ser chamado de autor. Em pleno 2020, já é não é mais debatível que estamos diante de um diretor plenamente consciente de seu próprio cinema e que segue um estilo muito próprio — o que, todavia, não é uma garantia de êxito. Os giros em 360º sobre o rosto de atores, o slow-motion em tom épico, a ação picotada. Apelidado carinhosamente de Bayhem (mistura do sobrenome Bay com a palavra mayhem, que significa caos em inglês), é curioso observar de que forma ocorreu seu nascimento em Bad Boys, em 1995.

Diferentemente do filme seguinte da franquia, onde há um fator geopolítico do pós 9/11 ordenando toda a narrativa, a estreia de Bay parece partir genuinamente da relação entre os detetives Marcus Burnett (Martin Lawrence) e Mike Lowrey (Will Smith) como sua força motriz. No melhor estilo buddy cop, Bad Boys aposta justamente nesta dinâmica entre duas personalidades opostas que precisam conviver juntas. Aliás, isso é algo que já se enuncia desde a primeira cena, na qual os dois conseguem sair de uma situação que são reféns, justamente por encenarem uma briga entre si para que os assaltantes se distraiam.

Neste sentido, esse contraste entre Marcus e Mike é mais aprofundado quando os dois precisam trocar de identidade por boa parte do filme, transformando-se em uma verdadeira comédia de encenação, ainda que nada disso faça muito sentido dentro do roteiro. Todavia, um erro que Bad Boys II viria a consertar é que Martin Lawrence e Will Smith funcionam muito mais organicamente quando contracenam, e não quando estão separados, o que acaba acontecendo por boa parte aqui. Por outro lado, faz bastante sentido colocar esses personagens para interpretar um ao outro. É a clássica situação de literalmente se colocar no lugar do outro para entender melhor sua vida e escolhas feitas.

Em contraponto com este lado mais inocente que Bay se escora nas atuações de seus protagonistas, existe um tom mais sombrio na história que marca um contraste dinâmico para a narrativa. Na trama principal, Marcus e Mike precisam investigar um carregamento de heroína roubado, no qual a única testemunha que pode solucionar o caso, Julie (Téa Leoni), possui uma ligação indireta com Mike.

Funcionando como um elemento vivo do filme, fica evidente que Bay usa um contraste visual retratar duas Miami bem diferentes, que, consequentemente, geram atmosferas distintas. Primeiro, temos o laranja ensolarado dos ambientes externos, um rap tocando de fundo e o simples dia-a-dia de Marcus e Mike. A cidade parece amigável e convidativa. Posteriormente, a noite toma conta e Bay aposta num azul que, juntamente com uma iluminação esfumaçada, dita um tom bem mais sombrio para a história. Por exemplo, a morte de Max (Karen Alexander), a amiga de Julie, é o momento que o diretor mais parece beber das fontes de um maneirismo brian-de-palmiano ou hitchcockiano em sua carreira, estilizando ao máximo o suspense daquela cena através dos close-ups e do slow motion. Contudo, conforme o avançar do longa, a comédia e o suspense nunca parecem conversar em sintonia, dando a impressão que são dois filmes em um.

Na sequência de Bad Boys, veremos que o fato de Bay abraçar sua visão absurda colabora bem mais para a unidade de sua obra. Em seu primeiro longa, o diretor se encontra ainda muito mais preso a uma emulação de referências passadas, que vão desde o buddy cop de filmes como Máquina Mortífera, passando por elementos dos maneirismo na construção do suspense, até chegar a um estilo de ação que lembra o cinema de John Woo. Há uma cena em que Will Smith, enquanto corre atrás dos vilões, esbarra em um grupo de cadeirantes que seguram uma bola de basquete. E, sim, não há nenhum motivo para eles estarem passando por aquele local naquela hora. Talvez seja aí que o espírito caótico do diretor tenha nascido.

De todos os trabalhos de Michael Bay, sua estreia em Bad Boys figura como um dos mais contidos do diretor e que mais bebe de referências — aliás, no futuro, Bay passará a sugar referências de seus próprios filmes. Sem abraçar totalmente seu caos visual, já é possível ver alguns flertes do que viria a seguir em futuros trabalhos. Fora isso, o filme se configura como uma mistura buddy cop competente dos anos 90, contando com o diferencial de Bay saber explorar a dinâmica cômica entre Martin Lawrence e Will Smith, e um thriller com traços do maneirismo.

Os Bad Boys (Bad Boys) – USA, 1995
Direção: Michael Bay
Roteiro: Michael Barrie, Jim Mulholland, Doug Richardson
Elenco: Will Smith, Martin Lawrence, Téa Leoni, Tchéky Karyo, Joe Pantoliano, Marg Helgenberger, Michael Imperioli, Theresa Randle, Anna Levine, Nestor Serrano
Duração: 118 min.

MICHEL GUTWILEN . . . Entusiasta da política dos autores. Antes de se preocupar com o tema do filme, sempre atento a maneira como o diretor articula o mesmo através de uma unidade estilística. Acredita que há coisas muito mais interessantes na arte a se falar do que furos de roteiros. Prefere que suas críticas sejam vistas como uma extensão a obra, ajudando a sua discussão após a sessão e propondo novas ideias, ao invés que sejam usadas como recomendação para ir ao cinema. Se inspira muito na Cahiers du Cinema. Admira muito o cinema de Alfred Hitchcock, Robert Bresson, Fritz Lang, James Gray, Naomi Kawase, Orson Welles e Pedro Costa. Reconhece Jean Gabin como maior galã do cinema.