Crítica | Os Bad Boys II

Assistir a Bad Boys II, logo após o original, é um trabalho de percepção minimamente interessante para aqueles que gostam de ver acontecimentos políticos se materializarem como uma direta influência no cinema. À primeira vista, é fácil afirmar que o segundo filme da franquia seja uma continuação de tudo que já se encontrava no anterior, só que elevado a uma décima potência do caos por Michael Bay. Bem, isso não deixa de ser mentira, pois, entre os longas de 1995 e 2003, o diretor aprimorou seu estilo em A Rocha, Armageddon e Pearl Harbor. Entretanto, não acho que essa explicação baste. A segunda parceria dos detetives Mike e Marcus parece ser diretamente influenciada por um ideal norte-americano potencializado após o atentado de 9/11, se pensarmos em uma perspectiva contextualizada da época. Plano Crítico.

Assistir a Bad Boys II, logo após o original, é um trabalho de percepção minimamente interessante para aqueles que gostam de ver acontecimentos políticos se materializarem como uma direta influência no cinema. À primeira vista, é fácil afirmar que o segundo filme da franquia seja uma continuação de tudo que já se encontrava no anterior, só que elevado a uma décima potência do caos por Michael Bay. Bem, isso não deixa de ser mentira, pois, entre os longas de 1995 e 2003, o diretor aprimorou seu estilo em A Rocha, Armageddon e Pearl Harbor. Entretanto, não acho que essa explicação baste. A segunda parceria dos detetives Mike e Marcus parece ser diretamente influenciada por um ideal norte-americano potencializado após o atentado de 9/11, se pensarmos em uma perspectiva contextualizada da época.

Na história da vez, os personagens vividos por Martin Lawrence e Will Smith devem investigar a entrada do tráfico de ecstasy dentro de Miami. Só que agora, Syd (Gabrielle Union), a irmã de Marcus, participa da investigação do caso, ao mesmo tempo que se envolve com Mike. Se no primeiro filme há ainda toda aquela lógica buddy cop dos anos 90 que funciona como um fim em si mesmo, aqui ela aparece mais como um artifício para uma grande propaganda de um Estado vigilante, patriota, moralista e com um forte espírito xenofóbico. Não só isso, mas Os Bad Boys II parece ser um amálgama preciso de tudo que há de melhor e pior nos Estados Unidos do início da década de 2000.

Primeiramente, o simples fato de Martin Lawrence e Will Smith estarem muito mais confortáveis com seus papéis já seria o suficiente para rir (e muito!) durante o longa, principalmente por conta da fisicalidade e caras e bocas do primeiro. Todavia, cinema é a arte do inconsciente e o fato de haver um padrão mínimo nas piadas com certeza contribui indiretamente para o seu humor.

Portanto, é curioso notar que até a lógica cômica do filme parece transportar toda essa noção do Estado de vigilância neurótico para o microcosmos de suas piadas. Em uma cena, Mike e Marcus estão tendo uma conversa com conotação sexual ambígua dentro de uma loja de eletrônicos, até que, sem querer, uma câmera transmite aquela situação íntima para todas as televisões nas prateleiras da loja, fazendo com que todos observem constrangidos aquela situação. Não há como se esconder do Big Brother. De mesmo modo, na hilária cena em que os dois detetives vão assustar Reggie, que irá sair com a filha de Marcus, todo o humor da cena passa pela questão do pai ser extremamente vigilante e o cerceamento da liberdade sexual da garota.

Aliás, pensando no tema da sexualidade, não há como não notar que o roteiro de Os Bad Boys II explora ao máximo o assunto para trazer uma necessidade de auto afirmação constante de seus protagonistas que, no fundo, acabam representando um ego norte-americano ferido após o atentado. Isso é algo que começa desde o tiro nas nádegas de Marcus, se perpetua pelas insinuações de que os protagonistas são um casal, pela vigilância na filha e pelos problemas de ereção de um deles. Por isso, o filme acaba funcionando como uma espécie de eterna provação de um atestado de produção hormonal da cultura norte-americana.

Não só isso, mas dentro dessa lógica de banalização do sexo e cadáveres, a intenção de Michael Bay é, justamente, tirar qualquer sacralidade que o corpo humano ainda possa ter no universo que ele criou. Quando o diretor coloca corpos esquartejados em uma reunião de mafiosos, e, atinge o auge do impoliticamente correto em uma gag visual que envolve necrofilia, na verdade, ele está nos preparando justamente para todo o terceiro ato em Cuba, no qual corpos serão reduzidos a meros detalhes dentro de um show de efeitos especiais, explosões e chacina.

Contudo, esta não deixa de ser uma escolha condenável do ponto de vista moral — ainda que esta possa soar uma crítica anacrônica de minha parte — uma vez que, ao propor a dessacralização dos corpos, fica muito mais assimilável e aceitável no subconsciente do espectador, quando os vilões dos filme: haitianos, cubanos e russos; são completamente dizimados pelas balas e explosões de Bay. Seria cômico se não fosse trágico, mas a situação chega ao ápice quando Marcus e Mike, fugindo de carro, destroem uma favela inteira, enquanto se divertem.

Por todos esses motivos, Os Bad Boys II se torna uma amostra fundamental do cinema norte-americano pós-9/11. Se minha nota se encontra altíssima, é menos porque concordo com as ações do filme, e mais porque ele é um retrato perfeito de uma cultura local dentro de sua época. Tudo aqui se resume a um grande exibicionismo de auto afirmação. Neste sentido, todo o exagero já conhecido de Michael Bay acaba casando perfeitamente com a proposta megalomaníaca desta obra.

Finalmente, o longa se revela como um ato extremamente político. Mais do que isso, ele vira um grande grito de que os Estados Unidos está sempre com os olhos abertos, em vigilância, e reafirmando de seu potencial bélico. Afinal, nada mais coerente para a retomada de um otimismo norte-americano como heróis da história do que botar seus protagonistas para lutarem contra a Ku Klux Klan e o exército cubano, na abertura e encerramento do filme, respectivamente.

Os Bad Boys II (Bad Boys II) – USA, 2003
Direção: Michael Bay
Roteiro: Ron Shelton, Jerry Stahl
Elenco: Will Smith, Martin Lawrence, Jordi Mollá, Gabrielle Union, Peter Stormare, Theresa Randle, Joe Pantoliano, Michael Shannon, Jon Seda, Yul Vazquez
Duração: 147 min.

MICHEL GUTWILEN . . . Entusiasta da política dos autores. Antes de se preocupar com o tema do filme, sempre atento a maneira como o diretor articula o mesmo através de uma unidade estilística. Acredita que há coisas muito mais interessantes na arte a se falar do que furos de roteiros. Prefere que suas críticas sejam vistas como uma extensão a obra, ajudando a sua discussão após a sessão e propondo novas ideias, ao invés que sejam usadas como recomendação para ir ao cinema. Se inspira muito na Cahiers du Cinema. Admira muito o cinema de Alfred Hitchcock, Robert Bresson, Fritz Lang, James Gray, Naomi Kawase, Orson Welles e Pedro Costa. Reconhece Jean Gabin como maior galã do cinema.