Crítica | Os Bandeirantes (1923)

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Baseado no romance de Emerson HoughOs Bandeirantes, filme de 1923 dirigido por James Cruze, tem uma considerável mítica em torno de si. Enorme sucesso de bilheteria, o longa (note que o título brasileiro foge do The Covered Wagon original, tentando fazer uma aproximação com os nossos desbravadores do sertão)  foi um dos mais populares lançados nos Estados Unidos naquele ano, juntamente com O Corcunda de Notre Dame e O Homem Mosca. Aqui, o roteiro de Jack Cunningham nos faz acompanhar um grupo de pioneiros que viaja do Kansas para o Oregon, cruzando o “Oeste Selvagem” e sofrendo todas as dificuldades que uma viagem longa e perigosa desse tipo podia trazer.

Muito se repete a frase de Joe Franklin, em seu livro de 1959, Classics of the Silent Screen: A Pictorial Treasury, dando conta de que este filme “foi o primeiro épico americano não dirigido por D.W. Griffith“. Da mesma forma, se tornou bastante popular a frase de Jesse Lasky Jr. na série Hollywood (1980) sobre o fato de The Covered Wagon elevar o faroeste ao status de épico. O fato é que o western clássico estava em sua segunda fase, a 1ª Idade do Ouro, e ainda não havia um filme que marcasse em grandiosidade a dinâmica de marcha para o Oeste — e quando falo “grandiosidade”, quero dizer o pacote completo: orçamento, número de figurantes, tamanho da equipe de filmagem, número de locações, tentativas do roteiro em tornar a trama diferente (mais séria, mais dramática) e uma preocupação maior com certas representações históricas. Em Os Bandeirantes, tivemos tudo isso.

A despeito do pequeno burburinho em torno do curta sul-africano De Voortrekkers (1916) e a colocação de que “haviam muitas coincidências” entre aquela e esta obra (eu particularmente não acho), Os Bandeirantes se eleva com facilidade diante da sua produção dentro do western dos anos 1920. O que atrapalha parte de nossa apreciação é o roteiro, que tem três grandes elementos incômodos sobre os quais gostaria de falar um pouco mais.

O primeiro deles acontece na forma como o texto faz a divisão da grande caravana durante o cruzamento do deserto. Existem cenas um tanto confusas em relação às intenções de cada grupo e isso se torna ainda mais grave no ato final, quando dividem-se duas linhas de caravanas, uma para o Oregon e outra para a Califórnia, em busca de ouro. Em dado momento, as informações parecem atropeladas e o filme perde um pouco de foco nesse sentido, o que só é retomado, infelizmente, por outro de seus elementos menos interessantes, que é o drama amoroso. E isso só se torna menos interessante porque o enredo também cria uma desnecessária intriga em torno do tema, procurando sempre expandir o conflito entre os dois pretendentes de Molly (Lois Wilson), já que o autor não queria assumir todo o tempo o ponto de vista do herói, então o que se destaca mais aqui é a massa, os “bravos pioneiros” e as situações que eles vivem.

Evidente que Will Banion, o personagem de J. Warren Kerrigan, tem grande importância na trama, mas ele não é o “herói do Oeste” na forma mais comum de se pensar. Tanto que ele some do filme por um bom tempo e só retorna diante da já citada linha amorosa, em dois momentos distintos da narrativa. Por fim, o terceiro grande elemento incômodo está no ataque dos índios aos pioneiros. Aqui é preciso fazer a contextualização história para o tratamento dado aos índios no cinema naquela época, ou seja, majoritariamente como sendo vilões sanguinários. Mas não é isso que incomoda no filme. O problema está na estranha concepção para o ataque, que parece começar e terminar com um lapso, num dos momentos mais confusos da direção de James Cruze nesta fita.

Mesmo com seus tropeços no desenvolvimento, The Covered Wagon tem um resultado final acima da média. As belíssimas tomadas panorâmicas sobre diversas paisagens, a passagem das estações do ano, a direção da cena na cabana ao final e a travessia do rio com rebanhos e caravanas são momentos do filme que nos deixam vidrados. É um clássico que nos chama a atenção pelo seu valor histórico-documental e por nos ajudar e entender a concepção para os westerns americanos a partir desse momento. Não que a película tenha operado “um grande milagre geral“, até porque produções B sempre existiram em Hollywood, para todos os gêneros, mas ela certamente marcava um firme passo em produções de maior ambição dentro do faroeste, o que não era, até então, algo comum de se pensar.

Os Bandeirantes (The Covered Wagon) — EUA, 1923
Direção: James Cruze
Roteiro: Jack Cunningham (baseado na obra de Emerson Hough)
Elenco: J. Warren Kerrigan, Lois Wilson, Alan Hale, Ernest Torrence, Tully Marshall, Ethel Wales, Charles Ogle, Guy Oliver, Johnny Fox
Duração: 98 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.