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Crítica | Os Bons Companheiros

por Marcelo Sobrinho
716 views (a partir de agosto de 2020)

Ninguém tem dúvidas de que filmes de gângsters são uma especialidade de Scorsese. Se o esperado Oscar que ele recebeu em 2006 por Os Infiltrados foi uma estranha maneira de reconhecer sua carreira como um todo, por outro lado ele veio justamente por uma obra sobre o tema que o diretor norte-americano mais domina. Os filmes sobre a máfia se tornaram um lugar-comum dentro do cinema estadunidense. Depois de Francis Ford Coppola e sua tão bem-sucedida trilogia O Poderoso Chefão, surgiu um grupo bastante seleto de grandes filme sobre o tema, a exemplo de Scarface, de Brian de Palma, Era Uma Vez na América, de Sergio Leone e Ajuste Final, dos irmãos Coen (esse um filme de gângster bem menos tradicional). Mas talvez o grande título do gênero, após Coppola, seja mesmo Os Bons Companheiros, lançado em 1990 sob a batuta do não menos talentoso Martin Scorsese. Há quem diga até que Scorsese superou Coppola com seu estudo tão original sobre o mundo da máfia.

Em primeiro lugar, é preciso compreender o que Os Bons Companheiros trouxe de novo ao tema. Ao contrário de filmes anteriores, incluindo a própria trilogia de Coppola, a obra-prima scorsesiana desloca o olhar sobre esses personagens tão fora da lei para o âmbito mais doméstico e pessoal possível. O cineasta conhecia o ambiente daqueles homens, já que passou toda a juventude em um bairro nova-iorquino repleto deles. Por isso, não há apenas momentos de violência explícita e de gatunices no longa-metragem. Scorsese tira seus mafiosos das ruas e dos bordéis e os coloca também em suas casas e em suas festas de família. Eles passam a se parecer mais com homens normais do que era de se esperar e isso chega mesmo a criar afeto por eles. Mas é bom pontuar que não há nenhum esforço de romantização por parte do diretor, que filma seus brutais assassinatos com uma perícia inigualável. A grande novidade é que Os Bons Companheiros não dá respostas unidirecionais sobre seus gângsters.

Martin Scorsese faz o que ninguém havia feito – ele traz o alto crime para o mundo dos homens comuns. Além de maravilhosamente bem filmado, seu longa-metragem tem em sua trilha sonora uma de suas fortalezas. Ela dá o tom exato do clima de subversão e de risco constante, em um universo onde o banditismo é quem dá as cartas. Tonny Bennet, Aretha Franklin, Rolling Stones, The Who, Cream e outros artistas canônicos da música norte-americana constroem uma das trilhas sonoras mais memoráveis da história do cinema. O clássico riff de Sunshine of Your Love, da banda de Eric Clapton, se tornou parte indissociável de Os Bons Companheiros, assim como a antológica queima de arquivo pontuada com certa dose de ironia por Layla, da banda Derek & The Dominos. Todas as canções parecem feitas sob medida para o filme e se entrosam muito bem com o submundo criminoso de Jimmy Conway (Robert De Niro), Tommy DeVito (Joe Pesci) e Henry Hill (Ray Liotta). Um amálgama entre imagem e som raro de se ver.

As interpretações do trio são irrepreensíveis, com direito a um célebre improviso de Joe Pesci durante a hilária cena em que seu personagem pergunta a Henry Hill o que era engraçado em sua história. Scorsese, como um apaixonado pelo cinema, domina a sua linguagem por completo e faz de Os Bons Companheiros um dos filmes mais bem filmados de sua longa e rica carreira. Sua direção bebe claramente da fonte do cinema estadunidense das décadas de 60 e 70. O diretor nova-iorquino utiliza o zoom como poucas vezes se viu no cinema dos anos 90, década à qual o filme pertence. Ele usa o movimento da objetiva para chamar atenção dos detalhes e das peculiaridades de seus protagonistas. Scorsese confia na força de seus personagens e quer que o público também confie. É interessante notar como ele acelera o zoom in em uma cena em que Henry Hill cheira cocaína, simulando o efeito da droga entrando no corpo (muito antes de Darren Aronofsky criar sua montagem hip hop, em Réquiem Para Um Sonho, para a mesma finalidade).

A onisciência do narrador é ressaltada pelos frames congelados de Scorsese, que aumentam a importância do que se conta e dão também um caráter despojado ao relato (além de uma pitada de humor negro). É assombrosa a inteligência dos planos do cineasta americano. Quando Karen Hill (Lorraine Bracco) aponta uma arma para o marido, Scorsese a mantém em contra-plongée, enquanto Henry fica todo o tempo em plongée – invertida a ordem de dominação entre eles. Os insert-shots no gatilho e no cano do revólver dizem claramente que o único atributo de valor nesse mundo dos gângsters é mesmo o poder. A única coisa a ser disputada nesse submundo brutal, onde a moral perdeu o seu lugar. Scorsese demonstrará essa troca entre moral e poder no plano-sequência que registra a chegada de Henry e Karen a uma festa, ignorando todas as filas e alcançando o interior do local como se nada pudesse impedi-los de chegar aonde queriam.

Em sua conclusão, Os Bons Companheiros quebra a quarta parede para envolver diretamente o espectador em suas indagações finais. O filme conquista o público exatamente por mexer em algo escondido profundamente nele – o desejo de transgressão. Jimmy Conway e sua camarilha trazem à tona a sede de insubordinação do homem comum, submetido a tantas leis, regras e obrigações sociais ao longo de toda a vida e sem receber, muitas vezes, a devida contrapartida. Não se trata, de forma alguma, de uma justificativa rasteira ao crime, que é praticado da forma mais ignóbil durante todo o longa-metragem. Mas uma coisa é certa: quando Tommy DeVito atira enfurecido contra a câmera, Martin Scorsese sabe muito bem o que deseja despertar em seu público.

Os Bons Companheiros (Goodfellas) – EUA, 1990
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Martin Scorsese, Nicholas Pileggi
Elenco: Robert De Niro, Joe Pesci, Ray Liotta, Lorraine Bracco, Paul Sorvino, Frank Vincent, Illeana Douglas, Catherine Scorsese, Chuck Low
Duração: 146 minutos

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29 comentários

Ferdinando Rios 15 de maio de 2020 - 18:50

“Mas talvez o grande título do gênero, após Coppola, seja mesmo Os Bons Companheiros…”

Seria uma verdade inconteste e irrefutável se o Leoni tivesse dirigido Chefão e não tivesse levado a frente o projeto de Era uma vez na américa, hehe…. claro, visão pessoal. Recém revi os dois e são dois filmes grandiosos. Mas coloco o do Leoni um pouco acima.

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Vinicius Maestá 2 de maio de 2020 - 21:23

Se eu falar que não acho esse filme tudo isso, sofrerei linchamento virtual? Não consigo me relacionar com os personagens, logo não consigo me envolver com o filme. Acho que De Niro está no piloto automático aqui. Pra mim falta uma estória mais bem definida também, mas sei que isso é uma questão de gosto. Ah, acho também que o garoto que faz o Henry jovem dá uma banho no Ray Liotta. Por favor gente, não me espanquem! Abraço!

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Marcelo Sobrinho 6 de maio de 2020 - 01:51

Relaxa! Você não é obrigado a gostar de filme algum, embora, analisando aspectos técnicos e narrativos, seja um grande filme. Mas o gosto é algo muito individual. Abraços

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Vinicius Maestá 7 de maio de 2020 - 10:59

Sim sim, sei disso. Falei mais em tom de brincadeira mesmo. Scorsese tem obras pela qual sou apaixonado, mas tem tantas outras pelas quais torço para acabarem logo, ainda que eu reconheça a qualidade.

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Luiz Santiago 29 de março de 2018 - 22:55

FILMAÇO!!! Uma das obras-primas do Scorsese e um filme que nos deixa vidrados na tela. O apuro estético do diretor, a delicadeza, quando necessário e a rudeza, quando necessário cativam qualquer um. Não tem como não gostar dessa maravilha aqui.

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Luiz Santiago 29 de março de 2018 - 22:55

FILMAÇO!!! Uma das obras-primas do Scorsese e um filme que nos deixa vidrados na tela. O apuro estético do diretor, a delicadeza, quando necessário e a rudeza, quando necessário cativam qualquer um. Não tem como não gostar dessa maravilha aqui.

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Marcelo Sobrinho 30 de março de 2018 - 10:04

Também acho um baita filme, Luiz! Para mim no top 3 Scorsese: Taxi Driver, Os Bons Companheiros e Touro Indomável. Abraços!

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Ferdinando Rios 15 de maio de 2020 - 21:21

Eu gosto tanto de O aviador e Cabo do medo que ouso colocá-los em posições altas em um top meu.

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Mateus 28 de março de 2018 - 13:17

Gostei da critica e do filme,mas admito sou mais fan de Os infiltrados,poderia ter uma critica dele também!!

Responder
Marcelo Sobrinho 30 de março de 2018 - 10:02

Boa pedida, Mateus! Vou anotar com carinho para fazer! Abraços

Responder
Mateus 28 de março de 2018 - 13:17

Gostei da critica e do filme,mas admito sou mais fan de Os infiltrados,poderia ter uma critica dele também!!

Responder
Joly81 27 de março de 2018 - 21:34

Roteiro, direção e atuações espetaculares. Diria que esse filme nao beira a perfeição, ele é perfeito. Clássico insuperável do genero, acho ate que um pouco subestimado, em detrimento de outros. E depois Scorcese ainda fez Casino, que mesmo nao sendo uma obra prima, tambem é um filme sensacional.

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Marcelo Sobrinho 30 de março de 2018 - 10:01

Concordo com tudo o que falou, Joly81! Exceto na parte de dizer que Os Bons Companheiros é subestimado. É um dos filmes mais reconhecidos do Scorsese. Talvez não tanto quanto O Poderoso Chefão, é verdade. Mas o fato deste último ter se tornado uma trilogia acaba tornando-o mais destacado mesmo. Acho natural. Abraços!

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Joly81 27 de março de 2018 - 21:34

Roteiro, direção e atuações espetaculares. Diria que esse filme nao beira a perfeição, ele é perfeito. Clássico insuperável do genero, acho ate que um pouco subestimado, em detrimento de outros. E depois Scorcese ainda fez Casino, que mesmo nao sendo uma obra prima, tambem é um filme sensacional.

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pabloREM 27 de março de 2018 - 13:30

Esse filme é perfeito, genial. E Tommy DeVito é um dos personagens mais escroto da história do cinema rs.

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Marcelo Sobrinho 28 de março de 2018 - 00:56

Mas também um dos personagens mais bem interpretados da história do cinema! Abraços!

Responder
Yuri Alves 27 de março de 2018 - 12:32

Falando na trilha sonora, quando toca Atlantis do Donovan no bar enquanto eles estão matando aquele cara eu achei genial .é uma música inesperada pra esse tipo de cena e funcionou. E no final, quando toca My Way do Sid Vicious simboliza bem o que o Henry ta passando. Ele ta vivendo uma vida “distorcida” do que ele vivia antes. A musica é do Frank Sinatra que representava o glamour e agora o Sid representa o que ele vive hoje. Entendi desse jeito.

Responder
Marcelo Sobrinho 28 de março de 2018 - 00:57

Seu entendimento é perfeiro, Yuri! Só uma análise da trilha sonora já daria um texto inteiro. Tentei incluir o essencial em minha crítica, mas sem me alongar muito. Mas estou de acordo com sua interpretação! Abraços!

Responder
Flavio Batista 27 de março de 2018 - 11:50

E nao sabia q a cena do “o q é engraçado?” tinha sido um improviso.
Mesmo sabendo o desfecho daquela cena, ate hoje, da pra sentir o medo no ar, de q qq coisa pode acontecer. Uma das melhores cenas do cinema, na minha opiniao.

Responder
Marcelo Sobrinho 28 de março de 2018 - 00:59

É um improviso, que Joe Pesci soube fazer com maestria e que Scorsese soube deixar rolar porque sacou na hora que estava acontecendo algo memorável! Que baita filme, não? Abraços!

Responder
Marcelo Sobrinho 28 de março de 2018 - 00:59

É um improviso, que Joe Pesci soube fazer com maestria e que Scorsese soube deixar rolar porque sacou na hora que estava acontecendo algo memorável! Que baita filme, não? Abraços!

Responder
Flavio Batista 27 de março de 2018 - 11:49

Filmaço! e Critica tao boa quanto.
So uma correçao: “As interpretações do trio é irrepreensível”, errinho de concordancia no começo do 4o. paragrafo.

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Marcelo Sobrinho 27 de março de 2018 - 13:24

De fato! Ainda não tive tempo para corrigir mas já havia visto! Obrigado

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Yuri Alves 27 de março de 2018 - 12:32

Falando na trilha sonora, quando toca Atlantis do Donovan no bar enquanto eles estão matando aquele cara eu achei genial .é uma música inesperada pra esse tipo de cena e funcionou. E no final, quando toca My Way do Sid Vicious simboliza bem o que o Henry ta passando. Ele ta vivendo uma vida “distorcida” do que ele vivia antes. A musica é do Frank Sinatra que representava o glamour e agora o Sid representa o que ele vive hoje. Entendi desse jeito.

Responder
Flavio Batista 27 de março de 2018 - 11:50

E nao sabia q a cena do “o q é engraçado?” tinha sido um improviso.
Mesmo sabendo o desfecho daquela cena, ate hoje, da pra sentir o medo no ar, de q qq coisa pode acontecer. Uma das melhores cenas do cinema, na minha opiniao.

Responder
Big Boss 64 27 de março de 2018 - 10:25

Mencionarei dois pontos sobre este filme:

1. Depois de ganhar o Oscar, Joe Pesci passou a fazer só esse tipo de personagem esquentadinho, o que é uma pena.
2. A cena do Ray Liotta apontando pra todos os amigos no tribunal me gerou sentimentos mistos (eu sei que eles eram bandidos e tal, mas e a honra entre ladrões?)

Responder
Marcelo Sobrinho 28 de março de 2018 - 01:02

Não é o primeiro ator que fica escravo de um personagem, lamentavelmente. Repetir a fórmula muitas vezes cansa. Estou de acordo. Quanto à cena do Henry, bem, devolvo um questionamento: você não achou que a ética dos gângsters foi quebrada muitas vezes? Que houve uma relação hierárquica em que o topo da pirâmide fez e refez as próprias regras? Não vi, sinceramente, essa honra entre ladrões como algo de muito valor entre eles. Abraços!

Responder
Marcelo Sobrinho 28 de março de 2018 - 01:02

Não é o primeiro ator que fica escravo de um personagem, lamentavelmente. Repetir a fórmula muitas vezes cansa. Estou de acordo. Quanto à cena do Henry, bem, devolvo um questionamento: você não achou que a ética dos gângsters foi quebrada muitas vezes? Que houve uma relação hierárquica em que o topo da pirâmide fez e refez as próprias regras? Não vi, sinceramente, essa honra entre ladrões como algo de muito valor entre eles. Abraços!

Responder
Cadê o Yoshi? 27 de março de 2018 - 10:25

Mencionarei dois pontos sobre este filme:

1. Depois de ganhar o Oscar, Joe Pesci passou a fazer só esse tipo de personagem esquentadinho, o que é uma pena.
2. A cena do Ray Liotta apontando pra todos os amigos no tribunal me gerou sentimentos mistos (eu sei que eles eram bandidos e tal, mas e a honra entre ladrões?)

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