Crítica | Os Canibais (1988)

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Se o espectador chega a Os Canibais sem saber absolutamente nada sobre o filme, o choque diante do que será apresentado é definitivamente garantido. Também baseado em uma novela de Álvaro Carvalhal, Os Canibais é uma ópera criada especialmente para o cinema. João Paes, que escreveu o libretto, propôs o desafio a Manoel Oliveira, que vinha de um outro experimento cinematográfico (O Meu Caso), e parecia querer explorar todas as possibilidades visuais, narrativas e também musicais que o cinema lhe permitisse.

O enredo mostra a alta classe portuguesa numa mistura de objetos, figurinos e cenários entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, pelo menos no início do filme, quando os carros deixam os personagens numa mansão (o “palácio” da história). Há alguma lembrança de O Anjo Exterminador aqui, mas o filme se afasta rapidamente da proposta buñuelista e mergulha sem temor na fantasia musical, claramente crítica e acidamente cômica, embora todos os pontos reflexivos aqui estejam sujeitos à dinâmica operística, desde a narração inicial, com a criação de um “mito social”, interrompido aqui e ali por um narrador e um violinista meio cínicos, o único contato não fantasioso do espectador tem depois que entra na mansão.

Como muitos dos filmes de Oliveira, o enredo aqui é o mais simples possível, ganhando em cada camada a sua dose de importância e problemáticas imediatas: a caraterização da desejável e bela Margarida (Leonor Silveira, eu sua estreia no cinema), a apresentação enigmática do Visconde d’Aveleda (Luís Miguel Cintra, que começara a trabalhar com Oliveira em O Sapato de Cetim, 1985) e a presença do antagonista amoroso, o inconformado Dom João (Diogo Dória).

Com a música o tempo inteiro presente, temos o primeiro lado do espetáculo já garantido. Sabemos que a ópera vai nos tomar e nos enlevar no decorrer de toda a jornada, mesmo que a história não seja das mais calorosas e luminosas. A trajetória narrativa trabalha com amor não correspondido, perseguição, ficção científica macabra (pela época sugerida na narrativa, algo com tempero steampunk) e conflitos sociais e palacianos, que ganham destaque na reta final da obra, juntamente com uma dose de fantasia que tem seu peso, seu papel cômico e também crítico, vide os gananciosos e canibais transformados em bichos, algo que pode ser simbólico ou fantasticamente real.

A belíssima fotografia de Mário Barroso isola personagens e jamais deixa o espectador se afastar do ambiente operístico, esforço engrossado pela direção fortemente teatral de Oliveira e pela forma como o filme é editado. E é olhando para os atores em cena que temos o nosso primeiro grande problema em Os Canibais: a dublagem. A sincronização e até esforço interpretativo dos atores não combinam com as árias dos cantores originais (especialmente no caso de Diogo Dória, que protagoniza os piores momentos de atuação) e como o diretor faz um grande número de closes, fica difícil não observar e não se incomodar com a constância desse problema. No caso do narrador, dos trechos do coro e das tomadas em plano geral, não existe impasse algum.

O outro grande problema da fita é o fato de o diretor não resistir à tentação de mostrar a “verdadeira figura” do Visconde. Considerando toda a bela sequência da qual ela faz parte, em música, direção de fotografia e direção de arte, temos nesse momento de revelação um verdadeiro balde de água fria. Os efeitos para o corpo são péssimos e o que acontece depois parece seguir a mesma linha de absurdo indigesto dessa parte, com perguntas legítimas mesmo quando a gente está falando de representação fantasiosa e operística, marcadas pelo exagero e pelo insólito. Ocorre que mesmo no caso desses gêneros é preciso que haja coesão entre o ato fantástico e a proposta geral do filme, o que realmente não acontece aqui.

E por mais que eu goste muito da ideia crítica que marca o final da fita, a transformação dos canibais avarentos em bichos e a dança que se segue, também não se encaixam exatamente na leitura feita do todo, considerando ou não a tragédia e a posição do pai e dos irmãos de Margarida como um milagroso destravador da verdadeira face daquele palácio. Pautado por um absurdo que incomoda e faz rir, Os Canibais termina por criar uma realidade surrealista, talvez a verdadeira intenção do filme, depois de todo o ritual de passagem amoroso, trágico e canibalístico. Comer para então mostrar-se como realmente é.

Os Canibais (Portugal, França, Alemanha Ocidental, Itália, Suíça, 1988)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira (baseado na obra de Álvaro Carvalhal)
Libretto: João Paes
Elenco: Luís Miguel Cintra, Leonor Silveira, Diogo Dória, Oliveira Lopes, Pedro T. da Silva, Joel Costa, Rogério Samora, Rogério Vieira, António Loja Neves, Luís Madureira, Teresa Côrte-Real, José Manuel Mendes, Cândido Ferreira, Glória de Matos, Jorge Almeida
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.